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Gato e rato

Agora que o travessão sumiu da escrita maquinal da IA, os detectores passaram a identificar o uso humano do símbolo gráfico como se fosse artificial, e o artificial como se próprio do humano, numa inversão de papéis na qual há um jogo de gato e rato. Nele o humano se confunde com a máquina e a máquina com o humano, mas logo haverá esse momento em que começaremos a copiar o gesto do humano postiço da IA, que se tornará uma referência para quem escreve e trabalha e faz outras coisas cuja realização depende em alguma medida da criatividade. E o que a máquina dirá? Que aprendeu com o humano a escrever como se fosse humano quando o humano não se espelhava no que a IA manufaturava, mas, de lá pra cá, esse fio da meada acabou se perdendo, de modo que ninguém tem a menor ideia hoje de quem copia quem, se a máquina ao humano ou o contrário, o humano à máquina.
Postagens recentes

Produção do espontâneo ainda

  Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente e da presença. Capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato, estão ali, homens e mulheres, autênticos ou inventados com auxílio de IA, nisso não há mais diferença no mundo indiferenciado. Um momento postiço, é verdade. Efeito de cálculos, moldado para se confundir com o real, mesmo não sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil, ao menos por ora, já que o cansaço tecnológico vem a cavalo de galope, a ressaca do emprego contínuo de uma ferramenta, a cafonice de tentar fazer parecer o que não é. Poses, sorrisos, aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é con...

O mundo do concurseiro

O mundo do concurseiro lembra uma igreja. Há sempre os testemunhos antes das aulas atestando a validade da fé no próprio esforço e afiançando que, se houver entrega e uma mentalidade vitoriosa, um dia essa vaga prometida chegará num certame qualquer, não se sabe se nesta ou noutra encarnação. Por razões pessoais, tenho passado a frequentar esses cultos. Gosto de me diluir na massa de alunos entre esperançosos e ressabiados, todos ungidos por uma graça distante e cada um imbuído de um propósito singular e levemente desesperado. Qual? Ganhar mais ou algum dinheiro e garantir estabilidade num mundo instável e prestes a colapsar, não interessa se hoje ou daqui a duas décadas. Para um grupo tão heterogêneo, o futuro é imediato e as opções, nenhuma. Ouço a voz grave do professor no evangelho das orações – subordinadas reduzidas de infinitivo –, e prontamente me genuflexo. Mas, como não estou certo de que esse verbo é pronominal (embora o use assim mesmo porque tenho preguiça de consultar o...

O rosto como espelho

  O que é um rosto hoje? Me pergunto se ainda reflete uma identidade, se comunica um conjunto de traços por meio dos quais situamos outra pessoa no tempo e no espaço. Se é também informação importante ou se deixa de valer tanto assim, já que cada um passou a portar um rosto, a exibi-lo temporariamente, a se apresentar por ora. Vini Jr., por exemplo. É um outro e não é, não o reconheço mesmo sendo o mesmo e dele ter apenas uma imagem retida das transmissões de futebol, das fotografias etc. Se o procurasse, não saberia talvez de quem se tratasse agora que mudou de cara, e digo mudar porque creio que mudou de fato, como muitos outros, com resultados melhores e piores. Chegaria a alguém parecido, um rastro do que foi, um vestígio, uma pista, mas não ao jogador. O rosto já não localiza, mas dispersa. Recombinado segundo gosto e poder, altera-se sutil ou radicalmente. Não há mais fidelidade, quem sabe nunca tenha havido. Não reflete, mas inflete, convidando a um novo hábito, esse de ...

As veias estropiadas da América Latina

  Fomos dormir com as ruas enfeitadas por causa da Copa e das festas juninas e acordamos desclassificados e sem o colorido do São João, tudo isso num intervalo de poucos dias, numa queda livre sem escalas. Da euforia da mistura de quadrilha e futebol para esse período de desencanto em meio ao deserto de julho, com as crianças em casa perseguindo seus pais com perguntas sobre derrota, fracasso e vergonha. É um golpe duríssimo numa rotina oblomoviana a que já tinha me habituado, de férias do trabalho, assistindo a cinco ou seis jogos por dia, quando não quatro ou três, às vezes apenas um, comprando pratinho em cada esquina e apontando as bandeirinhas tremulando pra minha filha a caminho da escola ou quando saíamos para o supermercado, onde nos demorávamos escolhendo goiabas e tangerinas, sem pressa alguma pra chegar. E agora nada, nem uma nesga de esperança, nenhum jogo marcado no calendário do próximo sábado ou domingo, zero expectativas em torno de uma vitória do Brasil. Logo as ...

Sonho do hexa e fim da era Neymar

  Talvez Ancelotti tenha razão e o tropeço do Brasil não seja o fim, mas o começo, ao menos o começo de uma era sem Neymar. Foi o que o treinador quis dizer, afinal? Que a partir de agora terá condições de montar um time sem a exigência de que um jogador inepto fosse convocado e atuasse mesmo quando se sabia que não tinha condições físicas? Que a melhor notícia desse domingo de uma frustração que já se tornou familiar foi que a geração da qual Neymar é símbolo está finalmente pendurando as chuteiras? Que a mácula do “sete a um” ficará para trás com o camisa dez, David Luiz e Thiago Silva, não exatamente apagada, mas enterrada o mais fundo possível com esse trio? É possível que sim, que Ancelotti sugira que, sem o fantasma do fanfarrão e do seu choro fingido em campo depois de provocar o goleiro da Noruega e de a partida acabar num clima não apenas de tristeza, mas de melancolia, no que já é de longe um dos episódios mais vergonhosos de nossa história, tenha de fato a chance de prep...

Um crime

  Nas fotos olho principalmente os dedos das mãos e as axilas, não importa de quem, de repente minha atenção se volta para essa região do corpo, é inevitável, tento não fazer isso porque fico envergonhado, mas acontece com estranhos e conhecidos. Começo então a estudar, amplio a imagem para ver detalhes dos nós dos dedos, o tamanho das unhas, não faço juízo de valor, não avalio a estética. Admiro os dedos e as dobras da axila e sua superfície, clara ou escura, marcada ou lisa, depilada ou peluda. Me detenho na imagem, intuo a personalidade a partir dessas partes, antevejo o rosto pela finura dos dedos, se as articulações são mais hábeis em aparência, na verdade não chego a conclusão alguma, apenas vejo, fico olhando um tempo, e não ocorre somente com as fotografias. Se uma pessoa se plantar na minha frente e por acaso levantar os braços pra se coçar ou por qualquer outro motivo, vou olhar pra lá sem querer, vai ficar na cara que olhei rapidamente, mas olhei, quase fingindo que não ...