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Um crime

 

Nas fotos olho principalmente os dedos das mãos e as axilas, não importa de quem, de repente minha atenção se volta para essa região do corpo, é inevitável, tento não fazer isso porque fico envergonhado, mas acontece com estranhos e conhecidos. Começo então a estudar, amplio a imagem para ver detalhes dos nós dos dedos, o tamanho das unhas, não faço juízo de valor, não avalio a estética. Admiro os dedos e as dobras da axila e sua superfície, clara ou escura, marcada ou lisa, depilada ou peluda. Me detenho na imagem, intuo a personalidade a partir dessas partes, antevejo o rosto pela finura dos dedos, se as articulações são mais hábeis em aparência, na verdade não chego a conclusão alguma, apenas vejo, fico olhando um tempo, e não ocorre somente com as fotografias. Se uma pessoa se plantar na minha frente e por acaso levantar os braços pra se coçar ou por qualquer outro motivo, vou olhar pra lá sem querer, vai ficar na cara que olhei rapidamente, mas olhei, quase fingindo que não estava fazendo isso, receoso de que tenham notado que fiz isso e agora não posso explicar a razão, porque eu não sei, então começo a agir como um criminoso, alguém que fez algo reprovável moralmente, sei lá por quê, mas é assim.

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