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Surto de dicas

  Nunca houve tanta gente disposta a ensinar como e o que se deve escrever, quando, em que circunstâncias, se vale a pena consultar IA etc. Um manancial de dicas, que é como costumo chamar esses pequenos decálogos de sobrevivência para escritoras e escritores, manuais e cadernos de receitas pré-cozidas e prontas para serem levadas ao forno. Dicas para se projetar ou se encaramujar, pra arrasar nas vernissages ou se manter mergulhado naquilo que define a essência do ato de escrever, isto é, a escrita “per si”. Admito que tenho dedicado parte do meu tempo a ler essas dicas, que se contradizem em termos; enquanto um escritor sugere que me concentre nas minhas misérias e esqueça o motivo pelo qual estou realmente escrevendo (dinheiro), outro aconselha a me expor e procurar contato com outros espécimes da raça, ou seja, autores tão ou mais desesperados para publicarem o que quer seja e com isso se tornarem aquilo que estão predestinados a ser. Às vezes, exatamente por causa da naturez...
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A criança como empreendimento

A gestão do futuro escolar da criança por pais e mães diligentes tem ganhado ares olímpicos, quando não extravagantes ou abertamente doentios em casos extremos. Não digo que os genitores queiram o pior para os seus filhos, claro que não, isso jamais aconteceria em condições e tempos nos quais a competição por bons empregos e postos vantajosos na sociedade não estivesse tão presente desde o berçário, passando pela educação infantil e séries iniciais. Hoje é comum que os bebês sejam estimulados a engatinhar e a falar antes do coleguinha, de modo que avancem para a próxima etapa mais rápido, de preferência saltando uma turma, que é para ganhar tempo nessa infância gamificada. O que um recém-nascido faria com tempo extra além de sujar mais fraldas? Isso é irrelevante. Importa é que ele ou ela ou “elu” precisa aprender a ter pressa. Afinal, acabou de chegar ao mundo e tem de se projetar no superaquecido “mercado da fofura”, espécie de campo de disputas em que a concorrência é desleal. Só nã...

O fim da sucata de Chico Alves

Aboletado numa cadeira de plástico sob o sol do meio-dia, Chico Alves, 85 anos, manda o funcionário parar. Quer ver se o capô que o rapaz carregava sobre a cabeça forrada com um pano ainda tinha serventia. “Esse queimou todo”, constata o proprietário da sucata que leva o seu nome. “Pode levar”, ordena, ao que o empregado dá mais uns passos antes de despejar a carcaça do material num contêiner azul parado na frente da edificação, levantando uma nuvem fuliginosa que demora a assentar. É terça-feira, 13 de janeiro de 2026. Já se passaram dez dias desde que quatro homens contratados por seu Chico começaram a remover uma a uma as centenas de peças consumidas pelo incêndio que transformou em metal e plástico retorcidos tudo que o paraibano havia acumulado à frente do maior ferro-velho do Ceará – “e do mundo”, como gostava de brincar. Se Francisco Alves de Oliveira precisou de mais de meio século para erguer seu império de latarias, para-choques, amortecedores, motores e outras quinquilhari...

Mutação da comida

  Tenho a sensação de que a comida se tornou uma coisa inespecífica, genérica. O queijo não é mais queijo, mas um produto emborrachado ao qual se adicionam soro e mais alguma substância cuja essência não consigo definir. O biscoito se transmutou, esfarelando-se mais rapidamente na mão ou se desprendendo na boca, sem necessidade de mastigação. E o que dizer do café? O café se metamorfoseou num inseto, tem cheiro de café, mas o sabor é outro e o preço também: mais elevado do que na semana anterior e sempre abaixo do que estará no dia seguinte. Uma ida ao supermercado tem sido uma experiência tão intrigante quanto um episódio de “Arquivo X”. Me preocupo o tempo inteiro se não estarei sendo enganado, se câmeras escondidas não estão me acompanhando entre as gôndolas e se a verdade não está lá fora. Que verdade? É o que tento descobrir atrás da fileira dos frios, sussurrando para mim mesmo e fingindo especial interesse numa lata de atum. Frequentemente me sinto paranoico enquanto invest...

Ritual da figurinha

  Uma roda de crianças, seis ou sete de idades que variam entre cinco e doze anos, sobraçando pacotes de figurinhas sob olhares ternos e fiscalizadores de adultos, que presumo que sejam pais ou tios ou amigos ou apenas curiosos como eu, que não tomo parte em nada e estou só de passagem pela livraria aonde tinha ido comprar canetas e papel, não livros. Uma ressalva: cada vez mais as livrarias se parecem com armarinhos vendendo papel almaço e toda sorte de lápis e lapiseiras, mas isso é tema para outra conversa. As figurinhas estão organizadas em bolos, pilhas de médio e grande porte, divididas por seleção, grau de importância ou frequência no álbum. As repetidas de um lado e as mais raras, de outro, escondidas. A cada nova transação, os meninos anotam num papel ou acionam algo num aplicativo que reproduz digitalmente o álbum que eles tentam completar com os rostos dos jogadores de futebol das 38 seleções que disputam a Copa do Mundo. Ou foi assim que entendi o processo, posso estar ...

Foto do Sarney

  Acho que nunca disse que minha vó amava o Sarney. Amava de verdade, tinha fotografia dele por toda parte da casa, o mesmo sorriso de jacaré, a boca entreaberta, idade indefinida, uma cabeça angulosamente arredondada, os cabelos finos distribuídos no alto como cartas de baralho na mesa, os olhos suaves e umas bochechas de avô de filme da Sessão da Tarde. Acho que era nisso que a vó gamava, o Sarney parecia meu avô, que tinha dado no pé de novo poucas semanas antes, como sempre fazia de tempos em tempos. Sabe como é agitada essa vida de quem tem dupla família. A dele, a matriz, ficava no Rio Grande do Norte, a terra da minha avó, que ele despachou pra Fortaleza pra não dar problema com os outros parentes, a outra esposa, os outros filhos, as outras filhas. Naquela época os homens se preocupavam se um filho de um casamento poderia de repente encontrar por acaso a filha de outro casamento. O Sarney, não, o Sarney era sempre presente no retrato em cima do armário e noutro ao lado da c...

Modelos de masculinidade

  Se eu tivesse 15 anos hoje, quem seriam os meus modelos de masculinidade, ainda que eu achasse que não precisasse de um? Talvez Neymar? Fabio Porchat? Acho que Porchat não, tem jeitão de beta, pior, de betinha. Certamente nunca farmou aura na escola, não inspira virilidade com aqueles óculos metidos a intelectual e a ossatura feminina, delicada. O Neymar do antigo testamento sem dúvida. Não o de hoje, frágil, acima do peso e sem o apelo do atleta que dobrava qualquer mulher a seus pés. Mas o velho Ney, que era menino ainda quando entrou no palco de um desses programas de auditório e logo foi agarrado por um sem número de garotas na primeira fila – aquele Ney era pica. Cabelo esquisito, franzino naquele biquíni ridículo, mas já ali se notava o gérmen do cara que tinha nascido para guiar, e não para mijar acocorado no sanitário, coisa que talvez nem consiga fazer hoje por causa do problema no joelho. Ninguém imagina o Porchat sendo o Neymar, nem ele nem o Gregório. Olha o nome: Gre...