Anotei a seguinte frase, “minha biblioteca é um arquivo de anseios”, e depois a esqueci como se esquece um livro entre as estantes ou um papel entre as páginas de um volume antes de ter sido tragado por essa voragem cumulativa que caracteriza o gesto do bibliotecário que penso que sou.
Lendo-a agora, um tempo depois (mas quanto tempo?), não sei o que tinha em mente quando a escrevi, sequer se de fato fui seu autor, é uma frase que certamente poderia ter deixado anotada em algum canto, a propósito de qualquer coisa, num dia como hoje, no qual olho para os livros e suas lombadas e estranho que estejam ali, que façam parte desse conjunto desconjuntado de obras que me acompanham ao longo da vida sem que eu jamais tenha lhes conferido um princípio ordenador.
Mas é também o tipo da frase que eu pescaria de um livro ou artigo em espanhol ou inglês e imediatamente tentaria traduzir, de modo que seria minha a partir de então.
Convertida para minha língua, existindo nesse pedaço de chão ou de papel que eu havia lhe destinado. Tinha vida própria, mas e o seu autor?
Não importaria, era o que costumava pensar, mas tenho dúvidas se realmente é indiferente que tenha sido eu o seu escritor (essencialmente, alguém que escreve) ou outra pessoa, e se, tendo sido eu, o que considerava escrever a partir dali, que caminhos eu seguiria, para onde iria e aonde chegaria, se chegaria.
A partir da biblioteca como arquivo de desejos e frustrações, de uma montagem que se orienta por continuidades e rupturas ao longo do tempo, de um lugar cujo espaço e desenho conhecemos e desconhecemos em porções iguais.
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