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De volta ao presente

Tenho nostalgia de quando não estávamos tão encharcados de nostalgia, porejando por todo canto essas referências em excesso, procurando anos idílicos, traçando paralelos com 2016 ou 2020 ou 1980, como se houvesse lá atrás um marco a partir do qual as coisas começaram a dar errado, como parece ter acontecido no Sul do país neste momento. Digo Sul, e não me refiro apenas à assombrosa e tristemente brasileira história do cachorro, mas a uma série de casos de violências e mortes que sugerem que uma Mordor está se erguendo em algum lugar entre o Rio Grande e Santa Catarina, entre o Paraná e a fronteira, com seus caminhantes brancos andando em direção a nós. Mas nem sempre foi assim. O Sul elegeu prefeitos e outros políticos democráticos, não era esse mundo invertido repleto de demônios juvenis aterrorizando as praias, uma nuvem pestilenta de meninos crescidos sem conexão com a realidade, desafiando-se em jogos mortais do dia a dia, praguejando na calada da noite e imprecando contra os p...
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Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Trecentésimo ou tricentésimo?

  Agora que começo o ano de fato é que me vem a dúvida, uma dúvida importante num ano também importante. Trecentésimo ou tricentésimo? Como se pronuncia 300 em termos de aniversário, quero dizer, com bolo e parabéns e essas coisas todas que dizemos e fazemos em épocas festivas? Não sei, então faço rápida pesquisa nesses sites que vão aparecendo sem que eu os procure realmente, consulto dicionários e comparo as respostas que a mente coletiva da máquina cospe no prato, tudo sem sair da página inicial do Google. Os caminhos sugerem que devemos escolher o que convier, ou seja, que tanto faz empregar uma ou outra, preferindo-se a que soar melhor, talvez, ou a mais fácil de escrever. Fico com tricentésimo não apenas porque soa melhor ou é mais simples, mas também por transmitir mais rapidamente o sentido do que pretendo dizer, que é essa ideia de três vezes um século, a idade que Fortaleza completa em 2026. Uma cidade de 300 anos, 45 dos quais eu conheço de perto por nunca ter ido embora...

Datacity

Certo dia acordei de sonhos intranquilos e o Ceará estava irreversivelmente datacentrificado, ou seja, onde antes havia elegantes bairros gentrificados, sem um pé de pobreza, agora viam-se longos paredões com esses gabinetes mastodônticos e CPUs resfolegantes até mesmo de madrugada, ronronando sem parar. Mas não foi do dia para a noite, pelo contrário, esse processo se deu aos poucos, primeiro abocanhando o Pecém, essa Mordor dos povos tradicionais, e de lá avançando por Caucaia, o Vale do Silício que deu certo. Só então o amarelo-envelhecido dos tampos de mesa de escritório e a arquitetura mezzo barroca desses construtos se espalharam pela capital, numa espécie de distopia comemorada pelos gestores como gol de placa, capaz de virar a página de nosso viralatismo estrutural. De súbito, toda uma rede de farmácias precisou se desfazer de suas mais de 280 lojas na metrópole, cedendo seu terreno para o que realmente importava àquela altura: não mais tratar as enfermidades da carne e do es...

Datacentrificação

  Fico preocupado com essa tendência sem saber ao certo se estou do lado correto da história ou se sou apenas um atrasado no sentido lato do termo, alguém que sempre chega tarde e cuja capacidade de compreensão está aquém das possibilidades que se abrem no horizonte. Seria isso, então, sou uma dessas mentalidades negativas para as quais todo o progresso tecnológico é uma notícia fatalmente ruim, seja ele qual for? Olho para os lados e me vejo acuado ante a datacentrificação da província, o avanço a passo largo dos gabinetes mastodônticos e o escoamento da água em dutos cada vez maiores rumo ao Pecém, esse coração pulsante da nova geopolítica cearense, a Mordor para os povos tradicionais do estado, o Vale do Silício desse nosso ímpeto meio “bruzundanga” de superar dificuldades estruturais apostando na Mega Sena da Virada. De repente, distritos e cidades substituídos por construtos semelhantes a gaiolas semiprontas erguidas à beira mar como trailers de hot dog mantidos por Elon Musk,...

Irresoluções de ano novo

  A dúvida: fazer planos ou não, estabelecer metas ou não? Simplesmente deixar correrem os dias, sem previamente demarcá-los com um asterisco na agenda, apontamentos que levem a tarefas programadas desde já, com a antecedência dos precavidos? Ou adotar de vez um modo free style de vivência, randômico por natureza, desobrigado dessa coisa maçante que é cobrir todas as horas úteis e inúteis com pretensões e expectativas, arrumá-las na estante antes que cheguem a alguma gaveta? Escolher um meio termo, ou seja, inscrever como compromisso apenas o essencial, deixando margem para que o contingente se infiltre e eventualmente desorganize e eroda toda essa linearidade pressuposta no andamento das rotinas? Antes de decidir, quis revisitar as anotações do ano passado, que já eram em alguma medida reedições acumuladas da temporada anterior, também elas recombinações de naufrágios de muito tempo atrás, mas não sei onde estão. Eu as perdi, certamente. É possível, no entanto, que as tenha cumpri...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...