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Mostrando postagens de maio 23, 2026

Como andar pra trás

  Essa é uma preocupação recente, não sei se preocupação. Como andar pra trás, digo, como desfazer o feito e desdizer o dito. Não exatamente isso, talvez esteja me referindo ao fato de fazer algo de maneira não natural. Como andar pra atrás. Andar pra trás é não natural. É algo que não fazemos normalmente, por exemplo. No dia a dia caminhamos para frente, não para trás. E se quisermos andar pra trás, chamaremos a atenção. Alguém ou um grupo de pessoas vai rir apontando para nós e dizer; ele ou ela está andando pra trás. Porque de fato andar pra trás é o tipo da coisa esquisita que se feita na rua desperta a curiosidade, o que talvez acabe sendo uma coisa boa. Como exercício, pelo menos, descrever uma sacola de supermercado depois de usá-la pode ser um exercício interessante; A colcha da cama depois de acordar. O sofá. A geladeira e sua organização. Deus, melhor não. A ideia é essa, forçar uma situação qualquer que escape ao habitual. E tentar descrevê-la; apreender a coisa, mesmo q...

Arte do rascunho

  Fiquei pensando que talvez a IA nos mate em pouco tempo, que não exista universidade ou escolas em 30 anos ou que o próprio ato de escrever se torne obsoleto, que os processos dispensem a agência humana e por aí vai, num claro exagero dos riscos hoje existentes para os quais olho entre cínico e preocupado. Mas aí tudo parece repentinamente verossímil, como agora, como hoje, como ontem. Então li que a ganhadora do Nobel admitiu que conversa com a IA para escrever, ou que escreve conservando, ou que escreve depois de conversar, não entendi ao certo. De todo modo há uma escritora laureada com o principal prêmio de literatura, o Nobel, rendida – não sei se posso usar a palavra – ao sistema. Vou usá-la, sim, porque acho que talvez seja isso, ela está tácita ou explicitamente admitindo que o uso da IA pode ser algo sobre o qual devamos pensar a sério também nas atividades que são por assim dizer criativas. Como a literatura e outras coisas. E por sistema quero dizer esse outro jeito ...

As montanhas do Ceará

Da varanda agora olho para o sertão e o que vejo é uma cadeia de montanhas, e não as serras de Maranguape e Pacatuba, aquelas formações vizinhas às quais já tinha me acostumado. Tão logo cedo punha os olhos e ficava perdido nas ondulações azuladas. No Ceará, ou damos as costas ao litoral ou ao sertão, por questão de geografia quase nunca abarcamos esses pontos cardeais que não são apenas direções, são modos de estar no espaço e de se sentir gente no mundo. Por uns tempos estive de frente para o mar, salgando a vista de manhã cedo, curtindo a pele e marinando as horas. De uns anos pra cá me voltei ao sertão, cavando a raiz da família e farejando no ar uma nesga de mudança. Quando encaro um, ignoro o outro, de modo que tenho de fazer escolhas quando ainda sequer tomei café. Ou o mar ou a serra, ou água ou terra, e agora não apenas a terra ou a serra, mas a montanha, visto que, achando pouco que os picos se alteassem e se compusessem numa paisagem já graciosa por si, demos de chamá-los...