Não digo que os genitores queiram o pior para os seus filhos, claro que não, isso jamais aconteceria em condições e tempos nos quais a competição por bons empregos e postos vantajosos na sociedade não estivesse tão presente desde o berçário, passando pela educação infantil e séries iniciais.
Hoje é comum que os bebês sejam estimulados a engatinhar e a falar antes do coleguinha, de modo que avancem para a próxima etapa mais rápido, de preferência saltando uma turma, que é para ganhar tempo nessa infância gamificada.
O que um recém-nascido faria com tempo extra além de sujar mais fraldas? Isso é irrelevante.
Importa é que ele ou ela ou “elu” precisa aprender a ter pressa. Afinal, acabou de chegar ao mundo e tem de se projetar no superaquecido “mercado da fofura”, espécie de campo de disputas em que a concorrência é desleal.
Só não mais do que no quinto e no sexto ano, quando a mentalidade empreendedora da criança, sob a influência decisiva de pais ansiosos, começa de fato a se materializar em múltiplas atividades, que se somam aos conteúdos que estão pendentes para a prova da semana que vem.
Entre uma missão e outra, os pequenos, às voltas com as entregas a cumprir, já se preocupam com o resultado da feira de ciências, que deixou de ser aquela apresentação mambembe na qual as famílias se divertiam armando réplicas desajeitadas de cidades e ruas com papel crepom e caixas de sabão.
Hoje, com a IA e a impressão em 3D, os trabalhos lograram um nível de sofisticação impressionante até para os professores, que muitas vezes precisam consultar o ChatGPT para compreender todas as dimensões implicadas na atividade da turma.
A consequência desse efeito dominó sobre a psicologia infanto-juvenil é uma necessidade de autoafirmação constante, o que afeta inclusive a distribuição de notas. É nessas horas que o anúncio das médias do trimestre concorre em tensão com a apuração do resultado dos desfiles de escola de samba, com cada casa decimal sendo decisiva no ranqueamento dos estudantes.
É óbvio que as crianças não criaram todo esse edifício ansiogênico sozinhas, para isso contaram com a ajuda valiosa de familiares precocemente superpreocupados com o desempenho da meninada no Exame Nacional do Ensino Médio, entre outras coisas.
“Pai, mas eu tenho apenas 10 anos, não preciso pensar nisso”, ouvi uma menina constatar em tom de lamento enquanto comia pipoca, ao que o homem, impassível como um mestre Yoda com sobrepeso, respondeu: “É bom que tem tempo para treinar bastante até lá”.
Reparem no vocabulário blindado, na irredutibilidade paterna, na aura de sabedoria destilada como lição para alterar o mindset da cria.
Presume-se que o rebento está no mundo para “treinar”, nessa acepção militar, já adotada nas academias de ginástica, mediante a qual o corpo humano é submetido a rotinas extenuantes de exercícios físicos e mentais, após os quais estará em condições de encarar um desafio cuja execução exigirá dele ou dela a própria vida.
Sei que exagero, mas não tanto. Tudo isso vem fazendo minha alma se esvair como álcool fugindo da garrafa aberta, meu olhar se perder nos confins do horizonte e minha fé na humanidade decrescer um pouco.
Não porque não entenda esse pai que só quer o bem da sua prole, como qualquer outro. Porque eu o entendo, conheço até alguns que são assim.Mas é que cada vez mais a rotina das crianças é gerenciada como carreira, com os parentes oscilando entre os modelos do “pai do Neymar”, empresário destacado do ramo do trabalho infantil, ou o dos “pais da Larissa Manoela”, que ensinaram para a filha, ainda em tenra idade, como funciona o capitalismo.
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