Seria estúpido ouvir o rio, procurá-lo na cidade, um rio não se acha, ele se perde, mas não se acha. Ou está ou não está. É possível vê-lo atravessar um bosque, sim, o parque onde divide leito com o esgoto, em vários pontos indistinguíveis, não se sabe realmente quem é rio e quem é matéria orgânica e detrito e restos que foram canalizados e daí agora estão em procura do mar, como os dejetos da cidade. Ali é o Pajeú ou a caixa sanitária do centro da cidade? Acolá o rio ou encanamento desviado do conjunto de restaurantes da orla? A cidade se ergueu assim, trocando o rio por esgoto, o rio afundando sob camadas de merda que saem dos apartamentos e das casas com destino ao litoral. Toda uma rede subterrânea, um upside down por onde circula esse mundo invertido. Merda canalizada, merda legal e autenticada, cujos caminhos ignoramos porque depois que deixa a privada ou do banheiro é como se fosse um alheio, uma coisa que fazemos questão de querer ver bem longe dali, não é parte da gent...
HENRIQUE ARAÚJO (https://tinyletter.com/Oskarsays)