Pular para o conteúdo principal

Ovelhas sonham com carros elétricos


Ouço a música suave do carro elétrico do vizinho antes mesmo que ele se aproxime. É o único som que o veículo produz ao estacionar, como um construto espacial. As notas delicadas como balbucio de bebê, a lataria reluzente, os faróis como se esculpidos por um renascentista, o desenho elegante, discreto e charmoso.

Estou de queixo caído, fisgado pelo fetiche, mordido pela inveja.

Segue-se uma coreografia: a ré perfeita e a curva sem arestas, desenhada por compasso, nada sobrando nem faltando, nada de trepidação ou ronco de motor, a pegada de carbono como motivo de orgulho.

O condutor sai devagar, o peito estufado de quem fez sua parte para desacelerar o relógio do fim do mundo. Mas não estou preocupado com o apocalipse agora. Quero apenas um carro como os que estão coalhando as ruas da cidade, num apelo autoirônico para que o consumidor “construa os seus sonhos”.

Meu sonho é comprar um desses. Um veículo chinês que explora mão de obra barata e minerais em países cuja legislação ambiental soçobrou há muito. De imediato, vem a comichão da necessidade, o desejo espicaçando o juízo, a projeção narcísica e falocêntrica martelando o peito como uma paixão adolescente. Preciso de um.

Num rasgo de lucidez, tento me convencer de que essa onda vai passar. O carro elétrico é o novo “beach tennis” dos cearenses, digo a mim mesmo, logo será esquecido, trocado por outro brinquedo, como quase tudo nesta terra de gente novidadeira.

Mas não se trata apenas de um carro. Não como o nosso, pelo menos. Conduzi-lo é uma experiência deslizante, capsular, uterina, nostálgica e futurista ao mesmo tempo, um passe para a pós-pós-modernidade.

É um sentimento que se estende a tudo em relação ao modelo, que vejo passar em câmera lenta. Sinto que chamá-lo de “carro” é até inapropriado, incompleto, como se não abarcasse o que o objeto realmente é ou o que pretende ser.

Olho mais um pouco para ele. Namoro-o. Por orgulho não quero parecer muito interessado, finjo que é mais do que normal que automóveis cantem uma canção de ninar que tranquiliza os motoristas, que os abraça e envolve nessa experiência imersiva particularmente agradável, ajudando-os a se desligar do dia a dia.

Estar nele é como entrar num módulo lunar do Elon Musk a caminho de uma das luas de Júpiter, onde um residencial exclusivo aguarda a primeira colônia de moradores tipo AAA escapando de um planeta falimentar.

A cor, por exemplo. Não sei defini-la. De um verde orgânico, mineral, lembra uma massa primordial ainda não catalogada, placentária. Uma espécie de matéria produzida da qual a vida costuma se originar para o bem-estar do indivíduo, socorrendo-o dos pesadelos no meio da madrugada.

E sua forma? É angulosa, sem talhes abruptos, como se resultado de lenta erosão de forças como vento, chuva e sol, um fenômeno da natureza traduzido por engenheiros para uso de quem pode pagar por ele. 

Eu poderia? Eu não poderia. Eu acho que poderia? Tenho certeza que sim. Eu mereço, e isso basta. Meu lugar é ali, à frente do meu tempo, afundado no acolchoado, acolhido por uma sinfonia silenciosa, e não cuspindo fumaça tóxica por aí como faziam os sumérios nos idos da civilização.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...