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Mostrando postagens de julho 5, 2026

As veias estropiadas da América Latina

  Fomos dormir com as ruas enfeitadas por causa da Copa e das festas juninas e acordamos desclassificados e sem o colorido do São João, tudo isso num intervalo de poucos dias, numa queda livre sem escalas. Da euforia da mistura de quadrilha e futebol para esse período de desencanto em meio ao deserto de julho, com as crianças em casa perseguindo seus pais com perguntas sobre derrota, fracasso e vergonha. É um golpe duríssimo numa rotina oblomoviana a que já tinha me habituado, de férias do trabalho, assistindo a cinco ou seis jogos por dia, quando não quatro ou três, às vezes apenas um, comprando pratinho em cada esquina e apontando as bandeirinhas tremulando pra minha filha a caminho da escola ou quando saíamos para o supermercado, onde nos demorávamos escolhendo goiabas e tangerinas, sem pressa alguma pra chegar. E agora nada, nem uma nesga de esperança, nenhum jogo marcado no calendário do próximo sábado ou domingo, zero expectativas em torno de uma vitória do Brasil. Logo as ...

Sonho do hexa e fim da era Neymar

  Talvez Ancelotti tenha razão e o tropeço do Brasil não seja o fim, mas o começo, ao menos o começo de uma era sem Neymar. Foi o que o treinador quis dizer, afinal? Que a partir de agora terá condições de montar um time sem a exigência de que um jogador inepto fosse convocado e atuasse mesmo quando se sabia que não tinha condições físicas? Que a melhor notícia desse domingo de uma frustração que já se tornou familiar foi que a geração da qual Neymar é símbolo está finalmente pendurando as chuteiras? Que a mácula do “sete a um” ficará para trás com o camisa dez, David Luiz e Thiago Silva, não exatamente apagada, mas enterrada o mais fundo possível com esse trio? É possível que sim, que Ancelotti sugira que, sem o fantasma do fanfarrão e do seu choro fingido em campo depois de provocar o goleiro da Noruega e de a partida acabar num clima não apenas de tristeza, mas de melancolia, no que já é de longe um dos episódios mais vergonhosos de nossa história, tenha de fato a chance de prep...

Um crime

  Nas fotos olho principalmente os dedos das mãos e as axilas, não importa de quem, de repente minha atenção se volta para essa região do corpo, é inevitável, tento não fazer isso porque fico envergonhado, mas acontece com estranhos e conhecidos. Começo então a estudar, amplio a imagem para ver detalhes dos nós dos dedos, o tamanho das unhas, não faço juízo de valor, não avalio a estética. Admiro os dedos e as dobras da axila e sua superfície, clara ou escura, marcada ou lisa, depilada ou peluda. Me detenho na imagem, intuo a personalidade a partir dessas partes, antevejo o rosto pela finura dos dedos, se as articulações são mais hábeis em aparência, na verdade não chego a conclusão alguma, apenas vejo, fico olhando um tempo, e não ocorre somente com as fotografias. Se uma pessoa se plantar na minha frente e por acaso levantar os braços pra se coçar ou por qualquer outro motivo, vou olhar pra lá sem querer, vai ficar na cara que olhei rapidamente, mas olhei, quase fingindo que não ...

A noite mais linda do mundo

  Duas caipirinhas e três cervejas depois, pensamos em voltar pra casa, começara a tocar mais uma música cuja letra não reconhecia, sequer o nome da DJ e o restante das coisas que ela dizia no palco, parecia que falava noutra língua, será que era o código da juventude? Mas era natural que não reconhecêssemos, apesar disso insistimos em ficar, a batida era boa, o barulho, as pessoas em volta, todas mais ou menos na casa dos vinte e poucos anos, é bonito observar um jovem assim, despreocupado, a vida pela frente, todas as questões em aberto, é como olhar os animais no zoológico. Aqui e ali alguém mais velho, coisa rara nesse ambiente seguro, uma área espaçosa num centro cultural que rapidamente se converteu no principal ponto de encontro da geração z cearense, mais ou menos o que o Dragão do Mar havia sido para gente um pouco mais velha e um pouco mais nova que eu. Olho pros lados, os raios coloridos, cada grupinho que se formou, fazia tempo que não saíamos de casa, as meninas com a ...