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Artes da lentitude

 

Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.).

Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio.

Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto.

Suspeito que a gente tenha se contentado com o umbigo, o orifício a partir do qual o mundo se projeta, num processo ininterrupto de “selfização”, de espelhamento do alheio num si mesmo narcísico, “ensimesmamento” como resposta a uma acelerada redução do conforto ontológico.

Porque a máquina desrealiza, procuramos conexão e familiaridade na segurança uterina das bolhas, informacionais e afetivas.

Porque nada se reconhece em nada, temos então de recuar e adotar o desvio. Preferir sombra ao sol, calçar chinelos, deitar no chão e dormir, acenar para estranhos, assobiar uma melodia recém-criada e subscrever um abaixo-assinado pelo fim do sorvete de pistache.

Flertar com um tipo de ocupação sem serventia, sem proveito instantâneo ou emprego prático, sem romantismo nem valorização na escala de ofícios consagrados.

Abdicar das rendas, das profissões de futuro e das artes de adivinhação, dos jogos e das promessas de sucesso. Pelo contrário, e nisso também se identifica a “lentitude”, correr o risco de assumir para si, no extremo, o gasto e o desperdício, o dano e o malefício, pecados capitais numa economia da atenção que coloniza todos os âmbitos da vida.

Desapegar do desapego, ou seja, deixar de fingir que o discurso do desapego não é ele mesmo uma forma de apego à extração da economia de cliques.

Demitir-se da ideia de estar disponível 24 horas por dia e sete dias por semana, abreviar toda escala e desrotinizar até a quebra de rotina, de sorte que os momentos de respiração não sejam também eles enquadrados pelo hábito do qual têm a ilusão de fugir.

Desdomesticar e negar a transparência e o compartilhamento impositivos, reabilitar a região nuançada na qual não se distinguem dois hemisférios tão preto-no-brancamente, recusar explicações resumidas por IA, entrar numa história sem ter lido antes a sinopse, evitar os caminhos de pedras portuguesas, chafurdar na água salobra da fonte da praça abandonada.

Bater em retirada dessa eloquência produtivista, afastar educadamente (se for o caso) a oferta de oportunidades de aperfeiçoamento pessoal e singular, de melhoria das competências e da inteligência emocional, de maximização de ganhos cármicos, de evolução e progresso, de salto de qualidade, rótulo criado para convencer o usuário de que as emoções são como produtos empacotados e que você é um gestor dos sentimentos que desfilam vagarosamente pela esteira do caixa do supermercado, sob o olhar atento do gerente de si que somos todos nós.

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