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Fortaleza sul

 

Para onde é o sul de Fortaleza? Fiquei me perguntando depois de entrar numa controvérsia besta, coisa bodejada nas redes sem grande repercussão na vida, mas que soa engraçada, uma piada pedagógica que ilumina o espírito do caboclo local em tempos de narcisismo telúrico.

Pois o que há por trás dessa necessidade de instituir um sul que não coincide com o sul geográfico, um sul postiço, tão artificial quanto a grama que haviam mandado assentar na Praça do Ferreira?

Um sul político e econômico, que calha de valer como o sul de estados como Rio e São Paulo, lá onde as zonas de grande fluxo de capital estão representadas no cancioneiro e nas novelas do Manoel Carlos. Uma região demarcada no imaginário coletivo, seus sotaques e códigos de vestimenta, a fusão do luxo minimalista com ostentação de alto rendimento.

Um sul de caminhantes noturnos e segredos de alcova, de largas calçadas para os passeios das domésticas com os cachorros da família e dos encontros ao acaso das tardes amenas sob o refresco do ar-condicionado nas padocas improvisadas.

Ou então um sul projetado à semelhança dos pátios de concessionárias, com sua elegância discreta. Não o sul idílico, quintessência da convivialidade nova-iorquina, mas um sul de exclusividade elevada à máxima potência, um sul mezzo barraca de praia, mezzo hotel cinco estrelas que promete a experiência única do pé na areia numa metrópole cercada por praias.

Um sul imersivo, privativo, com vista de 360 graus, quatro vagas de garagem, borda infinita e toda a parafernália arquitetônica pela qual os ricos mais cafonas gostam de pagar, enquanto o “quiet luxury” alencarino elabora suas estratégias de diferenciação, nesse jogo de gato e rato no topo da pirâmide.

A cidade sempre se ressentiu de que não houvesse um sul para o qual olhar com o coração cheio de orgulho. Um sul como a expansão do shopping, um sul que combinaria o charme opressivo da Aldeota com as edulcoradas promessas de habitabilidade do Eusébio, com seus quilômetros de área verde recém-plantada e guaritas fortalecidas.

Um sul todo de estacionamento com manobristas e policiais à paisana nas esquinas com olhar fiscalizador para qualquer movimento que não seja o dos seus próprios habitantes e frequentadores.

Um sul com poder de renomear a vida que se inscrevesse nas suas dimensões fantásticas, de comércios a restaurantes, de escolas a cinemas e creches. Uma vez lá, tudo passaria a se chamar também sul, um complemento que adiciona o predicado mais importante na trajetória de toda a gente.

E isso se estenderia às pessoas, rebatizadas agora como sulistas, crianças e jovens da quarta maior capital do Brasil, mas ainda assim matutamente do sul.

E o sul de fato? Esse a gente não sabe onde fica.

Dizem que é para os lados do Mondubim, do Siqueira, do Conjunto Ceará, do José Walter. Outros asseguram que o sul topológico se situa no entroncamento do Antônio Bezerra com o Vila Velha, desaguando na Grande Barra do Ceará, o que parece despropositado.

E há quem sustente que o sul mesmo é uma invenção, que inexiste como não existe um Nordeste, que é resultado do ato arbitrário de poderosos e que seria uma espécie de Nárnia cuja localização exata nem valeria a pena procurar.

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