Acho que nunca disse que minha vó amava o Sarney. Amava de verdade, tinha fotografia dele por toda parte da casa, o mesmo sorriso de jacaré, a boca entreaberta, idade indefinida, uma cabeça angulosamente arredondada, os cabelos finos distribuídos no alto como cartas de baralho na mesa, os olhos suaves e umas bochechas de avô de filme da Sessão da Tarde. Acho que era nisso que a vó gamava, o Sarney parecia meu avô, que tinha dado no pé de novo poucas semanas antes, como sempre fazia de tempos em tempos. Sabe como é agitada essa vida de quem tem dupla família. A dele, a matriz, ficava no Rio Grande do Norte, a terra da minha avó, que ele despachou pra Fortaleza pra não dar problema com os outros parentes, a outra esposa, os outros filhos, as outras filhas. Naquela época os homens se preocupavam se um filho de um casamento poderia de repente encontrar por acaso a filha de outro casamento. O Sarney, não, o Sarney era sempre presente no retrato em cima do armário e noutro ao lado da c...
Se eu tivesse 15 anos hoje, quem seriam os meus modelos de masculinidade, ainda que eu achasse que não precisasse de um? Talvez Neymar? Fabio Porchat? Acho que Porchat não, tem jeitão de beta, pior, de betinha. Certamente nunca farmou aura na escola, não inspira virilidade com aqueles óculos metidos a intelectual e a ossatura feminina, delicada. O Neymar do antigo testamento sem dúvida. Não o de hoje, frágil, acima do peso e sem o apelo do atleta que dobrava qualquer mulher a seus pés. Mas o velho Ney, que era menino ainda quando entrou no palco de um desses programas de auditório e logo foi agarrado por um sem número de garotas na primeira fila – aquele Ney era pica. Cabelo esquisito, franzino naquele biquíni ridículo, mas já ali se notava o gérmen do cara que tinha nascido para guiar, e não para mijar acocorado no sanitário, coisa que talvez nem consiga fazer hoje por causa do problema no joelho. Ninguém imagina o Porchat sendo o Neymar, nem ele nem o Gregório. Olha o nome: Gre...