Pular para o conteúdo principal

Arte do rascunho

 

Fiquei pensando que talvez a IA nos mate em pouco tempo, que não exista universidade ou escolas em 30 anos ou que o próprio ato de escrever se torne obsoleto, que os processos dispensem a agência humana e por aí vai, num claro exagero dos riscos hoje existentes para os quais olho entre cínico e preocupado.

Mas aí tudo parece repentinamente verossímil, como agora, como hoje, como ontem.

Então li que a ganhadora do Nobel admitiu que conversa com a IA para escrever, ou que escreve conservando, ou que escreve depois de conversar, não entendi ao certo.

De todo modo há uma escritora laureada com o principal prêmio de literatura, o Nobel, rendida – não sei se posso usar a palavra – ao sistema.

Vou usá-la, sim, porque acho que talvez seja isso, ela está tácita ou explicitamente admitindo que o uso da IA pode ser algo sobre o qual devamos pensar a sério também nas atividades que são por assim dizer criativas.

Como a literatura e outras coisas.

E por sistema quero dizer esse outro jeito de escrever, que é um jeito ainda estranho e pouco aceito embora muita gente comece a falar em alto e bom som que recorreu a esta ou aquela inteligência para melhorar uma cena ou procurar saída para uma lacuna ou mesmo buscar ganhos mais interessantes para uma história ainda em estado embrionário.

E é disso que se trata, afinal, a IA operando para aprimorar ou desbloquear uma dificuldade, liberando espaço criativo e abrindo caminhos para que o autor ou autora desenvolva sua trama, melhore seu ambiente, aperfeiçoe suas personagens, caracterizando-as de tal ou tal maneira.

Enfim.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...