Agora que o travessão sumiu da escrita maquinal da IA, os detectores passaram a identificar o uso humano do símbolo gráfico como se fosse artificial, e o artificial como se próprio do humano, numa inversão de papéis na qual há um jogo de gato e rato. Nele o humano se confunde com a máquina e a máquina com o humano, mas logo haverá esse momento em que começaremos a copiar o gesto do humano postiço da IA, que se tornará uma referência para quem escreve e trabalha e faz outras coisas cuja realização depende em alguma medida da criatividade. E o que a máquina dirá? Que aprendeu com o humano a escrever como se fosse humano quando o humano não se espelhava no que a IA manufaturava, mas, de lá pra cá, esse fio da meada acabou se perdendo, de modo que ninguém tem a menor ideia hoje de quem copia quem, se a máquina ao humano ou o contrário, o humano à máquina.
Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente e da presença. Capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato, estão ali, homens e mulheres, autênticos ou inventados com auxílio de IA, nisso não há mais diferença no mundo indiferenciado. Um momento postiço, é verdade. Efeito de cálculos, moldado para se confundir com o real, mesmo não sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil, ao menos por ora, já que o cansaço tecnológico vem a cavalo de galope, a ressaca do emprego contínuo de uma ferramenta, a cafonice de tentar fazer parecer o que não é. Poses, sorrisos, aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é con...