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Mostrando postagens de abril 20, 2026

Pajeú II

  Seria estúpido ouvir o rio, procurá-lo na cidade, um rio não se acha, ele se perde, mas não se acha. Ou está ou não está. É possível vê-lo atravessar um bosque, sim, o parque onde divide leito com o esgoto, em vários pontos indistinguíveis, não se sabe realmente quem é rio e quem é matéria orgânica e detrito e restos que foram canalizados e daí agora estão em procura do mar, como os dejetos da cidade. Ali é o Pajeú ou a caixa sanitária do centro da cidade? Acolá o rio ou encanamento desviado do conjunto de restaurantes da orla? A cidade se ergueu assim, trocando o rio por esgoto, o rio afundando sob camadas de merda que saem dos apartamentos e das casas com destino ao litoral. Toda uma rede subterrânea, um upside down por onde circula esse mundo invertido. Merda canalizada, merda legal e autenticada, cujos caminhos ignoramos porque depois que deixa a privada ou do banheiro é como se fosse um alheio, uma coisa que fazemos questão de querer ver bem longe dali, não é parte da gent...

Pajeú I

  Uma cidade ainda é cidade se mata um rio no leito do qual se tornou o que é? E seus habitantes, ainda estão em condições de habitar a cidade em torno do rio se com o passar do tempo não se importaram com seu perecimento? Se a cada chuva passaram a comemorar a morte do rio, a celebrar a contenção de concreto intertravado que impede o rio de se expandir, se aplaudem a obra e o cimento e não lamentam o esgoto e o aterramento? Quem prefere o pavimento ao rio? Que nome se dá ao urbanismo que substitui o rio pelo pavimento que o enterra?

Pajeú

Como narrar um rio? Como fazê-lo falar? Um rio tem linguagem? Se sim, que histórias contaria? E com que palavras? Como ouvi-lo? Basta estar em sua margem para escutar a trajetória desse rio subterrâneo, o fiapo que ainda resta e cujo dorso se mostra pouco antes de se enterrar novamente? A história do rio é a história da morte do rio, a história da morte do rio é também a da cidade e das pessoas que se estabeleceram no seu curso ao longo dos séculos, anos e mais anos desviando rota e impondo ao traçado direções que não eram as suas. Qual o custo da morte do rio? Um rio tem preço, sabe-se quanto valeria no mercado imobiliário? Um rio pesa na passagem do ônibus e no IPTU? Um rio agrega valor ao apartamento? Um rio não se mensura, ele simplesmente é esquecido, um rio vai aos bocados sumindo, deixando-se para trás, soterrado. Um rio esquecido ainda é rio? Como esquecer um rio cuja história é a da metrópole que o esqueceu? Como se produz a morte do rio? Como se permite a morte do rio?