Pular para o conteúdo principal

Postagens

A face oculta

  Estive horas na frente da TV acompanhando os movimentos de uma sonda que se deslocava lenta e imperceptivelmente através do espaço, contornando a órbita lunar como fazemos quando vemos um acidente na estrada, num misto de admiração e temor. Até que tudo se apagou. A muitos quilômetros de distância da Orion, me vi apalermado com essa proeza de tecnologia e engenho. Estava embasbacado em face do que representava aquele hiato de 40 minutos durante o qual os tripulantes, entre eles uma mulher, ficariam sem comunicação, sem notícias sobre guerras, sem qualquer som produzido além do das próprias palavras e pensamentos repetitivos. Essa cena dramática começou a se borrar, no entanto, quando a transmissão cortou para o que parecia a base de lançamento na Terra, onde um grupo de pesquisadores e técnicos se mostrava apreensivo, exatamente como nos tantos filmes de ficção que heroicizam os feitos norte-americanos ao transformar cada pormenor em atos de superação das limitações do gênero hum...
Postagens recentes

E o cabra vai endoidar?

  Só hoje reparei nessa pérola do cancioneiro nacional cuja letra enumera razões pelas quais o eu lírico desse misto de forró e sertanejo (“E o cabra vai endoidar?”) poderia desabar sob o peso de um “burnout”, mas resolve dar de ombros para os pequenos contratempos da vida contemporânea. Há, porém, mais caroço no angu desses versos que se tornaram ainda mais conhecidos depois da performance abestalhada do palhaço Tirulipa nas redes sociais umas semanas atrás. “O comprador quer desconto / o funcionário quer aumento / a ex quer pensão / a atual quer dinheiro / a amante quer joias / e o governo quer imposto”, lista o narrador, que arremata, numa conclusão que soa inevitável diante da escalada cumulativa de compromissos que o pressionam por todos os lados: “E o cabra vai endoidar, é”?. Decerto que não. Ao menos é o que sugere a música logo na primeira audição, que se segue a uma segunda e depois a uma terceira, menos por interesse na atuação do filho de Tiririca e mais para que fique e...

A nova linguagem

  Tenho saudades de quando a gente separava o verbo do predicado com uma vírgula exasperante, que caía na frase como um cisco no olho, ardia na pele como vinagre na ferida e embrulhava o estômago como cheiro de murici. A gente era feliz e não sabia. Afinal, nada era mais humano do que o erro grosseiro, a falta da crase ou a crase mal empregada, o “porquê” junto que devia estar separado ou separado quando junto, com acento quando a norma culta previa sem e por aí vai. Enfim, toda sorte de anglicismo ou barbarismo ou qualquer atropelo de escrita que, embora condenado por professores de português, revelava-se humano, demasiadamente humano, nada mais que humano. E hoje? Hoje é diferente, a linguagem cheia de uns automatismos canhestros, uma hipercorreção, um cerebralismo aparvalhado, palavras e construções de sintaxe estranha que não parecem ter saído da cabeça de ninguém, mas da mente coletiva de uma IA cuja matéria-prima é ainda o que os humanos escreveram, mas logo será o que as pró...

Sobre 'Argonautas'

  “Talvez tenha sido um erro escrever este livro”, admite a narradora já no terço final de “Argonautas” (2017), de Maggie Nelson, uma obra comovente na qual os processos de mudança constituem o eixo em torno do qual a história avança. Digo avança, mas há mais idas e vindas do que propriamente progressão, já que se trata menos de percorrer caminhos e mais de entender os modos pelos quais alguém vai se tornando o que é – ou o que deseja ser. Nelson combina, assim, teoria e crítica, ensaio pessoal e autobiografia, citações e colagens, numa variação de registros que nunca parece esnobismo ou acumulação pedante. O resultado é uma obra sem gênero – um romance, uma autoteoria, uma viagem (daí o termo “argo”), defini-la importa bem pouco. Se não fosse cafona, diria que é um livro sobre amor – filial, mas também familial. Uma obra que investiga os limites da formação e da transformação seria outra aposta. Mais uma: “Argonautas” é sobre a possibilidade de não se permitir assimilar pelos flu...

A cara de Fortaleza

  À beira de seus 300 anos, tenho pensado na cara de Fortaleza, se há de fato um traço que a traduz, uma palavra que a represente, uma característica, uma pose, um modo de falar ou mangar, enfim, um jeito tipicamente seu de representar a si em meio a tantas outras cidades de outros tantos lugares do mundo. Quero saber se a reconheceria fora, como se reconhece o sotaque de um cearense em qualquer parte do mundo, se a tomaria por minha mesmo supondo que fosse outra, se desembarcaria no Pinto Martins ou na rodoviária e saberia que voltei, se andaria pela Mister Hull ou pela Osório de Paiva e intuiria que Fortaleza é maior. Correndo o risco do reducionismo, perguntaria se esse vezo para a galhofa não seria uma senha, um ethos familiar que é infamiliar, uma proximidade cheia de intimidade que é um tanto de invasão de privacidade, um cuidado que é atrevimento, um respeito que é descuido, um dar de ombros que é abandono, um governo que é desgoverno das coisas. Tudo isso se justifica. Afi...

De volta ao presente

Tenho nostalgia de quando não estávamos tão encharcados de nostalgia, porejando por todo canto essas referências em excesso, procurando anos idílicos, traçando paralelos com 2016 ou 2020 ou 1980, como se houvesse lá atrás um marco a partir do qual as coisas começaram a dar errado, como parece ter acontecido no Sul do país neste momento. Digo Sul, e não me refiro apenas à assombrosa e tristemente brasileira história do cachorro, mas a uma série de casos de violências e mortes que sugerem que uma Mordor está se erguendo em algum lugar entre o Rio Grande e Santa Catarina, entre o Paraná e a fronteira, com seus caminhantes brancos andando em direção a nós. Mas nem sempre foi assim. O Sul elegeu prefeitos e outros políticos democráticos, não era esse mundo invertido repleto de demônios juvenis aterrorizando as praias, uma nuvem pestilenta de meninos crescidos sem conexão com a realidade, desafiando-se em jogos mortais do dia a dia, praguejando na calada da noite e imprecando contra os p...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...