Essa é uma preocupação recente, não sei se preocupação. Como andar pra trás, digo, como desfazer o feito e desdizer o dito. Não exatamente isso, é possível que esteja me referindo ao fato de fazer algo de maneira não natural. Como andar pra atrás. Andar pra trás é não natural. É algo que não fazemos normalmente, por exemplo. No dia a dia caminhamos para frente, não para trás. E se quisermos andar pra trás, chamaremos a atenção. Alguém ou um grupo de pessoas vai rir apontando para nós e dizer; ele ou ela está andando pra trás. Porque de fato andar pra trás é o tipo da coisa esquisita que se feita na rua desperta a curiosidade, o que talvez acabe sendo uma coisa boa. Como exercício, pelo menos, descrever uma sacola de supermercado depois de usá-la pode ser uma atividade interessante. A colcha da cama depois de acordar. O sofá. A geladeira e sua organização. Deus, melhor não. A ideia é essa, forçar uma situação qualquer que fuja ao habitual. E tentar descrevê-la; apreender a coisa, ...
Fiquei pensando que talvez a IA nos mate em pouco tempo, que não exista universidade ou escolas em 30 anos ou que o próprio ato de escrever se torne obsoleto, que os processos dispensem a agência humana e por aí vai, num claro exagero dos riscos hoje existentes para os quais olho entre cínico e preocupado. Mas aí tudo parece repentinamente verossímil, como agora, como hoje, como ontem. Então li que a ganhadora do Nobel admitiu que conversa com a IA para escrever, ou que escreve conservando, ou que escreve depois de conversar, não entendi ao certo. De todo modo há uma escritora laureada com o principal prêmio de literatura, o Nobel, rendida – não sei se posso usar a palavra – ao sistema. Vou usá-la, sim, porque acho que talvez seja isso, ela está tácita ou explicitamente admitindo que o uso da IA pode ser algo sobre o qual devamos pensar a sério também nas atividades que são por assim dizer criativas. Como a literatura e outras coisas. E por sistema quero dizer esse outro jeito ...