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Borgiana

  Anotei a seguinte frase, “minha biblioteca é um arquivo de anseios”, e depois a esqueci como se esquece um livro entre as estantes ou um papel entre as páginas de um volume antes de ter sido tragado por essa voragem cumulativa que caracteriza o gesto do bibliotecário que penso que sou. Lendo-a agora, um tempo depois (mas quanto tempo?), não sei o que tinha em mente quando a escrevi, sequer se de fato fui seu autor, é uma frase que certamente poderia ter deixado anotada em algum canto, a propósito de qualquer coisa, num dia como hoje, no qual olho para os livros e suas lombadas e estranho que estejam ali, que façam parte desse conjunto desconjuntado de obras que me acompanham ao longo da vida sem que eu jamais tenha lhes conferido um princípio ordenador. Mas é também o tipo da frase que eu pescaria de um livro ou artigo em espanhol ou inglês e imediatamente tentaria traduzir, de modo que seria minha a partir de então. Convertida para minha língua, existindo nesse pedaço de chão ou...
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Fortaleza sul

  Para onde é o sul de Fortaleza? Fiquei me perguntando depois de entrar numa controvérsia besta, coisa bodejada nas redes sem grande repercussão na vida, mas que soa engraçada, uma piada pedagógica que ilumina o espírito do caboclo local em tempos de narcisismo telúrico. Pois o que há por trás dessa necessidade de instituir um sul que não coincide com o sul geográfico, um sul postiço, tão artificial quanto a grama que haviam mandado assentar na Praça do Ferreira? Um sul político e econômico, que calha de valer como o sul de estados como Rio e São Paulo, lá onde as zonas de grande fluxo de capital estão representadas no cancioneiro e nas novelas do Manoel Carlos. Uma região demarcada no imaginário coletivo, seus sotaques e códigos de vestimenta, a fusão do luxo minimalista com ostentação de alto rendimento. Um sul de caminhantes noturnos e segredos de alcova, de largas calçadas para os passeios das domésticas com os cachorros da família e dos encontros ao acaso das tardes amena...

Ovelhas sonham com carros elétricos

Ouço a música suave do carro elétrico do vizinho antes mesmo que ele se aproxime. É o único som que o veículo produz ao estacionar, como um construto espacial. As notas delicadas como balbucio de bebê, a lataria reluzente, os faróis como se esculpidos por um renascentista, o desenho elegante, discreto e charmoso. Estou de queixo caído, fisgado pelo fetiche, mordido pela inveja. Segue-se uma coreografia: a ré perfeita e a curva sem arestas, desenhada por compasso, nada sobrando nem faltando, nada de trepidação ou ronco de motor, a pegada de carbono como motivo de orgulho. O condutor sai devagar, o peito estufado de quem fez sua parte para desacelerar o relógio do fim do mundo. Mas não estou preocupado com o apocalipse agora. Quero apenas um carro como os que estão coalhando as ruas da cidade, num apelo autoirônico para que o consumidor “construa os seus sonhos”. Meu sonho é comprar um desses. Um veículo chinês que explora mão de obra barata e minerais em países cuja legislação ambient...

O vício do livro

  Às vezes calho de abrir o livro sempre na mesma página, não um livro específico, mas qualquer um, novo ou velho, de Machado ou Stephen King, Ricardo Araújo ou Carrère, deixado para trás em algum desvão da estante ou recém-chegado, com esse cheiro de papel especial. Pesco-o da pilha ao acaso e o folheio sem pretensões, faço aquele gesto de deixá-lo se ampliar como quem se espreguiça, enquanto o seguro pela lombada e com o polegar de uma das mãos vou permitindo que as páginas se desloquem, como fazemos com cartas de um baralho. Essas, porém, não se soltam nem caem, porque estão presas por essa costura interna, pelo menos é assim que penso que os livros se mantêm inteiros ainda hoje, ou seja, porque estão atados por esse mecanismo simples mas eficaz que entrelaça cada folha à anterior e à seguinte, num encadeamento que não se preocupa com a lógica semântica ou sintática da narrativa contada. Então é nessa hora que o livro emperra, por alguma razão sua arquitetura o leva para esse me...

Surto de dicas

  Nunca houve tanta gente disposta a ensinar como e o que se deve escrever, quando, em que circunstâncias, se vale a pena consultar IA etc. Um manancial de dicas, que é como costumo chamar esses pequenos decálogos de sobrevivência para escritoras e escritores, manuais e cadernos de receitas pré-cozidas e prontas para serem levadas ao forno. Dicas para se projetar ou se encaramujar, pra arrasar nas vernissages ou se manter mergulhado naquilo que define a essência do ato de escrever, isto é, a escrita “per si”. Admito que tenho dedicado parte do meu tempo a ler essas dicas, que se contradizem em termos; enquanto um escritor sugere que me concentre nas minhas misérias e esqueça o motivo pelo qual estou realmente escrevendo (dinheiro), outro aconselha a me expor e procurar contato com outros espécimes da raça, ou seja, autores tão ou mais desesperados para publicarem o que quer seja e com isso se tornarem aquilo que estão predestinados a ser. Às vezes, exatamente por causa da naturez...

A criança como empreendimento

A gestão do futuro escolar da criança por pais e mães diligentes tem ganhado ares olímpicos, quando não extravagantes ou abertamente doentios em casos extremos. Não digo que os genitores queiram o pior para os seus filhos, claro que não, isso jamais aconteceria em condições e tempos nos quais a competição por bons empregos e postos vantajosos na sociedade não estivesse tão presente desde o berçário, passando pela educação infantil e séries iniciais. Hoje é comum que os bebês sejam estimulados a engatinhar e a falar antes do coleguinha, de modo que avancem para a próxima etapa mais rápido, de preferência saltando uma turma, que é para ganhar tempo nessa infância gamificada. O que um recém-nascido faria com tempo extra além de sujar mais fraldas? Isso é irrelevante. Importa é que ele ou ela ou “elu” precisa aprender a ter pressa. Afinal, acabou de chegar ao mundo e tem de se projetar no superaquecido “mercado da fofura”, espécie de campo de disputas em que a concorrência é desleal. Só nã...

O fim da sucata de Chico Alves

Aboletado numa cadeira de plástico sob o sol do meio-dia, Chico Alves, 85 anos, manda o funcionário parar. Quer ver se o capô que o rapaz carregava sobre a cabeça forrada com um pano ainda tinha serventia. “Esse queimou todo”, constata o proprietário da sucata que leva o seu nome. “Pode levar”, ordena, ao que o empregado dá mais uns passos antes de despejar a carcaça do material num contêiner azul parado na frente da edificação, levantando uma nuvem fuliginosa que demora a assentar. É terça-feira, 13 de janeiro de 2026. Já se passaram dez dias desde que quatro homens contratados por seu Chico começaram a remover uma a uma as centenas de peças consumidas pelo incêndio que transformou em metal e plástico retorcidos tudo que o paraibano havia acumulado à frente do maior ferro-velho do Ceará – “e do mundo”, como gostava de brincar. Se Francisco Alves de Oliveira precisou de mais de meio século para erguer seu império de latarias, para-choques, amortecedores, motores e outras quinquilhari...