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Como andar pra trás

  Essa é uma preocupação recente, não sei se preocupação. Como andar pra trás, digo, como desfazer o feito e desdizer o dito. Não exatamente isso, é possível que esteja me referindo ao fato de fazer algo de maneira não natural. Como andar pra atrás. Andar pra trás é não natural. É algo que não fazemos normalmente, por exemplo. No dia a dia caminhamos para frente, não para trás. E se quisermos andar pra trás, chamaremos a atenção. Alguém ou um grupo de pessoas vai rir apontando para nós e dizer; ele ou ela está andando pra trás. Porque de fato andar pra trás é o tipo da coisa esquisita que se feita na rua desperta a curiosidade, o que talvez acabe sendo uma coisa boa. Como exercício, pelo menos, descrever uma sacola de supermercado depois de usá-la pode ser uma atividade interessante. A colcha da cama depois de acordar. O sofá. A geladeira e sua organização. Deus, melhor não. A ideia é essa, forçar uma situação qualquer que fuja ao habitual. E tentar descrevê-la; apreender a coisa, ...
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Arte do rascunho

  Fiquei pensando que talvez a IA nos mate em pouco tempo, que não exista universidade ou escolas em 30 anos ou que o próprio ato de escrever se torne obsoleto, que os processos dispensem a agência humana e por aí vai, num claro exagero dos riscos hoje existentes para os quais olho entre cínico e preocupado. Mas aí tudo parece repentinamente verossímil, como agora, como hoje, como ontem. Então li que a ganhadora do Nobel admitiu que conversa com a IA para escrever, ou que escreve conservando, ou que escreve depois de conversar, não entendi ao certo. De todo modo há uma escritora laureada com o principal prêmio de literatura, o Nobel, rendida – não sei se posso usar a palavra – ao sistema. Vou usá-la, sim, porque acho que talvez seja isso, ela está tácita ou explicitamente admitindo que o uso da IA pode ser algo sobre o qual devamos pensar a sério também nas atividades que são por assim dizer criativas. Como a literatura e outras coisas. E por sistema quero dizer esse outro jeito ...

As montanhas do Ceará

Da varanda agora olho para o sertão e o que vejo é uma cadeia de montanhas, e não as serras de Maranguape e Pacatuba, aquelas formações vizinhas às quais já tinha me acostumado. Tão logo cedo punha os olhos e ficava perdido nas ondulações azuladas. No Ceará, ou damos as costas ao litoral ou ao sertão, por questão de geografia quase nunca abarcamos esses pontos cardeais que não são apenas direções, são modos de estar no espaço e de se sentir gente no mundo. Por uns tempos estive de frente para o mar, salgando a vista de manhã cedo, curtindo a pele e marinando as horas. De uns anos pra cá me voltei ao sertão, cavando a raiz da família e farejando no ar uma nesga de mudança. Quando encaro um, ignoro o outro, de modo que tenho de fazer escolhas quando ainda sequer tomei café. Ou o mar ou a serra, ou água ou terra, e agora não apenas a terra ou a serra, mas a montanha, visto que, achando pouco que os picos se alteassem e se compusessem numa paisagem já graciosa por si, demos de chamá-los...

Ainda o Neymar

  O que entre nós significa a convocação de um jogador de futebol que acaba assumindo ares de defesa de algo mais amplo e duradouro que não apenas a obtenção de um título para a seleção masculina desse esporte? Um “sebastianismo” em cor local, ou seja, uma crença no retorno miraculoso do mito mediante o qual se vencerá a guerra, tal como o rei português cujo desaparecimento produziu essa fantasia ainda no século XVI. A falta e o vazio, o despreparo e a boçalidade, nada disso é bastante para aplacar a convicção em que a menção à figura régia é suficiente para alçar a nação a uma vitória esplendorosa ao final do percurso montanha acima. Mesmo o corpo inábil para a prática futebolística não alimenta qualquer desconfiança, pelo contrário, opera sob uma chave de pensamento mágico segundo a qual o brasileiro estará pronto quando quiser, e talvez ele queira, depende de seus esforços e empenho. Basta querer que Neymar se mostrará o grande jogador que se anuncia desde sua meninice, não ap...

Desinfetando a política

  Entre a súplica do torcedor que sonha com Neymar na Copa e vídeos de patriotas bebendo detergente, tentei me refugiar em algum conteúdo mais leve enquanto rolava a barra logo cedo, depois do café da manhã e antes de começar o trabalho, mas acabei caindo na euforia da série da moda. Mesmerizado pelas razões erradas, logo percebi que era outra polêmica. Como diz o ditado, dos males, o menor, mas mesmo o mal menor atualmente tem sido um fardo difícil de suportar, ainda que do outro lado haja o apelo desconcertante de Sydney Sweeney e sua genética trumpista e anti-imigratória. Ou era isso ou a polarização do Ypê. Fiquei com a controvérsia nacional, um exemplo cristalino de que a divisão entre “azuis” e “vermelhos” não está apenas no OnlyFans ou no Tribunal Superior do Trabalho, como supõe o magistrado de ganhos mensais obscenos e régua moral pedestre. A dualidade política já se espalhou para cozinhas, geladeiras e banheiros de todos os lares do país. Do chocolate ao papel higiênico, ...

Produção do espontâneo

  Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios de futebol talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente. Estão ali, capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato. Aquele momento é postiço, efeito de cálculos, moldado para parecer com o real, mesmo não o sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil. As poses, os sorrisos, a aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é constitutivo de um cotidiano que resiste a qualquer encenação. Os rostos congelados em expressões de absoluta concentração e graça, as linhas da testa mais serenas e as maçãs docemente erguidas, os olhares de uma compenetração quase fora de moda. Mais importante: ninguém fotografado com ...

Banho na Barra

  Atravessávamos de barco de ponta a ponta, do outro lado o banho era mais fácil, não sei se mais fácil, mas era o nosso canto da praia, era a nossa praia, não íamos para outra praia, apenas essa. O pai não estava, somente a mãe, eu e ela, os irmãos não tinham nascido. O melhor era essa travessia, no entanto, o barulho do motor, o flutuador, o condutor, punha a mão na água para sentir a onda à passagem do barco. Do outro lado a praia era como qualquer outra, lembro que um dia um desses barquinhos menores perdeu o controle e avançou sobre uma criança que estava na beira se banhando. Como um barco perde o controle? Houve gritaria, um susto, como numa cena de Tubarão, quando as famílias estão deitadas na areia observando as meninas e os meninos brincarem, mas em vez disso a mancha de sangue era por outro motivo, não havia uma criatura atacando, apenas o motor do barco que havia se desgovernado. A mãe também gritou? Não lembro. Eu estava na areia, não corri perigo, ou corri porque es...