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A noite mais linda do mundo

 

Duas caipirinhas e três cervejas depois, pensamos em voltar pra casa, começara a tocar mais uma música cuja letra não reconhecia, sequer o nome da DJ e o restante das coisas que ela dizia no palco, parecia que falava noutra língua, será que era o código da juventude? Mas era natural que não reconhecêssemos, apesar disso insistimos em ficar, a batida era boa, o barulho, as pessoas em volta, todas mais ou menos na casa dos vinte e poucos anos, é bonito observar um jovem assim, despreocupado, a vida pela frente, todas as questões em aberto, é como olhar os animais no zoológico. Aqui e ali alguém mais velho, coisa rara nesse ambiente seguro, uma área espaçosa num centro cultural que rapidamente se converteu no principal ponto de encontro da geração z cearense, mais ou menos o que o Dragão do Mar havia sido para gente um pouco mais velha e um pouco mais nova que eu. Olho pros lados, os raios coloridos, cada grupinho que se formou, fazia tempo que não saíamos de casa, as meninas com a avó, fiquei na dúvida se deveria beber, acabamos bebendo e comendo um pratinho horroroso, a cada garfada a gente se perguntava se o vatapá estava azedo ou se era o sabor normal do camarão, como tinha explicado a moça no balcão quando pedimos para ela experimentar a comida. Acabei comendo, mas apenas a metade, calculei que no dia seguinte teria só metade dos problemas que um vatapá azedo poderia causar, um desarranjo intestinal que duraria metade do tempo, dores de cabeça pela metade, indisposição dividida por dois e por aí vai, mas até agora não senti nada, embora seja ainda cedo pra cantar vitória, depois dos quarenta esse tipo de coisa bate mais pesado, por isso evito beber, por isso e porque beber e comer fora está caro, ali pelo menos a cerveja custava oito reais, a música era razoável mesmo sem entendermos a proposta, pessoal sossegado, era gratuito e tudo ainda acabava cedo, depois andaríamos até o carro sob a chuva fina que tinha começado a cair, pagaríamos um trocado pra flanelinha e atravessaríamos a BR 116 no rumo do Eusébio. No caminho ouviríamos música no volume mais alto e cantaríamos também e relembraríamos de muita coisa e concluiríamos rapidamente que devemos fazer isso mais vezes porque é bom e não dá tanto trabalho, quer dizer, até dá, tem a logística das crianças, mas vale a pena, olha essa chuva lá fora, a música, aumenta mais esse volume, eu gosto dessa, o asfalto escuro da BR, a luz amarela dos postes, as lojas fechadas, o Ciclo Burguer brilhando ao lado do posto de gasolina, de repente chegamos, o efeito da bebida havia passado, mas a lua estava tão bonita quanto no dia anterior.

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