Tenho saudades de quando a gente separava o verbo do predicado com uma vírgula exasperante, que caía na frase como um cisco no olho, ardia na pele como vinagre na ferida e embrulhava o estômago como cheiro de murici. A gente era feliz e não sabia. Afinal, nada era mais humano do que o erro grosseiro, a falta da crase ou a crase mal empregada, o “porquê” junto que devia estar separado ou separado quando junto, com acento quando a norma culta previa sem e por aí vai. Enfim, toda sorte de anglicismo ou barbarismo ou qualquer atropelo de escrita que, embora condenado por professores de português, revelava-se humano, demasiadamente humano, nada mais que humano. E hoje? Hoje é diferente, a linguagem cheia de uns automatismos canhestros, uma hipercorreção, um cerebralismo aparvalhado, palavras e construções de sintaxe estranha que não parecem ter saído da cabeça de ninguém, mas da mente coletiva de uma IA cuja matéria-prima é ainda o que os humanos escreveram, mas logo será o que as pró...
“Talvez tenha sido um erro escrever este livro”, admite a narradora já no terço final de “Argonautas” (2017), de Maggie Nelson, uma obra comovente na qual os processos de mudança constituem o eixo em torno do qual a história avança. Digo avança, mas há mais idas e vindas do que propriamente progressão, já que se trata menos de percorrer caminhos e mais de entender os modos pelos quais alguém vai se tornando o que é – ou o que deseja ser. Nelson combina, assim, teoria e crítica, ensaio pessoal e autobiografia, citações e colagens, numa variação de registros que nunca parece esnobismo ou acumulação pedante. O resultado é uma obra sem gênero – um romance, uma autoteoria, uma viagem (daí o termo “argo”), defini-la importa bem pouco. Se não fosse cafona, diria que é um livro sobre amor – filial, mas também familial. Uma obra que investiga os limites da formação e da transformação seria outra aposta. Mais uma: “Argonautas” é sobre a possibilidade de não se permitir assimilar pelos flu...