Mas não sei ao certo se fujo do hotel ou dos quartos, se da piscina ou da estrada, se dos fundos do restaurante, onde me acomodava tão logo começava a jantar. Eu gostava do ritual, era como um garoto cuja presença tinha de ser evitada, alguém cuja passagem por ali deveria permanecer incógnita, como se fosse um nazistinha caçado pelas autoridades do meu país, um carrasco-mirim, um tipo de delinquente que estava sendo mantido a salvo por uma rede de criminosos que se disfarçavam de garçons enquanto tocavam seus próprios negócios escusos dia e noite. E eu aceitava de bom grado esse papel, desempenhava-o com prazer porque me fazia crer que eu tinha importância além da desimportância de ser um filho comendo nos fundos do restaurante, atrás do vidro, protegido por esse biombo, dividindo o espaço com mais ninguém por cerca de meia hora ou mais, quando então eu levantava e entregava o prato e depois saía com roupa de frio para a noite da serra. Encontrava os demais garotos já ao redor de...
Vi a comemoração dos noruegueses rapidamente num corte de vídeo no X, a tal “remada viking”. Achei que era um exercício de academia de execução moderada. Gesto da torcida repetido pelos jogadores? Ou seria o contrário, começou dentro de campo e se espalhou para as ruas? Não sei, perdi o fio da meada nessa Copa de muitos gols, menos do Brasil, que continua dependendo de um trabalho minucioso de reconstrução do corpo de Neymar. Lá pelas tantas, o atleta bate num tambor. Está rindo, não sei se de nervoso ou de orgulho pelo placar contra o Senegal. Talvez de vergonha. Eu teria, mas tenho vergonha de tudo. Os batuques se aceleram, ganham essa intensidade tribal. Agora em intervalos menores, cada vez menores, em estocadas agudas. Ele convoca a arquibancada a gritar e fazer o mesmo, levanta os braços, parece afogueado como um líder de matilha. Então os companheiros de time o acompanham, simulando a puxada nos remos, que vai num crescendo até um clímax orgiástico. É isso. E tem os urr...