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Os vikings da Copa

  Vi a comemoração dos noruegueses rapidamente num corte de vídeo no X, a tal “remada viking”. Achei que era um exercício de academia de execução moderada. Gesto da torcida repetido pelos jogadores? Ou seria o contrário, começou dentro de campo e se espalhou para as ruas? Não sei, perdi o fio da meada nessa Copa de muitos gols, menos do Brasil, que continua dependendo de um trabalho minucioso de reconstrução do corpo de Neymar. Lá pelas tantas, o atleta bate num tambor. Está rindo, não sei se de nervoso ou de orgulho pelo placar contra o Senegal. Talvez de vergonha. Eu teria, mas tenho vergonha de tudo. Os batuques se aceleram, ganham essa intensidade tribal. Agora em intervalos menores, cada vez menores, em estocadas agudas. Ele convoca a arquibancada a gritar e fazer o mesmo, levanta os braços, parece afogueado como um líder de matilha. Então os companheiros de time o acompanham, simulando a puxada nos remos, que vai num crescendo até um clímax orgiástico. É isso. E tem os urr...
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Jogo do contente

  Leio que o livro se tornou artigo de luxo, não apenas pelo preço, que anda mesmo impraticável, mas como objeto que se carrega com a intenção de projetar uma versão de si charmosamente analógica, desconectada da rotinização, livre das pressões dos algoritmos e por aí vai. Performar (me perdoem pelo uso da palavra, mas me sinto na obrigação de acioná-la) um lifestyle cultivado, otimizando capital cultural (expressão que caiu na moda) em tempo rápido a fim de incrementar a própria autoimagem. Livro como acessório, artefato e signo de um recuo cronológico, uma volta no parafuso do consumo. Como item de uma alimentação mais balanceada da qual estão excluídos os fast-foods desse cardápio digital cuja receita se limita a vídeos de curta duração e frases de IA, ambos de uma pobreza cognitiva equiparada aos nutrientes do refrigerante. O livro, não, ele é rico como alimento. Obriga a um mergulho, a uma duração, a uma permanência e retenção da atenção. Dele se ocupa quem não está rolando a ...

O prazer das coisas

Eu sei que esse discurso parece esgotado, cansado até, mas cada vez sentimos menos que algo é palpável, que se relaciona com o mundo por meio do som ou da textura, com os quais mantemos contato familiar, íntimo. Seja um botão, um objeto qualquer, uma ferramenta antes comum, manuseada no dia a dia, ou uma atividade agora fora de moda, fora de propósito, fora da lógica. Tudo se passa como se a tela fosse autossuficiente, por meio dela teríamos abolido o mundo material, o elemento táctil, um conjunto de sensações que se impregnam no ato em si da execução de um procedimento. E nem falo da cerâmica ou da carpintaria ou de coisas apenas desse tipo, “manuais”, ou seja, que demandam mais tempo e por isso estabelecem outro grau de relação entre nós e as coisas, mas de gestos que antes acionavam dispositivos empregados com determinado fim. Em algum nível, a gente tinha alguma ideia do processo, eu acho que sim. Toda essa cadeia foi substituída, todo um repertório de odores ou de prazeres conti...

Rua das bandeirinhas

  Era manhã do dia da estreia da seleção quando um grupo mais entusiasmado de moradores do prédio, contagiado talvez pela onda do verde-amarelismo da qual eu mesmo começava a gostar depois de resistir desde o início da Copa, combinou de enfeitar a rua com bandeirinhas. Uma corrente febril logo se espalhou, começariam primeiro com a fachada do edifício e depois se estenderiam até as esquinas, cobrindo todo o quarteirão. Já tinha visto algumas vias na vizinhança que estavam de fato caprichadas, pinturas pelo chão de asfalto esburacado e meio-fio também. Eram ruas sem iluminação ou iluminadas precariamente, mas agora estavam enfeitadas. Sem árvores, mas pintadas, alegres, felizes. No muro uma pichação de facção, mas o hexa vem. Em suma, um trabalho bonito, organizado, aqui e ali um brasão estropiado. Não era isso que importava. O que importava era essa sensação bissexta de que cruzar a rua proporcionava finalmente um sentimento de prazer coletivo, de força social coesa e mobilizada ...

Perdido na CazéTV

Perdi o momento em que resenha virou a resenha, esse híbrido que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, sinônimo para engraçado e outras coisas cujo significado eu não saberia desfiar agora, sob a pressão do gap geracional que me afasta, nascido nos idos dos 1980, dessa turma pós- 2000, para a qual o normal é a conexão desconectada, a atenção desfocada, de que é exemplar a transmissão da CazéTV. De férias e com tempo relativamente livre, tentei assistir aos jogos da Copa pelo canal do Casemiro, de quem gosto sem conhecê-lo, gosto por supor que era um sujeito comum que de repente venceu na vida. Mas, fora isso, ou seja, fora essa simpatia meio sem razão, admito que não comprei totalmente a história. Digo, me sentia naquele meme do Didi vestindo uma roupagem juvenil sem de fato ostentar um predicado etário para tanto. Tenho 46, e minhas roupas são de alguém que envelheceu sem se preocupar com roupas. Não sei, mas algo no tom e no modo de tratar a matéria era dissonante, não se encaixava....

Neymar: nem vivo nem morto

  A “turma da resenha” gosta de se referir ao jovem Neymar mais ou menos como os marxistas costumavam reverenciar o jovem Marx, isto é, como um oráculo preditivo (redundância justificada) cujo progresso confirma antigas expectativas de sucesso fundadas apenas na fé e no mau-caratismo. Mesmo carregado com auxílio de muletas para lá e para cá e há quase mil dias sem jogar futebol ou qualquer esporte que se pareça com isso, o camisa dez da Canarinho não perdeu sua condição de ícone do sebastianismo made in Brazil. É, sem nunca ter sido, esperança de gol e vitória ainda que habitando esse entrelugar esportivo, físico e existencial: nem fora nem dentro, nem escalado nem descartado, nem goleador nem perna de pau. Nem Cristiano Ronaldo nem Messi. Neymar é a promessa não cumprida de boa atuação de uma seleção que projeta na sua miraculosa recuperação a profecia autorreliazável de uma meritocracia de baixo custo – se ele quiser, ele pode. Mas Neymar quer, Neymar deseja? Nos sonhos dourad...

Gol da Alemanha

  Comento tardiamente o jogo no qual a Alemanha venceu outra seleção, não vem ao caso qual, por placar de sete a um. O mesmo de 2014, sim, aquele pelo qual o Brasil se martiriza hoje ainda, um resultado inverossímil no futebol, adiposo, excedente, dispensável e deselegante. Numa Copa, então, quando uma vitória magra é mais que suficiente, dobrar o concorrente por uma margem tão ampla de tentos é exercício ocioso, uma flagrante insistência no erro. Porque o gol além da conta deixa de representar o gozo e passa ao seu contrário, seja ele qual for. Digo que, a partir do quinto, o jogo se turva, as regras se esfarelam e o objetivo da partida se arrefece. Já não há nada que explique por que onze jogadores de cada lado estejam às voltas com uma bola, tampouco que haja no estádio torcedores aos milhares berrando para o gramado. Atravessado esse limiar, a festa se encerra, sobressaindo tão somente o absurdo do número, o sete pendendo como uma conta que não fecha. E, no entanto, os alemãe...