“Hora de voltar, Carlos!”, diz a mensagem da academia num apelo amoroso, como a implorar que reatássemos um casamento ou namoro depois de quanto tempo? Já nem sei, e talvez seja melhor que permaneça assim, cada qual no seu quadrado, os aparelhos e halteres de um lado e eu do outro. Dias antes, porém, a plataforma de filmes e séries que eu havia assinado por quase três anos ininterruptos dissera à queima-roupa, depois de um desfecho de relação abrupto, ao qual se seguiu um hiato durante o qual nem ela nem eu proferimos qualquer palavra: “estou com saudades de você”. Assim mesmo, tudo em caixa baixa, intimista como postula a Noemi Jaffe, uma voz tão cuidadosa e familiar que de repente soa como uma canção perdida de Los Hermanos. O que leva uma máquina a se abrir com tamanha coragem para um estranho ou alguém cuja vida ela julga conhecer e de quem se sente não somente próxima, mas apaixonada? Deixo a questão de lado. A loja de roupas onde havia comprado uma camiseta por 59 reais e...
Nunca entendi direito como nasce uma rua da Copa, dessas assim toda enfeitada e pintada, que parece brotar da noite para o dia nos bairros da cidade, com bandeirinhas feitas de papel ou plástico colorido tremulando ao vento, produzindo aquele barulhinho que é como arrulho do mar. Não sabia até deparar com uma rua cuja montagem fui acompanhando aos poucos, sem querer, primeiro desatento e depois como uma finalidade de fato, um propósito de vida, um grande ponto de interrogação existencial. Explico. A cada vez que passava para deixar minha esposa na faculdade, uma parte da via tinha sido coberta. Parava, descia, olhava para um lado e outro, não via ninguém. Nem sinal dos autores da obra coletiva, esses Banksy caboclos metidos em trajes camuflados que assaltavam o espaço público, incógnitos até de si mesmos. Quem eram, o que comiam, de onde vinham? Batia nas portas, alguém atendia, mas era um mistério, o vizinho dizia que tinha sido um grupo de meninos de outra rua, mas isso não e...