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Maximizando o maxxing

  Alimento sempre uma desconfiança profilática em relação a certas palavras e conceitos, tais como wellness e maxxing, ambas pertencentes ao mesmo campo semântico, isto é, o das tendências de bem-estar que proliferam rapidamente na internet como soluções para tudo, mas que acabam se mostrando doentias. Tome-se “wellness”, por exemplo, carro-chefe de avanços na arquitetura e no paisagismo, na ginástica laboral e nos desenhos com tinta guache, no desenvolvimento de aplicativos e na decoração de interiores, na vestimenta e nos cuidados com pets. Não se tropeça mais na rua sem antes atentar para as condições de bem-estar físico e psicológico, regras mediante as quais o bicho humano se converte nesse cristalzinho delicado que precisa estar sendo constantemente metrificado por gadgets e paparicado por luminárias otimizadas para funcionar num ritmo circadiano e outras baboseiras do tipo high tech. Enfim, é um mundo que se abre quando a ponta do iceberg desse esquema de pirâmide wellness...
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Casa ou clínica

  Quero falar do charme das casas com cara de clínica, a sala como recepção e a fachada como se fosse a entrada de uma empresa do ramo de entregas, um galpão como filial de big tech. A numeração extravagante, caso ninguém consiga vê-la de longe, procurando o endereço. A porta como se de um castelo, o telhado fora do alcance da vista, os tijolos como se de arruamento medieval assentados por mãos de pedreiros cuja escala de trabalho é 24/7. Tudo nessa residência é feito para combinar habitação com negócio, lar com trabalho, convertendo a convivência num ativo financeiro e a intimidade numa extensão da transação comercial. Afinal, o que a casa-clínica quer comunicar e a quem? A que anseios a construção arquitetônica atende com seus sistemas de iluminação simulando o ritmo circadiano e seu discurso de biofilia e estética neurocognitiva? Nessas moradias, o curvo e o reto convivem em harmonia no pé direito alto, o que sem dúvida é agradável, e também nessa luminosidade variável acionad...

Gato e rato

Agora que o travessão sumiu da escrita maquinal da IA, os detectores passaram a identificar o uso humano do símbolo gráfico como se fosse artificial, e o artificial como se próprio do humano, numa inversão de papéis na qual há um jogo de gato e rato. Nele o humano se confunde com a máquina e a máquina com o humano, mas logo haverá esse momento em que começaremos a copiar o gesto do humano postiço da IA, que se tornará uma referência para quem escreve e trabalha e faz outras coisas cuja realização depende em alguma medida da criatividade. E o que a máquina dirá? Que aprendeu com o humano a escrever como se fosse humano quando o humano não se espelhava no que a IA manufaturava, mas, de lá pra cá, esse fio da meada acabou se perdendo, de modo que ninguém tem a menor ideia hoje de quem copia quem, se a máquina ao humano ou o contrário, o humano à máquina.

Produção do espontâneo ainda

  Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente e da presença. Capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato, estão ali, homens e mulheres, autênticos ou inventados com auxílio de IA, nisso não há mais diferença no mundo indiferenciado. Um momento postiço, é verdade. Efeito de cálculos, moldado para se confundir com o real, mesmo não sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil, ao menos por ora, já que o cansaço tecnológico vem a cavalo de galope, a ressaca do emprego contínuo de uma ferramenta, a cafonice de tentar fazer parecer o que não é. Poses, sorrisos, aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é con...

O mundo do concurseiro

O mundo do concurseiro lembra uma igreja. Há sempre os testemunhos antes das aulas atestando a validade da fé no próprio esforço e afiançando que, se houver entrega e uma mentalidade vitoriosa, um dia essa vaga prometida chegará num certame qualquer, não se sabe se nesta ou noutra encarnação. Por razões pessoais, tenho passado a frequentar esses cultos. Gosto de me diluir na massa de alunos entre esperançosos e ressabiados, todos ungidos por uma graça distante e cada um imbuído de um propósito singular e levemente desesperado. Qual? Ganhar mais ou algum dinheiro e garantir estabilidade num mundo instável e prestes a colapsar, não interessa se hoje ou daqui a duas décadas. Para um grupo tão heterogêneo, o futuro é imediato e as opções, nenhuma. Ouço a voz grave do professor no evangelho das orações – subordinadas reduzidas de infinitivo –, e prontamente me genuflexo. Mas, como não estou certo de que esse verbo é pronominal (embora o use assim mesmo porque tenho preguiça de consultar o...

O rosto como espelho

  O que é um rosto hoje? Me pergunto se ainda reflete uma identidade, se comunica um conjunto de traços por meio dos quais situamos outra pessoa no tempo e no espaço. Se é também informação importante ou se deixa de valer tanto assim, já que cada um passou a portar um rosto, a exibi-lo temporariamente, a se apresentar por ora. Vini Jr., por exemplo. É um outro e não é, não o reconheço mesmo sendo o mesmo e dele ter apenas uma imagem retida das transmissões de futebol, das fotografias etc. Se o procurasse, não saberia talvez de quem se tratasse agora que mudou de cara, e digo mudar porque creio que mudou de fato, como muitos outros, com resultados melhores e piores. Chegaria a alguém parecido, um rastro do que foi, um vestígio, uma pista, mas não ao jogador. O rosto já não localiza, mas dispersa. Recombinado segundo gosto e poder, altera-se sutil ou radicalmente. Não há mais fidelidade, quem sabe nunca tenha havido. Não reflete, mas inflete, convidando a um novo hábito, esse de ...

As veias estropiadas da América Latina

  Fomos dormir com as ruas enfeitadas por causa da Copa e das festas juninas e acordamos desclassificados e sem o colorido do São João, tudo isso num intervalo de poucos dias, numa queda livre sem escalas. Da euforia da mistura de quadrilha e futebol para esse período de desencanto em meio ao deserto de julho, com as crianças em casa perseguindo seus pais com perguntas sobre derrota, fracasso e vergonha. É um golpe duríssimo numa rotina oblomoviana a que já tinha me habituado, de férias do trabalho, assistindo a cinco ou seis jogos por dia, quando não quatro ou três, às vezes apenas um, comprando pratinho em cada esquina e apontando as bandeirinhas tremulando pra minha filha a caminho da escola ou quando saíamos para o supermercado, onde nos demorávamos escolhendo goiabas e tangerinas, sem pressa alguma pra chegar. E agora nada, nem uma nesga de esperança, nenhum jogo marcado no calendário do próximo sábado ou domingo, zero expectativas em torno de uma vitória do Brasil. Logo as ...