Ouço a música suave do carro elétrico do vizinho antes mesmo que ele se aproxime. É o único som que o veículo produz ao estacionar, como um construto espacial. As notas delicadas como balbucio de bebê, a lataria reluzente, os faróis como se esculpidos por um renascentista, o desenho elegante, discreto e charmoso. Estou de queixo caído, fisgado pelo fetiche, mordido pela inveja. Segue-se uma coreografia: a ré perfeita e a curva sem arestas, desenhada por compasso, nada sobrando nem faltando, nada de trepidação ou ronco de motor, a pegada de carbono como motivo de orgulho. O condutor sai devagar, o peito estufado de quem fez sua parte para desacelerar o relógio do fim do mundo. Mas não estou preocupado com o apocalipse agora. Quero apenas um carro como os que estão coalhando as ruas da cidade, num apelo autoirônico para que o consumidor “construa os seus sonhos”. Meu sonho é comprar um desses. Um veículo chinês que explora mão de obra barata e minerais em países cuja legislação ambient...
Às vezes calho de abrir o livro sempre na mesma página, não um livro específico, mas qualquer um, novo ou velho, de Machado ou Stephen King, Ricardo Araújo ou Carrère, deixado para trás em algum desvão da estante ou recém-chegado, com esse cheiro de papel especial. Pesco-o da pilha ao acaso e o folheio sem pretensões, faço aquele gesto de deixá-lo se ampliar como quem se espreguiça, enquanto o seguro pela lombada e com o polegar de uma das mãos vou permitindo que as páginas se desloquem, como fazemos com cartas de um baralho. Essas, porém, não se soltam nem caem, porque estão presas por essa costura interna, pelo menos é assim que penso que os livros se mantêm inteiros ainda hoje, ou seja, porque estão atados por esse mecanismo simples mas eficaz que entrelaça cada folha à anterior e à seguinte, num encadeamento que não se preocupa com a lógica semântica ou sintática da narrativa contada. Então é nessa hora que o livro emperra, por alguma razão sua arquitetura o leva para esse me...