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Postagens

O rosto como espelho

  O que é um rosto hoje? Me pergunto se ainda reflete uma identidade, se comunica um conjunto de traços por meio dos quais situamos outra pessoa no tempo e no espaço. Se é também informação importante ou se deixa de valer tanto assim, já que cada um passou a portar um rosto, a exibi-lo temporariamente, a se apresentar por ora. Vini Jr., por exemplo. É um outro e não é, não o reconheço mesmo sendo o mesmo e dele ter apenas uma imagem retida das transmissões de futebol, das fotografias etc. Se o procurasse, não saberia talvez de quem se tratasse agora que mudou de cara, e digo mudar porque creio que mudou de fato, como muitos outros, com resultados melhores e piores. Chegaria a alguém parecido, um rastro do que foi, um vestígio, uma pista, mas não ao jogador. O rosto já não localiza, mas dispersa. Recombinado segundo gosto e poder, altera-se sutil ou radicalmente. Não há mais fidelidade, quem sabe nunca tenha havido. Não reflete, mas inflete, convidando a um novo hábito, esse de ...

As veias estropiadas da América Latina

  Fomos dormir com as ruas enfeitadas por causa da Copa e das festas juninas e acordamos desclassificados e sem o colorido do São João, tudo isso num intervalo de poucos dias, numa queda livre sem escalas. Da euforia da mistura de quadrilha e futebol para esse período de desencanto em meio ao deserto de julho, com as crianças em casa perseguindo seus pais com perguntas sobre derrota, fracasso e vergonha. É um golpe duríssimo numa rotina oblomoviana a que já tinha me habituado, de férias do trabalho, assistindo a cinco ou seis jogos por dia, quando não quatro ou três, às vezes apenas um, comprando pratinho em cada esquina e apontando as bandeirinhas tremulando pra minha filha a caminho da escola ou quando saíamos para o supermercado, onde nos demorávamos escolhendo goiabas e tangerinas, sem pressa alguma pra chegar. E agora nada, nem uma nesga de esperança, nenhum jogo marcado no calendário do próximo sábado ou domingo, zero expectativas em torno de uma vitória do Brasil. Logo as ...

Sonho do hexa e fim da era Neymar

  Talvez Ancelotti tenha razão e o tropeço do Brasil não seja o fim, mas o começo, ao menos o começo de uma era sem Neymar. Foi o que o treinador quis dizer, afinal? Que a partir de agora terá condições de montar um time sem a exigência de que um jogador inepto fosse convocado e atuasse mesmo quando se sabia que não tinha condições físicas? Que a melhor notícia desse domingo de uma frustração que já se tornou familiar foi que a geração da qual Neymar é símbolo está finalmente pendurando as chuteiras? Que a mácula do “sete a um” ficará para trás com o camisa dez, David Luiz e Thiago Silva, não exatamente apagada, mas enterrada o mais fundo possível com esse trio? É possível que sim, que Ancelotti sugira que, sem o fantasma do fanfarrão e do seu choro fingido em campo depois de provocar o goleiro da Noruega e de a partida acabar num clima não apenas de tristeza, mas de melancolia, no que já é de longe um dos episódios mais vergonhosos de nossa história, tenha de fato a chance de prep...

Um crime

  Nas fotos olho principalmente os dedos das mãos e as axilas, não importa de quem, de repente minha atenção se volta para essa região do corpo, é inevitável, tento não fazer isso porque fico envergonhado, mas acontece com estranhos e conhecidos. Começo então a estudar, amplio a imagem para ver detalhes dos nós dos dedos, o tamanho das unhas, não faço juízo de valor, não avalio a estética. Admiro os dedos e as dobras da axila e sua superfície, clara ou escura, marcada ou lisa, depilada ou peluda. Me detenho na imagem, intuo a personalidade a partir dessas partes, antevejo o rosto pela finura dos dedos, se as articulações são mais hábeis em aparência, na verdade não chego a conclusão alguma, apenas vejo, fico olhando um tempo, e não ocorre somente com as fotografias. Se uma pessoa se plantar na minha frente e por acaso levantar os braços pra se coçar ou por qualquer outro motivo, vou olhar pra lá sem querer, vai ficar na cara que olhei rapidamente, mas olhei, quase fingindo que não ...

A noite mais linda do mundo

  Duas caipirinhas e três cervejas depois, pensamos em voltar pra casa, começara a tocar mais uma música cuja letra não reconhecia, sequer o nome da DJ e o restante das coisas que ela dizia no palco, parecia que falava noutra língua, será que era o código da juventude? Mas era natural que não reconhecêssemos, apesar disso insistimos em ficar, a batida era boa, o barulho, as pessoas em volta, todas mais ou menos na casa dos vinte e poucos anos, é bonito observar um jovem assim, despreocupado, a vida pela frente, todas as questões em aberto, é como olhar os animais no zoológico. Aqui e ali alguém mais velho, coisa rara nesse ambiente seguro, uma área espaçosa num centro cultural que rapidamente se converteu no principal ponto de encontro da geração z cearense, mais ou menos o que o Dragão do Mar havia sido para gente um pouco mais velha e um pouco mais nova que eu. Olho pros lados, os raios coloridos, cada grupinho que se formou, fazia tempo que não saíamos de casa, as meninas com a ...

Trecho

  Mas não sei ao certo se fujo do hotel ou dos quartos, se da piscina ou da estrada, se dos fundos do restaurante, onde me acomodava tão logo começava a jantar. Eu gostava do ritual, era como um garoto cuja presença tinha de ser evitada, alguém cuja passagem por ali deveria permanecer incógnita, como se fosse um nazistinha caçado pelas autoridades do meu país, um carrasco-mirim, um tipo de delinquente que estava sendo mantido a salvo por uma rede de criminosos que se disfarçavam de garçons enquanto tocavam seus próprios negócios escusos dia e noite. E eu aceitava de bom grado esse papel, desempenhava-o com prazer porque me fazia crer que eu tinha importância além da desimportância de ser um filho comendo nos fundos do restaurante, atrás do vidro, protegido por esse biombo, dividindo o espaço com mais ninguém por cerca de meia hora ou mais, quando então eu levantava e entregava o prato e depois saía com roupa de frio para a noite da serra. Encontrava os demais garotos já ao redor de...

Os vikings da Copa

  Vi a comemoração dos noruegueses rapidamente num corte de vídeo no X, a tal “remada viking”. Achei que era um exercício de academia de execução moderada. Gesto da torcida repetido pelos jogadores? Ou seria o contrário, começou dentro de campo e se espalhou para as ruas? Não sei, perdi o fio da meada nessa Copa de muitos gols, menos do Brasil, que continua dependendo de um trabalho minucioso de reconstrução do corpo de Neymar. Lá pelas tantas, o atleta bate num tambor. Está rindo, não sei se de nervoso ou de orgulho pelo placar contra o Senegal. Talvez de vergonha. Eu teria, mas tenho vergonha de tudo. Os batuques se aceleram, ganham essa intensidade tribal. Agora em intervalos menores, cada vez menores, em estocadas agudas. Ele convoca a arquibancada a gritar e fazer o mesmo, levanta os braços, parece afogueado como um líder de matilha. Então os companheiros de time o acompanham, simulando a puxada nos remos, que vai num crescendo até um clímax orgiástico. É isso. E tem os urr...

Jogo do contente

  Leio que o livro se tornou artigo de luxo, não apenas pelo preço, que anda mesmo impraticável, mas como objeto que se carrega com a intenção de projetar uma versão de si charmosamente analógica, desconectada da rotinização, livre das pressões dos algoritmos e por aí vai. Performar (me perdoem pelo uso da palavra, mas me sinto na obrigação de acioná-la) um lifestyle cultivado, otimizando capital cultural (expressão que caiu na moda) em tempo rápido a fim de incrementar a própria autoimagem. Livro como acessório, artefato e signo de um recuo cronológico, uma volta no parafuso do consumo. Como item de uma alimentação mais balanceada da qual estão excluídos os fast-foods desse cardápio digital cuja receita se limita a vídeos de curta duração e frases de IA, ambos de uma pobreza cognitiva equiparada aos nutrientes do refrigerante. O livro, não, ele é rico como alimento. Obriga a um mergulho, a uma duração, a uma permanência e retenção da atenção. Dele se ocupa quem não está rolando a ...

O prazer das coisas

Eu sei que esse discurso parece esgotado, cansado até, mas cada vez sentimos menos que algo é palpável, que se relaciona com o mundo por meio do som ou da textura, com os quais mantemos contato familiar, íntimo. Seja um botão, um objeto qualquer, uma ferramenta antes comum, manuseada no dia a dia, ou uma atividade agora fora de moda, fora de propósito, fora da lógica. Tudo se passa como se a tela fosse autossuficiente, por meio dela teríamos abolido o mundo material, o elemento táctil, um conjunto de sensações que se impregnam no ato em si da execução de um procedimento. E nem falo da cerâmica ou da carpintaria ou de coisas apenas desse tipo, “manuais”, ou seja, que demandam mais tempo e por isso estabelecem outro grau de relação entre nós e as coisas, mas de gestos que antes acionavam dispositivos empregados com determinado fim. Em algum nível, a gente tinha alguma ideia do processo, eu acho que sim. Toda essa cadeia foi substituída, todo um repertório de odores ou de prazeres conti...

Rua das bandeirinhas

  Era manhã do dia da estreia da seleção quando um grupo mais entusiasmado de moradores do prédio, contagiado talvez pela onda do verde-amarelismo da qual eu mesmo começava a gostar depois de resistir desde o início da Copa, combinou de enfeitar a rua com bandeirinhas. Uma corrente febril logo se espalhou, começariam primeiro com a fachada do edifício e depois se estenderiam até as esquinas, cobrindo todo o quarteirão. Já tinha visto algumas vias na vizinhança que estavam de fato caprichadas, pinturas pelo chão de asfalto esburacado e meio-fio também. Eram ruas sem iluminação ou iluminadas precariamente, mas agora estavam enfeitadas. Sem árvores, mas pintadas, alegres, felizes. No muro uma pichação de facção, mas o hexa vem. Em suma, um trabalho bonito, organizado, aqui e ali um brasão estropiado. Não era isso que importava. O que importava era essa sensação bissexta de que cruzar a rua proporcionava finalmente um sentimento de prazer coletivo, de força social coesa e mobilizada ...

Perdido na CazéTV

Perdi o momento em que resenha virou a resenha, esse híbrido que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, sinônimo para engraçado e outras coisas cujo significado eu não saberia desfiar agora, sob a pressão do gap geracional que me afasta, nascido nos idos dos 1980, dessa turma pós- 2000, para a qual o normal é a conexão desconectada, a atenção desfocada, de que é exemplar a transmissão da CazéTV. De férias e com tempo relativamente livre, tentei assistir aos jogos da Copa pelo canal do Casemiro, de quem gosto sem conhecê-lo, gosto por supor que era um sujeito comum que de repente venceu na vida. Mas, fora isso, ou seja, fora essa simpatia meio sem razão, admito que não comprei totalmente a história. Digo, me sentia naquele meme do Didi vestindo uma roupagem juvenil sem de fato ostentar um predicado etário para tanto. Tenho 46, e minhas roupas são de alguém que envelheceu sem se preocupar com roupas. Não sei, mas algo no tom e no modo de tratar a matéria era dissonante, não se encaixava....

Neymar: nem vivo nem morto

  A “turma da resenha” gosta de se referir ao jovem Neymar mais ou menos como os marxistas costumavam reverenciar o jovem Marx, isto é, como um oráculo preditivo (redundância justificada) cujo progresso confirma antigas expectativas de sucesso fundadas apenas na fé e no mau-caratismo. Mesmo carregado com auxílio de muletas para lá e para cá e há quase mil dias sem jogar futebol ou qualquer esporte que se pareça com isso, o camisa dez da Canarinho não perdeu sua condição de ícone do sebastianismo made in Brazil. É, sem nunca ter sido, esperança de gol e vitória ainda que habitando esse entrelugar esportivo, físico e existencial: nem fora nem dentro, nem escalado nem descartado, nem goleador nem perna de pau. Nem Cristiano Ronaldo nem Messi. Neymar é a promessa não cumprida de boa atuação de uma seleção que projeta na sua miraculosa recuperação a profecia autorreliazável de uma meritocracia de baixo custo – se ele quiser, ele pode. Mas Neymar quer, Neymar deseja? Nos sonhos dourad...

Gol da Alemanha

  Comento tardiamente o jogo no qual a Alemanha venceu outra seleção, não vem ao caso qual, por placar de sete a um. O mesmo de 2014, sim, aquele pelo qual o Brasil se martiriza hoje ainda, um resultado inverossímil no futebol, adiposo, excedente, dispensável e deselegante. Numa Copa, então, quando uma vitória magra é mais que suficiente, dobrar o concorrente por uma margem tão ampla de tentos é exercício ocioso, uma flagrante insistência no erro. Porque o gol além da conta deixa de representar o gozo e passa ao seu contrário, seja ele qual for. Digo que, a partir do quinto, o jogo se turva, as regras se esfarelam e o objetivo da partida se arrefece. Já não há nada que explique por que onze jogadores de cada lado estejam às voltas com uma bola, tampouco que haja no estádio torcedores aos milhares berrando para o gramado. Atravessado esse limiar, a festa se encerra, sobressaindo tão somente o absurdo do número, o sete pendendo como uma conta que não fecha. E, no entanto, os alemãe...

Sem título

  Acho que não sou tão bom com o pensamento quanto imaginei que seria, quer dizer, gosto de descrever apenas o que vejo, estou sempre procurando a superfície das coisas, com as quais me contento, não quero afundar, ver outros sentidos no que se entrega tal como é, ou tal como penso que é. Digo é, mas não sei o que é, é um outro, como disse alguém a propósito de qualquer coisa que já esqueci, mas não preciso saber o que é para que tenha uma dimensão do que aquilo que se apresenta significa para mim. Prefiro ver a compreender, tocar, se for o caso, mas ver me satisfaz, estou do lado de cá da margem, feliz por simplesmente estar ali, testemunhando sem dizer nada. Meu sonho é habitar um canto, uma quina, uma esquina, na qual uma vez instalado passe desapercebido, não esquecido, mas discretamente ignorado por que circule. O casco do navio, a árvore de tronco bojudo, a carcaça de um animal antigo, um fenômeno natural, a chuva, o entardecer. Nada disso carece de que o expliquem, basta e...

Pela volta do apelido na seleção

Houve um tempo em que a escalação da seleção brasileira era um amontoado de apelidos sonoros e afetivos, quase sempre dissilábicos, de Pelé a Didi, de Vavá a Dodô, incluindo-se Tostão e os mais recentes Zinho e Kaká. Também lembro de Cicinho e dos Ronaldinho, que, se não eram apelidos ao pé da letra, carregavam a força intimista do diminutivo, que apazigua e suaviza o tratamento, aproximando o atleta do torcedor nesse país de cordialidade exagerada. Daí que, na véspera da Copa, com o meu interesse aumentando aos poucos, liguei num desses programas de TV que cobrem o noticiário diretamente dos Estados Unidos. Não reconheci ninguém entre os convocados pelo técnico italiano. Mas não foi isso que me surpreendeu, já que deixei de acompanhar o dia a dia do futebol há algum tempo. A novidade foi a total ausência dos apelidos estampando as camisas amarelas. O repórter, que desfiava os nomes dos agraciados por Ancelotti, não parecia anunciar o time de jogadores, mas a lista de chamada escolar o...

Tudo é riso

Quando menos esperei, fui atravessado por camadas de uma ressignificação afetiva que me fizeram pensar imediatamente que não era sobre isso nem sobre aquilo, não sendo ao final das contas sobre nada, como se supunha que fosse, ou eu supus que fosse. Ainda assim, me senti tentado a experienciar esses novos horizontes correndo contra os lobos, numa intensa jornada de autocuidado que agora me impunha novas rotinas de balanceamento energético. Afinal, tinham sido anos e anos de toxicidade dos quais eu saía mais resiliente que nunca, pronto para me recolocar no mercado do progressismo valorativo adotando posturas auráticas e viscerais, mas sem dar tanto na telha. Performando leituras de cujas páginas eu conhecia apenas de ouvir falar, e às vezes nem isso, me vi de repente nas redes fazendo essa partilha de capital cultural de baixo custo, dando dicas de obras que eu mal compreendia, sugerindo autores fora do cânone que uma amiga de uma amiga gay havia recomendado. Como consequência dessa...

Borgiana

  Anotei a seguinte frase, “minha biblioteca é um arquivo de anseios”, e depois a esqueci como se esquece um livro entre as estantes ou um papel entre as páginas de um volume antes de ter sido tragado por essa voragem cumulativa que caracteriza o gesto do bibliotecário que penso que sou. Lendo-a agora, um tempo depois (mas quanto tempo?), não sei o que tinha em mente quando a escrevi, sequer se de fato fui seu autor, é uma frase que certamente poderia ter deixado anotada em algum canto, a propósito de qualquer coisa, num dia como hoje, no qual olho para os livros e suas lombadas e estranho que estejam ali, que façam parte desse conjunto desconjuntado de obras que me acompanham ao longo da vida sem que eu jamais tenha lhes conferido um princípio ordenador. Mas é também o tipo da frase que eu pescaria de um livro ou artigo em espanhol ou inglês e imediatamente tentaria traduzir, de modo que seria minha a partir de então. Convertida para minha língua, existindo nesse pedaço de chão ou...

Fortaleza sul

  Para onde é o sul de Fortaleza? Fiquei me perguntando depois de entrar numa controvérsia besta, coisa bodejada nas redes sem grande repercussão na vida, mas que soa engraçada, uma piada pedagógica que ilumina o espírito do caboclo local em tempos de narcisismo telúrico. Pois o que há por trás dessa necessidade de instituir um sul que não coincide com o sul geográfico, um sul postiço, tão artificial quanto a grama que haviam mandado assentar na Praça do Ferreira? Um sul político e econômico, que calha de valer como o sul de estados como Rio e São Paulo, lá onde as zonas de grande fluxo de capital estão representadas no cancioneiro e nas novelas do Manoel Carlos. Uma região demarcada no imaginário coletivo, seus sotaques e códigos de vestimenta, a fusão do luxo minimalista com ostentação de alto rendimento. Um sul de caminhantes noturnos e segredos de alcova, de largas calçadas para os passeios das domésticas com os cachorros da família e dos encontros ao acaso das tardes amena...

Ovelhas sonham com carros elétricos

Ouço a música suave do carro elétrico do vizinho antes mesmo que ele se aproxime. É o único som que o veículo produz ao estacionar, como um construto espacial. As notas delicadas como balbucio de bebê, a lataria reluzente, os faróis como se esculpidos por um renascentista, o desenho elegante, discreto e charmoso. Estou de queixo caído, fisgado pelo fetiche, mordido pela inveja. Segue-se uma coreografia: a ré perfeita e a curva sem arestas, desenhada por compasso, nada sobrando nem faltando, nada de trepidação ou ronco de motor, a pegada de carbono como motivo de orgulho. O condutor sai devagar, o peito estufado de quem fez sua parte para desacelerar o relógio do fim do mundo. Mas não estou preocupado com o apocalipse agora. Quero apenas um carro como os que estão coalhando as ruas da cidade, num apelo autoirônico para que o consumidor “construa os seus sonhos”. Meu sonho é comprar um desses. Um veículo chinês que explora mão de obra barata e minerais em países cuja legislação ambient...

O vício do livro

  Às vezes calho de abrir o livro sempre na mesma página, não um livro específico, mas qualquer um, novo ou velho, de Machado ou Stephen King, Ricardo Araújo ou Carrère, deixado para trás em algum desvão da estante ou recém-chegado, com esse cheiro de papel especial. Pesco-o da pilha ao acaso e o folheio sem pretensões, faço aquele gesto de deixá-lo se ampliar como quem se espreguiça, enquanto o seguro pela lombada e com o polegar de uma das mãos vou permitindo que as páginas se desloquem, como fazemos com cartas de um baralho. Essas, porém, não se soltam nem caem, porque estão presas por essa costura interna, pelo menos é assim que penso que os livros se mantêm inteiros ainda hoje, ou seja, porque estão atados por esse mecanismo simples mas eficaz que entrelaça cada folha à anterior e à seguinte, num encadeamento que não se preocupa com a lógica semântica ou sintática da narrativa contada. Então é nessa hora que o livro emperra, por alguma razão sua arquitetura o leva para esse me...