Anotei a seguinte frase, “minha biblioteca é um arquivo de anseios”, e depois a esqueci como se esquece um livro entre as estantes ou um papel entre as páginas de um volume antes de ter sido tragado por essa voragem cumulativa que caracteriza o gesto do bibliotecário que penso que sou. Lendo-a agora, um tempo depois (mas quanto tempo?), não sei o que tinha em mente quando a escrevi, sequer se de fato fui seu autor, é uma frase que certamente poderia ter deixado anotada em algum canto, a propósito de qualquer coisa, num dia como hoje, no qual olho para os livros e suas lombadas e estranho que estejam ali, que façam parte desse conjunto desconjuntado de obras que me acompanham ao longo da vida sem que eu jamais tenha lhes conferido um princípio ordenador. Mas é também o tipo da frase que eu pescaria de um livro ou artigo em espanhol ou inglês e imediatamente tentaria traduzir, de modo que seria minha a partir de então. Convertida para minha língua, existindo nesse pedaço de chão ou...
Para onde é o sul de Fortaleza? Fiquei me perguntando depois de entrar numa controvérsia besta, coisa bodejada nas redes sem grande repercussão na vida, mas que soa engraçada, uma piada pedagógica que ilumina o espírito do caboclo local em tempos de narcisismo telúrico. Pois o que há por trás dessa necessidade de instituir um sul que não coincide com o sul geográfico, um sul postiço, tão artificial quanto a grama que haviam mandado assentar na Praça do Ferreira? Um sul político e econômico, que calha de valer como o sul de estados como Rio e São Paulo, lá onde as zonas de grande fluxo de capital estão representadas no cancioneiro e nas novelas do Manoel Carlos. Uma região demarcada no imaginário coletivo, seus sotaques e códigos de vestimenta, a fusão do luxo minimalista com ostentação de alto rendimento. Um sul de caminhantes noturnos e segredos de alcova, de largas calçadas para os passeios das domésticas com os cachorros da família e dos encontros ao acaso das tardes amena...