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Banho na Barra

  Atravessávamos de barco de ponta a ponta, do outro lado o banho era mais fácil, não sei se mais fácil, mas era o nosso canto da praia, era a nossa praia, não íamos para outra praia, apenas essa. O pai não estava, somente a mãe, eu e ela, os irmãos não tinham nascido. O melhor era essa travessia, no entanto, o barulho do motor, o flutuador, o condutor, punha a mão na água para sentir a onda à passagem do barco. Do outro lado a praia era como qualquer outra, lembro que um dia um desses barquinhos menores perdeu o controle e avançou sobre uma criança que estava na beira se banhando. Como um barco perde o controle? Houve gritaria, um susto, como numa cena de Tubarão, quando as famílias estão deitadas na areia observando as meninas e os meninos brincarem, mas em vez disso a mancha de sangue era por outro motivo, não havia uma criatura atacando, apenas o motor do barco que havia se desgovernado. A mãe também gritou? Não lembro. Eu estava na areia, não corri perigo, ou corri porque es...
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Pajeú II

  Seria estúpido ouvir o rio, procurá-lo na cidade, um rio não se acha, ele se perde, mas não se acha. Ou está ou não está. É possível vê-lo atravessar um bosque, sim, o parque onde divide leito com o esgoto, em vários pontos indistinguíveis, não se sabe realmente quem é rio e quem é matéria orgânica e detrito e restos que foram canalizados e daí agora estão em procura do mar, como os dejetos da cidade. Ali é o Pajeú ou a caixa sanitária do centro da cidade? Acolá o rio ou encanamento desviado do conjunto de restaurantes da orla? A cidade se ergueu assim, trocando o rio por esgoto, o rio afundando sob camadas de merda que saem dos apartamentos e das casas com destino ao litoral. Toda uma rede subterrânea, um upside down por onde circula esse mundo invertido. Merda canalizada, merda legal e autenticada, cujos caminhos ignoramos porque depois que deixa a privada ou do banheiro é como se fosse um alheio, uma coisa que fazemos questão de querer ver bem longe dali, não é parte da gent...

Pajeú I

  Uma cidade ainda é cidade se mata um rio no leito do qual se tornou o que é? E seus habitantes, ainda estão em condições de habitar a cidade em torno do rio se com o passar do tempo não se importaram com seu perecimento? Se a cada chuva passaram a comemorar a morte do rio, a celebrar a contenção de concreto intertravado que impede o rio de se expandir, se aplaudem a obra e o cimento e não lamentam o esgoto e o aterramento? Quem prefere o pavimento ao rio? Que nome se dá ao urbanismo que substitui o rio pelo pavimento que o enterra?

Pajeú

Como narrar um rio? Como fazê-lo falar? Um rio tem linguagem? Se sim, que histórias contaria? E com que palavras? Como ouvi-lo? Basta estar em sua margem para escutar a trajetória desse rio subterrâneo, o fiapo que ainda resta e cujo dorso se mostra pouco antes de se enterrar novamente? A história do rio é a história da morte do rio, a história da morte do rio é também a da cidade e das pessoas que se estabeleceram no seu curso ao longo dos séculos, anos e mais anos desviando rota e impondo ao traçado direções que não eram as suas. Qual o custo da morte do rio? Um rio tem preço, sabe-se quanto valeria no mercado imobiliário? Um rio pesa na passagem do ônibus e no IPTU? Um rio agrega valor ao apartamento? Um rio não se mensura, ele simplesmente é esquecido, um rio vai aos bocados sumindo, deixando-se para trás, soterrado. Um rio esquecido ainda é rio? Como esquecer um rio cuja história é a da metrópole que o esqueceu? Como se produz a morte do rio? Como se permite a morte do rio?

A face oculta

  Estive horas na frente da TV acompanhando os movimentos de uma sonda que se deslocava lenta e imperceptivelmente através do espaço, contornando a órbita lunar como fazemos quando vemos um acidente na estrada, num misto de admiração e temor. Até que tudo se apagou. A muitos quilômetros de distância da Orion, me vi apalermado com essa proeza de tecnologia e engenho. Estava embasbacado em face do que representava aquele hiato de 40 minutos durante o qual os tripulantes, entre eles uma mulher, ficariam sem comunicação, sem notícias sobre guerras, sem qualquer som produzido além do das próprias palavras e pensamentos repetitivos. Essa cena dramática começou a se borrar, no entanto, quando a transmissão cortou para o que parecia a base de lançamento na Terra, onde um grupo de pesquisadores e técnicos se mostrava apreensivo, exatamente como nos tantos filmes de ficção que heroicizam os feitos norte-americanos ao transformar cada pormenor em atos de superação das limitações do gênero hum...

E o cabra vai endoidar?

  Só hoje reparei nessa pérola do cancioneiro nacional cuja letra enumera razões pelas quais o eu lírico desse misto de forró e sertanejo (“E o cabra vai endoidar?”) poderia desabar sob o peso de um “burnout”, mas resolve dar de ombros para os pequenos contratempos da vida contemporânea. Há, porém, mais caroço no angu desses versos que se tornaram ainda mais conhecidos depois da performance abestalhada do palhaço Tirulipa nas redes sociais umas semanas atrás. “O comprador quer desconto / o funcionário quer aumento / a ex quer pensão / a atual quer dinheiro / a amante quer joias / e o governo quer imposto”, lista o narrador, que arremata, numa conclusão que soa inevitável diante da escalada cumulativa de compromissos que o pressionam por todos os lados: “E o cabra vai endoidar, é”?. Decerto que não. Ao menos é o que sugere a música logo na primeira audição, que se segue a uma segunda e depois a uma terceira, menos por interesse na atuação do filho de Tiririca e mais para que fique e...

A nova linguagem

  Tenho saudades de quando a gente separava o verbo do predicado com uma vírgula exasperante, que caía na frase como um cisco no olho, ardia na pele como vinagre na ferida e embrulhava o estômago como cheiro de murici. A gente era feliz e não sabia. Afinal, nada era mais humano do que o erro grosseiro, a falta da crase ou a crase mal empregada, o “porquê” junto que devia estar separado ou separado quando junto, com acento quando a norma culta previa sem e por aí vai. Enfim, toda sorte de anglicismo ou barbarismo ou qualquer atropelo de escrita que, embora condenado por professores de português, revelava-se humano, demasiadamente humano, nada mais que humano. E hoje? Hoje é diferente, a linguagem cheia de uns automatismos canhestros, uma hipercorreção, um cerebralismo aparvalhado, palavras e construções de sintaxe estranha que não parecem ter saído da cabeça de ninguém, mas da mente coletiva de uma IA cuja matéria-prima é ainda o que os humanos escreveram, mas logo será o que as pró...