Pular para o conteúdo principal

Coca normal


A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal.

Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante.

“Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana.

Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou deveriam ser outros, embora eu os aceite.

Aceito de bom grado a normalidade da Coca, com sua fórmula e seus açúcares e tudo que nela representa o oposto da normalidade, mas que, agora, com a caixa batucando ritmicamente os nós dos dedos finos no compensado da mesa, acolho como única versão possível da realidade.

Digo “Coca normal, por favor”, soando pleno e grandiloquente. Saboreio não a Coca em si, que afinal sequer era pra mim. Já estou longe dali, espiritualmente transportado para um paraíso de ordenamento regido pela Coca-padrão: a sensação de pertencer ao universo de pessoas que optam pela Coca normal, e não por outra – esta, sim, marginal e pária.

Experimento o prazer de participar desse ritual que é proferir sentenças como essa (quero uma Coca normalíssima) num idioma desconhecido, mas entendido por todos os falantes, nessa linguagem cujo uso descarta explicação porque se dá num nível infraconsciente.

Nele não importa de fato se uma Coca normal é um veneno como qualquer outro, desde que possamos chamá-la simplesmente de normal. A fala normaliza pelo ato de fala. Como alguém que fizesse a opção pela normalidade, eu digo mais uma vez, piscando: Coca normal, senhora.

Afinal, classificá-la desse modo é também normalizar e aceitar que uma Coca é uma bebida como outra qualquer, que oferecê-la e consumi-la num restaurante é um dado da vida, e que por isso toda vez que dizemos “Coca normal” estamos louvando essa comunalidade que se perde nas rotinas mediadas, tal como na série “Pluribus”.

Totêmica, a Coca normal é um signo de consagração da humanidade, uma tentativa de comunicação entre mundos, uma colonização alienígena no banquete do fim do tempo. Daí que, onde quer que alguém o interpele perguntando se prefere normal ou zero, responder a essa questão é na verdade um chamado à humanidade, um pedido para restituir o grau zero das relações, no qual alguém diz algo e outra pessoa responde simplesmente porque já compreendeu tudo antes mesmo de compreender.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...