Quero falar do charme das casas com cara de clínica, a sala como recepção e a fachada como se fosse a entrada de uma empresa do ramo de entregas, um galpão como filial de big tech. A numeração extravagante, caso ninguém consiga vê-la de longe, procurando o endereço. A porta como se de um castelo, o telhado fora do alcance da vista, os tijolos como se de arruamento medieval assentados por mãos de pedreiros cuja escala de trabalho é 24/7. Tudo nessa residência é feito para combinar habitação com negócio, lar com trabalho, convertendo a convivência num ativo financeiro e a intimidade numa extensão da transação comercial. Afinal, o que a casa-clínica quer comunicar e a quem? A que anseios a construção arquitetônica atende com seus sistemas de iluminação simulando o ritmo circadiano e seu discurso de biofilia e estética neurocognitiva? Nessas moradias, o curvo e o reto convivem em harmonia no pé direito alto, o que sem dúvida é agradável, e também nessa luminosidade variável acionad...
Agora que o travessão sumiu da escrita maquinal da IA, os detectores passaram a identificar o uso humano do símbolo gráfico como se fosse artificial, e o artificial como se próprio do humano, numa inversão de papéis na qual há um jogo de gato e rato. Nele o humano se confunde com a máquina e a máquina com o humano, mas logo haverá esse momento em que começaremos a copiar o gesto do humano postiço da IA, que se tornará uma referência para quem escreve e trabalha e faz outras coisas cuja realização depende em alguma medida da criatividade. E o que a máquina dirá? Que aprendeu com o humano a escrever como se fosse humano quando o humano não se espelhava no que a IA manufaturava, mas, de lá pra cá, esse fio da meada acabou se perdendo, de modo que ninguém tem a menor ideia hoje de quem copia quem, se a máquina ao humano ou o contrário, o humano à máquina.