À beira de seus 300 anos, tenho pensado na cara de Fortaleza, se há de fato um traço que a traduz, uma palavra que a represente, uma característica, uma pose, um modo de falar ou mangar, enfim, um jeito tipicamente seu de representar a si em meio a tantas outras cidades de outros tantos lugares do mundo. Quero saber se a reconheceria fora, como se reconhece o sotaque de um cearense em qualquer parte do mundo, se a tomaria por minha mesmo supondo que fosse outra, se desembarcaria no Pinto Martins ou na rodoviária e saberia que voltei, se andaria pela Mister Hull ou pela Osório de Paiva e intuiria que Fortaleza é maior. Correndo o risco do reducionismo, perguntaria se esse vezo para a galhofa não seria uma senha, um ethos familiar que é infamiliar, uma proximidade cheia de intimidade que é um tanto de invasão de privacidade, um cuidado que é atrevimento, um respeito que é descuido, um dar de ombros que é abandono, um governo que é desgoverno das coisas. Tudo isso se justifica. Afi...
Tenho nostalgia de quando não estávamos tão encharcados de nostalgia, porejando por todo canto essas referências em excesso, procurando anos idílicos, traçando paralelos com 2016 ou 2020 ou 1980, como se houvesse lá atrás um marco a partir do qual as coisas começaram a dar errado, como parece ter acontecido no Sul do país neste momento. Digo Sul, e não me refiro apenas à assombrosa e tristemente brasileira história do cachorro, mas a uma série de casos de violências e mortes que sugerem que uma Mordor está se erguendo em algum lugar entre o Rio Grande e Santa Catarina, entre o Paraná e a fronteira, com seus caminhantes brancos andando em direção a nós. Mas nem sempre foi assim. O Sul elegeu prefeitos e outros políticos democráticos, não era esse mundo invertido repleto de demônios juvenis aterrorizando as praias, uma nuvem pestilenta de meninos crescidos sem conexão com a realidade, desafiando-se em jogos mortais do dia a dia, praguejando na calada da noite e imprecando contra os p...