Aboletado numa cadeira de plástico sob o sol do meio-dia, Chico Alves, 85 anos, manda o funcionário parar. Quer ver se o capô que o rapaz carregava sobre a cabeça forrada com um pano ainda tinha serventia. “Esse queimou todo”, constata o proprietário da sucata que leva o seu nome. “Pode levar”, ordena, ao que o empregado dá mais uns passos antes de despejar a carcaça do material num contêiner azul parado na frente da edificação, levantando uma nuvem fuliginosa que demora a assentar. É terça-feira, 13 de janeiro de 2026. Já se passaram dez dias desde que quatro homens contratados por seu Chico começaram a remover uma a uma as centenas de peças consumidas pelo incêndio que transformou em metal e plástico retorcidos tudo que o paraibano havia acumulado à frente do maior ferro-velho do Ceará – “e do mundo”, como gostava de brincar. Se Francisco Alves de Oliveira precisou de mais de meio século para erguer seu império de latarias, para-choques, amortecedores, motores e outras quinquilhari...
Tenho a sensação de que a comida se tornou uma coisa inespecífica, genérica. O queijo não é mais queijo, mas um produto emborrachado ao qual se adicionam soro e mais alguma substância cuja essência não consigo definir. O biscoito se transmutou, esfarelando-se mais rapidamente na mão ou se desprendendo na boca, sem necessidade de mastigação. E o que dizer do café? O café se metamorfoseou num inseto, tem cheiro de café, mas o sabor é outro e o preço também: mais elevado do que na semana anterior e sempre abaixo do que estará no dia seguinte. Uma ida ao supermercado tem sido uma experiência tão intrigante quanto um episódio de “Arquivo X”. Me preocupo o tempo inteiro se não estarei sendo enganado, se câmeras escondidas não estão me acompanhando entre as gôndolas e se a verdade não está lá fora. Que verdade? É o que tento descobrir atrás da fileira dos frios, sussurrando para mim mesmo e fingindo especial interesse numa lata de atum. Frequentemente me sinto paranoico enquanto invest...