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As veias estropiadas da América Latina

  Fomos dormir com as ruas enfeitadas por causa da Copa e das festas juninas e acordamos desclassificados e sem o colorido do São João, tudo isso num intervalo de poucos dias, numa queda livre sem escalas. Da euforia da mistura de quadrilha e futebol para esse período de desencanto em meio ao deserto de julho, com as crianças em casa perseguindo seus pais com perguntas sobre derrota, fracasso e vergonha. É um golpe duríssimo numa rotina oblomoviana a que já tinha me habituado, de férias do trabalho, assistindo a cinco ou seis jogos por dia, quando não quatro ou três, às vezes apenas um, comprando pratinho em cada esquina e apontando as bandeirinhas tremulando pra minha filha a caminho da escola ou quando saíamos para o supermercado, onde nos demorávamos escolhendo goiabas e tangerinas, sem pressa alguma pra chegar. E agora nada, nem uma nesga de esperança, nenhum jogo marcado no calendário do próximo sábado ou domingo, zero expectativas em torno de uma vitória do Brasil. Logo as ...
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Sonho do hexa e fim da era Neymar

  Talvez Ancelotti tenha razão e o tropeço do Brasil não seja o fim, mas o começo, ao menos o começo de uma era sem Neymar. Foi o que o treinador quis dizer, afinal? Que a partir de agora terá condições de montar um time sem a exigência de que um jogador inepto fosse convocado e atuasse mesmo quando se sabia que não tinha condições físicas? Que a melhor notícia desse domingo de uma frustração que já se tornou familiar foi que a geração da qual Neymar é símbolo está finalmente pendurando as chuteiras? Que a mácula do “sete a um” ficará para trás com o camisa dez, David Luiz e Thiago Silva, não exatamente apagada, mas enterrada o mais fundo possível com esse trio? É possível que sim, que Ancelotti sugira que, sem o fantasma do fanfarrão e do seu choro fingido em campo depois de provocar o goleiro da Noruega e de a partida acabar num clima não apenas de tristeza, mas de melancolia, no que já é de longe um dos episódios mais vergonhosos de nossa história, tenha de fato a chance de prep...

Um crime

  Nas fotos olho principalmente os dedos das mãos e as axilas, não importa de quem, de repente minha atenção se volta para essa região do corpo, é inevitável, tento não fazer isso porque fico envergonhado, mas acontece com estranhos e conhecidos. Começo então a estudar, amplio a imagem para ver detalhes dos nós dos dedos, o tamanho das unhas, não faço juízo de valor, não avalio a estética. Admiro os dedos e as dobras da axila e sua superfície, clara ou escura, marcada ou lisa, depilada ou peluda. Me detenho na imagem, intuo a personalidade a partir dessas partes, antevejo o rosto pela finura dos dedos, se as articulações são mais hábeis em aparência, na verdade não chego a conclusão alguma, apenas vejo, fico olhando um tempo, e não ocorre somente com as fotografias. Se uma pessoa se plantar na minha frente e por acaso levantar os braços pra se coçar ou por qualquer outro motivo, vou olhar pra lá sem querer, vai ficar na cara que olhei rapidamente, mas olhei, quase fingindo que não ...

A noite mais linda do mundo

  Duas caipirinhas e três cervejas depois, pensamos em voltar pra casa, começara a tocar mais uma música cuja letra não reconhecia, sequer o nome da DJ e o restante das coisas que ela dizia no palco, parecia que falava noutra língua, será que era o código da juventude? Mas era natural que não reconhecêssemos, apesar disso insistimos em ficar, a batida era boa, o barulho, as pessoas em volta, todas mais ou menos na casa dos vinte e poucos anos, é bonito observar um jovem assim, despreocupado, a vida pela frente, todas as questões em aberto, é como olhar os animais no zoológico. Aqui e ali alguém mais velho, coisa rara nesse ambiente seguro, uma área espaçosa num centro cultural que rapidamente se converteu no principal ponto de encontro da geração z cearense, mais ou menos o que o Dragão do Mar havia sido para gente um pouco mais velha e um pouco mais nova que eu. Olho pros lados, os raios coloridos, cada grupinho que se formou, fazia tempo que não saíamos de casa, as meninas com a ...

Trecho

  Mas não sei ao certo se fujo do hotel ou dos quartos, se da piscina ou da estrada, se dos fundos do restaurante, onde me acomodava tão logo começava a jantar. Eu gostava do ritual, era como um garoto cuja presença tinha de ser evitada, alguém cuja passagem por ali deveria permanecer incógnita, como se fosse um nazistinha caçado pelas autoridades do meu país, um carrasco-mirim, um tipo de delinquente que estava sendo mantido a salvo por uma rede de criminosos que se disfarçavam de garçons enquanto tocavam seus próprios negócios escusos dia e noite. E eu aceitava de bom grado esse papel, desempenhava-o com prazer porque me fazia crer que eu tinha importância além da desimportância de ser um filho comendo nos fundos do restaurante, atrás do vidro, protegido por esse biombo, dividindo o espaço com mais ninguém por cerca de meia hora ou mais, quando então eu levantava e entregava o prato e depois saía com roupa de frio para a noite da serra. Encontrava os demais garotos já ao redor de...

Os vikings da Copa

  Vi a comemoração dos noruegueses rapidamente num corte de vídeo no X, a tal “remada viking”. Achei que era um exercício de academia de execução moderada. Gesto da torcida repetido pelos jogadores? Ou seria o contrário, começou dentro de campo e se espalhou para as ruas? Não sei, perdi o fio da meada nessa Copa de muitos gols, menos do Brasil, que continua dependendo de um trabalho minucioso de reconstrução do corpo de Neymar. Lá pelas tantas, o atleta bate num tambor. Está rindo, não sei se de nervoso ou de orgulho pelo placar contra o Senegal. Talvez de vergonha. Eu teria, mas tenho vergonha de tudo. Os batuques se aceleram, ganham essa intensidade tribal. Agora em intervalos menores, cada vez menores, em estocadas agudas. Ele convoca a arquibancada a gritar e fazer o mesmo, levanta os braços, parece afogueado como um líder de matilha. Então os companheiros de time o acompanham, simulando a puxada nos remos, que vai num crescendo até um clímax orgiástico. É isso. E tem os urr...

Jogo do contente

  Leio que o livro se tornou artigo de luxo, não apenas pelo preço, que anda mesmo impraticável, mas como objeto que se carrega com a intenção de projetar uma versão de si charmosamente analógica, desconectada da rotinização, livre das pressões dos algoritmos e por aí vai. Performar (me perdoem pelo uso da palavra, mas me sinto na obrigação de acioná-la) um lifestyle cultivado, otimizando capital cultural (expressão que caiu na moda) em tempo rápido a fim de incrementar a própria autoimagem. Livro como acessório, artefato e signo de um recuo cronológico, uma volta no parafuso do consumo. Como item de uma alimentação mais balanceada da qual estão excluídos os fast-foods desse cardápio digital cuja receita se limita a vídeos de curta duração e frases de IA, ambos de uma pobreza cognitiva equiparada aos nutrientes do refrigerante. O livro, não, ele é rico como alimento. Obriga a um mergulho, a uma duração, a uma permanência e retenção da atenção. Dele se ocupa quem não está rolando a ...