Eu sei que esse discurso parece esgotado, cansado até, mas cada vez sentimos menos que algo é palpável, que se relaciona com o mundo por meio do som ou da textura, com os quais mantemos contato familiar, íntimo. Seja um botão, um objeto qualquer, uma ferramenta antes comum, manuseada no dia a dia, ou uma atividade agora fora de moda, fora de propósito, fora da lógica. Tudo se passa como se a tela fosse autossuficiente, por meio dela teríamos abolido o mundo material, o elemento táctil, um conjunto de sensações que se impregnam no ato em si da execução de um procedimento. E nem falo da cerâmica ou da carpintaria ou de coisas apenas desse tipo, “manuais”, ou seja, que demandam mais tempo e por isso estabelecem outro grau de relação entre nós e as coisas, mas de gestos que antes acionavam dispositivos empregados com determinado fim. Em algum nível, a gente tinha alguma ideia do processo, eu acho que sim. Toda essa cadeia foi substituída, todo um repertório de odores ou de prazeres conti...
Era manhã do dia da estreia da seleção quando um grupo mais entusiasmado de moradores do prédio, contagiado talvez pela onda do verde-amarelismo da qual eu mesmo começava a gostar depois de resistir desde o início da Copa, combinou de enfeitar a rua com bandeirinhas. Uma corrente febril logo se espalhou, começariam primeiro com a fachada do edifício e depois se estenderiam até as esquinas, cobrindo todo o quarteirão. Já tinha visto algumas vias na vizinhança que estavam de fato caprichadas, pinturas pelo chão de asfalto esburacado e meio-fio também. Eram ruas sem iluminação ou iluminadas precariamente, mas agora estavam enfeitadas. Sem árvores, mas pintadas, alegres, felizes. No muro uma pichação de facção, mas o hexa vem. Em suma, um trabalho bonito, organizado, aqui e ali um brasão estropiado. Não era isso que importava. O que importava era essa sensação bissexta de que cruzar a rua proporcionava finalmente um sentimento de prazer coletivo, de força social coesa e mobilizada ...