“Talvez tenha sido um erro escrever este livro”, admite a narradora já no terço final de “Argonautas” (2017), de Maggie Nelson, uma obra comovente na qual os processos de mudança constituem o eixo em torno do qual a história avança. Digo avança, mas há mais idas e vindas do que propriamente progressão, já que se trata menos de percorrer caminhos e mais de entender os modos pelos quais alguém vai se tornando o que é – ou o que deseja ser. Nelson combina, assim, teoria e crítica, ensaio pessoal e autobiografia, citações e colagens, numa variação de registros que nunca parece esnobismo ou acumulação pedante. O resultado é uma obra sem gênero – um romance, uma autoteoria, uma viagem (daí o termo “argo”), defini-la importa bem pouco. Se não fosse cafona, diria que é um livro sobre amor – filial, mas também familial. Uma obra que investiga os limites da formação e da transformação seria outra aposta. Mais uma: “Argonautas” é sobre a possibilidade de não se permitir assimilar pelos flu...
À beira de seus 300 anos, tenho pensado na cara de Fortaleza, se há de fato um traço que a traduz, uma palavra que a represente, uma característica, uma pose, um modo de falar ou mangar, enfim, um jeito tipicamente seu de representar a si em meio a tantas outras cidades de outros tantos lugares do mundo. Quero saber se a reconheceria fora, como se reconhece o sotaque de um cearense em qualquer parte do mundo, se a tomaria por minha mesmo supondo que fosse outra, se desembarcaria no Pinto Martins ou na rodoviária e saberia que voltei, se andaria pela Mister Hull ou pela Osório de Paiva e intuiria que Fortaleza é maior. Correndo o risco do reducionismo, perguntaria se esse vezo para a galhofa não seria uma senha, um ethos familiar que é infamiliar, uma proximidade cheia de intimidade que é um tanto de invasão de privacidade, um cuidado que é atrevimento, um respeito que é descuido, um dar de ombros que é abandono, um governo que é desgoverno das coisas. Tudo isso se justifica. Afi...