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Desinfetando a política

  Entre a súplica do torcedor que sonha com Neymar na Copa e vídeos de patriotas bebendo detergente, tentei me refugiar em algum conteúdo mais leve enquanto rolava a barra logo cedo, depois do café da manhã e antes de começar o trabalho, mas acabei caindo na euforia da série da moda. Mesmerizado pelas razões erradas, logo percebi que era outra polêmica. Como diz o ditado, dos males, o menor, mas mesmo o mal menor atualmente tem sido um fardo difícil de suportar, ainda que do outro lado haja o apelo desconcertante de Sydney Sweeney e sua genética trumpista e anti-imigratória. Ou era isso ou a polarização do Ypê. Fiquei com a controvérsia nacional, um exemplo cristalino de que a divisão entre “azuis” e “vermelhos” não está apenas no OnlyFans ou no Tribunal Superior do Trabalho, como supõe o magistrado de ganhos mensais obscenos e régua moral pedestre. A dualidade política já se espalhou para cozinhas, geladeiras e banheiros de todos os lares do país. Do chocolate ao papel higiênico, ...
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Produção do espontâneo

  Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios de futebol talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente. Estão ali, capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato. Aquele momento é postiço, efeito de cálculos, moldado para parecer com o real, mesmo não o sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil. As poses, os sorrisos, a aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é constitutivo de um cotidiano que resiste a qualquer encenação. Os rostos congelados em expressões de absoluta concentração e graça, as linhas da testa mais serenas e as maçãs docemente erguidas, os olhares de uma compenetração quase fora de moda. Mais importante: ninguém fotografado com ...

Banho na Barra

  Atravessávamos de barco de ponta a ponta, do outro lado o banho era mais fácil, não sei se mais fácil, mas era o nosso canto da praia, era a nossa praia, não íamos para outra praia, apenas essa. O pai não estava, somente a mãe, eu e ela, os irmãos não tinham nascido. O melhor era essa travessia, no entanto, o barulho do motor, o flutuador, o condutor, punha a mão na água para sentir a onda à passagem do barco. Do outro lado a praia era como qualquer outra, lembro que um dia um desses barquinhos menores perdeu o controle e avançou sobre uma criança que estava na beira se banhando. Como um barco perde o controle? Houve gritaria, um susto, como numa cena de Tubarão, quando as famílias estão deitadas na areia observando as meninas e os meninos brincarem, mas em vez disso a mancha de sangue era por outro motivo, não havia uma criatura atacando, apenas o motor do barco que havia se desgovernado. A mãe também gritou? Não lembro. Eu estava na areia, não corri perigo, ou corri porque es...

Pajeú II

  Seria estúpido ouvir o rio, procurá-lo na cidade, um rio não se acha, ele se perde, mas não se acha. Ou está ou não está. É possível vê-lo atravessar um bosque, sim, o parque onde divide leito com o esgoto, em vários pontos indistinguíveis, não se sabe realmente quem é rio e quem é matéria orgânica e detrito e restos que foram canalizados e daí agora estão em procura do mar, como os dejetos da cidade. Ali é o Pajeú ou a caixa sanitária do centro da cidade? Acolá o rio ou encanamento desviado do conjunto de restaurantes da orla? A cidade se ergueu assim, trocando o rio por esgoto, o rio afundando sob camadas de merda que saem dos apartamentos e das casas com destino ao litoral. Toda uma rede subterrânea, um upside down por onde circula esse mundo invertido. Merda canalizada, merda legal e autenticada, cujos caminhos ignoramos porque depois que deixa a privada ou do banheiro é como se fosse um alheio, uma coisa que fazemos questão de querer ver bem longe dali, não é parte da gent...

Pajeú I

  Uma cidade ainda é cidade se mata um rio no leito do qual se tornou o que é? E seus habitantes, ainda estão em condições de habitar a cidade em torno do rio se com o passar do tempo não se importaram com seu perecimento? Se a cada chuva passaram a comemorar a morte do rio, a celebrar a contenção de concreto intertravado que impede o rio de se expandir, se aplaudem a obra e o cimento e não lamentam o esgoto e o aterramento? Quem prefere o pavimento ao rio? Que nome se dá ao urbanismo que substitui o rio pelo pavimento que o enterra?

Pajeú

Como narrar um rio? Como fazê-lo falar? Um rio tem linguagem? Se sim, que histórias contaria? E com que palavras? Como ouvi-lo? Basta estar em sua margem para escutar a trajetória desse rio subterrâneo, o fiapo que ainda resta e cujo dorso se mostra pouco antes de se enterrar novamente? A história do rio é a história da morte do rio, a história da morte do rio é também a da cidade e das pessoas que se estabeleceram no seu curso ao longo dos séculos, anos e mais anos desviando rota e impondo ao traçado direções que não eram as suas. Qual o custo da morte do rio? Um rio tem preço, sabe-se quanto valeria no mercado imobiliário? Um rio pesa na passagem do ônibus e no IPTU? Um rio agrega valor ao apartamento? Um rio não se mensura, ele simplesmente é esquecido, um rio vai aos bocados sumindo, deixando-se para trás, soterrado. Um rio esquecido ainda é rio? Como esquecer um rio cuja história é a da metrópole que o esqueceu? Como se produz a morte do rio? Como se permite a morte do rio?

A face oculta

  Estive horas na frente da TV acompanhando os movimentos de uma sonda que se deslocava lenta e imperceptivelmente através do espaço, contornando a órbita lunar como fazemos quando vemos um acidente na estrada, num misto de admiração e temor. Até que tudo se apagou. A muitos quilômetros de distância da Orion, me vi apalermado com essa proeza de tecnologia e engenho. Estava embasbacado em face do que representava aquele hiato de 40 minutos durante o qual os tripulantes, entre eles uma mulher, ficariam sem comunicação, sem notícias sobre guerras, sem qualquer som produzido além do das próprias palavras e pensamentos repetitivos. Essa cena dramática começou a se borrar, no entanto, quando a transmissão cortou para o que parecia a base de lançamento na Terra, onde um grupo de pesquisadores e técnicos se mostrava apreensivo, exatamente como nos tantos filmes de ficção que heroicizam os feitos norte-americanos ao transformar cada pormenor em atos de superação das limitações do gênero hum...