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O vício do livro

 

Às vezes calho de abrir o livro sempre na mesma página, não um livro específico, mas qualquer um, novo ou velho, de Machado ou Stephen King, Ricardo Araújo ou Carrère, deixado para trás em algum desvão da estante ou recém-chegado, com esse cheiro de papel especial.

Pesco-o da pilha ao acaso e o folheio sem pretensões, faço aquele gesto de deixá-lo se ampliar como quem se espreguiça, enquanto o seguro pela lombada e com o polegar de uma das mãos vou permitindo que as páginas se desloquem, como fazemos com cartas de um baralho.

Essas, porém, não se soltam nem caem, porque estão presas por essa costura interna, pelo menos é assim que penso que os livros se mantêm inteiros ainda hoje, ou seja, porque estão atados por esse mecanismo simples mas eficaz que entrelaça cada folha à anterior e à seguinte, num encadeamento que não se preocupa com a lógica semântica ou sintática da narrativa contada.

Então é nessa hora que o livro emperra, por alguma razão sua arquitetura o leva para esse mesmo lugar, como se insistisse em voltar para um trecho não marcado, uma passagem importante da história cuja natureza ou ignoramos ou esquecemos.

Esse lugar de retorno, porém, não é específico, mas uma brecha na embocadura da parte física da obra. Um defeito, digamos, ou um vício do objeto, uma inclinação natural da matéria, seja pela sua constituição, algo no papel usado, na sua qualidade, seja pelo modo como foi preparado, um tempo a mais submetido a alguma máquina empregada no processo de impressão e montagem.

De qualquer forma, tenho sempre o cuidado de checar se há nesse ponto uma palavra ou frase que pudesse querer dizer alguma coisa, algo que eu tenha de decifrar, um signo ou conjunto, vocábulos soltos que poderiam estar associados. Mas nunca é nada importante, nada em que eu devesse prestar atenção, nada que contenha essa mensagem secreta.

É o que entendo desses episódios fantasmas, que o livro como que procura uma zona de acomodação mesmo quando está em movimento, se o tomamos do lugar, se o buscamos e o manuseamos ao acaso, suas páginas inadvertidamente se deixam conduzir para a região a qual estão destinadas a ir por algum motivo.

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