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Surto de dicas

 

Nunca houve tanta gente disposta a ensinar como e o que se deve escrever, quando, em que circunstâncias, se vale a pena consultar IA etc.

Um manancial de dicas, que é como costumo chamar esses pequenos decálogos de sobrevivência para escritoras e escritores, manuais e cadernos de receitas pré-cozidas e prontas para serem levadas ao forno.

Dicas para se projetar ou se encaramujar, pra arrasar nas vernissages ou se manter mergulhado naquilo que define a essência do ato de escrever, isto é, a escrita “per si”.

Admito que tenho dedicado parte do meu tempo a ler essas dicas, que se contradizem em termos; enquanto um escritor sugere que me concentre nas minhas misérias e esqueça o motivo pelo qual estou realmente escrevendo (dinheiro), outro aconselha a me expor e procurar contato com outros espécimes da raça, ou seja, autores tão ou mais desesperados para publicarem o que quer seja e com isso se tornarem aquilo que estão predestinados a ser.

Às vezes, exatamente por causa da natureza antitética dessas dicas, acabo tendo de escolher. Entre uma que apregoa ostracismo e outra que advoga pela performatividade sem pudores, qual devo seguir?

Não sei, não sei, não sei, repito para mim mesmo, enquanto faço rolar a barra à procura de mais dicas de escrita, dicas que de fato façam sentido para mim, que sejam destinadas a alguém como eu, que se adequem a minha situação de autor não publicado e sem leitores recém-chegado numa nova plataforma e cuja voz é inexistente, inexpressiva, inexperiente e outras tantas coisas que pareço compartilhar com uma série de pessoas nessa mesma paisagem.

Um escritor mais experiente, um medalhão dos anos “zero-zero” hoje afundado em amargura, publica um desabafo que imediatamente ganha repercussão, granjeando tanto curtidas quanto elogios, falsos ou verdadeiros, o que de pronto alimenta uma cadeia de respostas igualmente irônicas e incomodadas, que se replica sem controle.

Uma escritora da nova geração se ressente e o critica sem citá-lo, que é como fazem os autores mais ciosos de uma etiqueta literária e social. Todos se atacam, se alfinetam e se espetam, mas ninguém diz o nome de ninguém. É de bom tom fingir que todo mundo ali se conhece, acho que é o tipo de vício que só quem orbita o eixo Rio/SP tem.

Do leitor dessas diatribes refinadas é de se esperar que saiba naturalmente identificar quem são os envolvidos nessa refrega, cujos rostos nem sempre estão assim tão na cara, mas quem se importa?

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