O que entre nós significa a convocação de um jogador de futebol que acaba assumindo ares de defesa de algo mais amplo e duradouro que não apenas a obtenção de um título para a seleção masculina desse esporte? Um “sebastianismo” em cor local, ou seja, uma crença no retorno miraculoso do mito mediante o qual se vencerá a guerra, tal como o rei português cujo desaparecimento produziu essa fantasia ainda no século XVI. A falta e o vazio, o despreparo e a boçalidade, nada disso é bastante para aplacar a convicção em que a menção à figura régia é suficiente para alçar a nação a uma vitória esplendorosa ao final do percurso montanha acima. Mesmo o corpo inábil para a prática futebolística não alimenta qualquer desconfiança, pelo contrário, opera sob uma chave de pensamento mágico segundo a qual o brasileiro estará pronto quando quiser, e talvez ele queira, depende de seus esforços e empenho. Basta querer que Neymar se mostrará o grande jogador que se anuncia desde sua meninice, não ap...
Entre a súplica do torcedor que sonha com Neymar na Copa e vídeos de patriotas bebendo detergente, tentei me refugiar em algum conteúdo mais leve enquanto rolava a barra logo cedo, depois do café da manhã e antes de começar o trabalho, mas acabei caindo na euforia da série da moda. Mesmerizado pelas razões erradas, logo percebi que era outra polêmica. Como diz o ditado, dos males, o menor, mas mesmo o mal menor atualmente tem sido um fardo difícil de suportar, ainda que do outro lado haja o apelo desconcertante de Sydney Sweeney e sua genética trumpista e anti-imigratória. Ou era isso ou a polarização do Ypê. Fiquei com a controvérsia nacional, um exemplo cristalino de que a divisão entre “azuis” e “vermelhos” não está apenas no OnlyFans ou no Tribunal Superior do Trabalho, como supõe o magistrado de ganhos mensais obscenos e régua moral pedestre. A dualidade política já se espalhou para cozinhas, geladeiras e banheiros de todos os lares do país. Do chocolate ao papel higiênico, ...