“Esse queimou todo”, constata o proprietário da sucata que leva o seu nome. “Pode levar”, ordena, ao que o empregado dá mais uns passos antes de despejar a carcaça do material num contêiner azul parado na frente da edificação, levantando uma nuvem fuliginosa que demora a assentar.
É terça-feira, 13 de janeiro de 2026. Já se passaram dez dias desde que quatro homens contratados por seu Chico começaram a remover uma a uma as centenas de peças consumidas pelo incêndio que transformou em metal e plástico retorcidos tudo que o paraibano havia acumulado à frente do maior ferro-velho do Ceará – “e do mundo”, como gostava de brincar.
Se Francisco Alves de Oliveira precisou de mais de meio século para erguer seu império de latarias, para-choques, amortecedores, motores e outras quinquilharias para carros e motos, o fogo levou apenas quatro dias para fazê-los desaparecer, contados a partir da véspera do Natal do ano passado.
Às 23 horas daquele dia, enquanto a vizinhança do número 668 na avenida Sargento Hermínio, em Fortaleza, ainda estava às voltas com o salpicão e o arroz com passas da ceia natalina, os primeiros registros do fogaréu inundavam as redes sociais. Em poucas horas, as labaredas tinham lambido boa parte dos 25 mil metros quadrados do espaço, no bairro Jacarecanga, na periferia da capital, colocando em risco casas e construções próximas, que foram evacuadas pela Defesa Civil do estado.
Tenente do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará, Harilson Brandão foi um dos primeiros a chegar para o enfrentamento do fogo, que se espalhava em passo acelerado. Segundo ele, os “ventos fortes e a alta temperatura dos materiais estocados na sucata favoreceram a propagação das chamas”.
Logo os focos se multiplicaram, ele narra, com a “perda do controle inicial”, ou seja, o incêndio continuava a avançar mesmo sob chuva fina, alimentado pelo arsenal de material combustível – além do plástico, havia também a borracha dos pneus, dos quais restariam somente os arames, e os tecidos dos estofados de aproximadamente uma centena de automóveis que Chico Alves preservava no local – alguns sem rodas, outros sem porta e por aí vai.
Internado num hospital havia dez dias para tratar de problemas em uma perna, o sucateiro deixara a unidade em 24 de dezembro. Soube do incêndio por acaso, voltando para casa, um cômodo que construíra no pavimento superior da sucata, onde vivia então, sob cuidados de uma profissional.
“Quando fui passando e entrei ali (aponta para uma avenida lateral), avistei o fogo. Estava só eu e a filha que é médica”, recorda. Ao parar, não tinha mais o que fazer. “Fiquei assistindo na calçada.”
Natural de Catolé do Rocha (PB), Chico Alves chegou ao Ceará ainda nos anos de 1970, depois de sucessivos reveses nos negócios. Em Mossoró (RN), por exemplo, quase foi à falência após operar uma frota de dez táxis. A muito custo, não apenas se recuperou, mas logrou ampliar a rede de transporte. Morava agora em São Luís, no Maranhão. Lá também soçobrou, contudo, como contou em conversa com a “piauí” ainda em 2018, em meio aos cacarecos que juntara por uma vida.
Uma vez em Fortaleza, não se deu por vencido. Calhou de refazer o exército de táxis, prosperando novamente no ramo. Das muitas bancarrotas, aprendera uma lição: não podia dar sopa para o azar. Como não queria se abater por imprevistos, tampouco ter custos adicionais com consertos, passou a estocar peças para os reparos dos veículos: primeiro em casa (“comecei guardando as tralhas no banheiro”, de onde avançaram para o quarto e a sala) e depois no terreno onde nasceria a sucata, comprado em 1972 – um charco que precisou ser aterrado.
Entre radiadores e bombas de óleo de motor, o trabalho progrediu sem dificuldades, a ponto de a fama correr ligeira entre motoristas da quarta maior cidade do país, que o procuravam após errar por oficinas e lojas de autopeças sem conseguir o que queriam.
Com os rendimentos da empresa, Chico criou quatro filhos: além da médica, uma advogada, um estudante de Direito e um administrador de empresas, que se divide entre uma casa nos Estados Unidos e outra no Ceará.
Naquela terça, Chico estudava um motor velho encostado no portão. Enegrecido pelo fogo, talvez ainda tivesse utilidade. “Um motor desses aí pode a gente aproveitar. Não sei nem do que é... Botei uma caixa de marcha nesse instante pra fora. Não aproveitei nada ainda”, ele lamenta, acrescentando uns segundos depois: “Acho que esse motor é de Mercedes. Tem uma bomba ejetora...”.
Em seguida, determina que afastem a peça mais para o canto, liberando a passagem de uma caminhoneta que arrastava para fora as tralhas mais pesadas. Divididas em grupos de dois, as equipes de homens pelejam com os escombros das 8 horas da manhã até as 16h30, com uma pausa para o almoço e outra para o café da tarde.
Seu Chico os acompanha de perto, sem arredar pé do terreno, que parece um cenário de guerra, contrariando recomendação médica e pedidos insistentes dos familiares. Veste-se exatamente como o encontrei oito anos atrás: camisa de flanela aberta na altura do peito, bermuda azul e chinelos. Um dos empregados sugere que use um boné (“o sol tá brabo, seu Chico”), mas o sucateiro dispensa com um muxoxo.
“Onde queimou mesmo e deu prejuízo grande foi lá na frente. Acabou a mercadoria geral”, diz, numa conversa mais de si para si.
Ele se refere a uma seção da sucata que escapou intacta das chamas e na qual estão empilhados sanitários e outras louças para banheiro, que costumava repassar a R$ 200 cada, mas que não eram o forte dos negócios. “Muito pouco se aproveita”, prossegue, “uma coisinha ou outra lá no setor de azulejo. Aquilo ali é aparelho de banheiro, não tem valor. A gente passa três ou quatro anos pra vender uma peça”.
“Veja essa mercadoria. Por que se estragou?”, pergunta. Ele mesmo responde: “Porque derreteu. A gente não pode fazer nada”.
Se pudesse, o que teria salvo do fogo? Seu Chico Alves não diz.
Horas depois, como já passasse do almoço, estendeu o braço e pediu ajuda a um empregado para se levantar. Queria ir embora para a casa da filha, onde está vivendo desde o sinistro na sucata. Amparado por um funcionário, que traja calça, camisa de manga longa e máscara, Chico se levanta e sai, num trote claudicante. Mais adiante, para e pede um tempo para descansar. Então se senta numa carreira de tijolos que haviam sido deixados na rua.
Quando se ergue de novo, Chico Alves está chorando, a voz embargada. “Não me deixaram olhar nada”, deixa escapar. No incêndio, morreram três cachorros e uma gata que o homem criava. A felina, que tinha dois anos, era o xodó.
Ao fim dos trabalhos de rescaldo do fogo, ele fez apenas um pedido aos bombeiros: queria se despedir dos bichos, mas havia risco de desabamento da estrutura, que não tinha certificação de conformidade emitida pela instituição militar.
A Polícia Civil do Ceará ainda investiga a causa do incêndio. Um laudo da Perícia Forense do Estado (Pefoce), concluído em meados de janeiro, indicou que, “com base nos vestígios observados no local, nas características dos materiais atingidos e na dinâmica do evento, verifica-se a plausibilidade técnica de que o incêndio tenha sido iniciado por fonte térmica externa”. Essa fonte, segue o laudo, equivaleria a um artefato do tipo “rasga-lata”, em contato com os objetos armazenados na sucata.
O documento subsidia o inquérito aberto, que, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado (SSPDS), tenta “apurar as circunstâncias da ocorrência, bem como capturar possíveis envolvidos com a situação”. Oitivas e diligências “seguem em andamento”.
Apenas entre 24 e 25/12 de 2025, o Corpo de Bombeiros Militar (CBM) registrou 21 incêndios em edificação em Fortaleza e na Região Metropolitana, seis a mais do que no mesmo período do ano anterior. Ao longo de todo o mês de dezembro passado, foram 153 ocorrências do tipo, ante 119 em 2024. Capitão da corporação, Romário Fernandes considera que, “em ambos os anos, para um período de dois dias, parece um número desproporcional”.
A família não sabe ao certo o que fazer com o que restou da sucata. Francisco Filho, herdeiro de Chico Alves, explica que a prioridade neste momento é retirar todo o material do terreno no prazo mais curto possível. Questionado sobre o futuro do ferro-velho, Francisco diz que seu pai é que deveria decidir.
Auxiliando no processo, o empresário demonstra preocupação com a saúde do sucateiro. “Ele não deveria estar aí, mas insiste”, declara. E, chamando-o pelo nome, complementa: “Se Chico Alves estivesse lá (no dia do incêndio), teria morrido”.
Antes de ir embora, pergunto a Chico se vai permanecer na sucata até tudo ter sido removido pelos trabalhadores, já que a operação é lenta e as condições, adversas. O homem responde: “Vou ficar até Deus me levar”.
Da centena de carros que era mantida no local, só um havia sido poupado pelo fogo: o da esposa, a paraibana Eliete Francisca de Oliveira, grande amor de sua vida, com quem o comerciante teve quatro filhos e que faleceu no início da década de 1990.
Já gasto pelo tempo e hoje sem uso, o veículo modelo Versailles está estacionado logo na entrada da sucata, como cartão de visitas. Pode ser visto por curiosos que passam pela Sargento Hermínio, surpresos com as dimensões do estrago provocado pelas chamas.
“Comprei pra ela novo ainda. Dois anos depois, ela morreu”, relembra Chico Alves.
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