Às vezes calho de abrir o livro sempre na mesma página, não um livro específico, mas qualquer um, novo ou velho, de Machado ou Stephen King, Ricardo Araújo ou Carrère, deixado para trás em algum desvão da estante ou recém-chegado, com esse cheiro de papel especial. Pesco-o da pilha ao acaso e o folheio sem pretensões, faço aquele gesto de deixá-lo se ampliar como quem se espreguiça, enquanto o seguro pela lombada e com o polegar de uma das mãos vou permitindo que as páginas se desloquem, como fazemos com cartas de um baralho. Essas, porém, não se soltam nem caem, porque estão presas por essa costura interna, pelo menos é assim que penso que os livros se mantêm inteiros ainda hoje, ou seja, porque estão atados por esse mecanismo simples mas eficaz que entrelaça cada folha à anterior e à seguinte, num encadeamento que não se preocupa com a lógica semântica ou sintática da narrativa contada. Então é nessa hora que o livro emperra, por alguma razão sua arquitetura o leva para esse me...
Nunca houve tanta gente disposta a ensinar como e o que se deve escrever, quando, em que circunstâncias, se vale a pena consultar IA etc. Um manancial de dicas, que é como costumo chamar esses pequenos decálogos de sobrevivência para escritoras e escritores, manuais e cadernos de receitas pré-cozidas e prontas para serem levadas ao forno. Dicas para se projetar ou se encaramujar, pra arrasar nas vernissages ou se manter mergulhado naquilo que define a essência do ato de escrever, isto é, a escrita “per si”. Admito que tenho dedicado parte do meu tempo a ler essas dicas, que se contradizem em termos; enquanto um escritor sugere que me concentre nas minhas misérias e esqueça o motivo pelo qual estou realmente escrevendo (dinheiro), outro aconselha a me expor e procurar contato com outros espécimes da raça, ou seja, autores tão ou mais desesperados para publicarem o que quer seja e com isso se tornarem aquilo que estão predestinados a ser. Às vezes, exatamente por causa da naturez...