Pular para o conteúdo principal

As montanhas do Ceará



Da varanda agora olho para o sertão e o que vejo é uma cadeia de montanhas, e não as serras de Maranguape e Pacatuba, aquelas formações vizinhas às quais já tinha me acostumado. Tão logo cedo punha os olhos e ficava perdido nas ondulações azuladas.

No Ceará, ou damos as costas ao litoral ou ao sertão, por questão de geografia quase nunca abarcamos esses pontos cardeais que não são apenas direções, são modos de estar no espaço e de se sentir gente no mundo.

Por uns tempos estive de frente para o mar, salgando a vista de manhã cedo, curtindo a pele e marinando as horas. De uns anos pra cá me voltei ao sertão, cavando a raiz da família e farejando no ar uma nesga de mudança.

Quando encaro um, ignoro o outro, de modo que tenho de fazer escolhas quando ainda sequer tomei café. Ou o mar ou a serra, ou água ou terra, e agora não apenas a terra ou a serra, mas a montanha, visto que, achando pouco que os picos se alteassem e se compusessem numa paisagem já graciosa por si, demos de chamá-los de “cadeias montanhosas”.

Além do petróleo jorrando do chão seco, eis que temos também montanhas ao alcance dos pés. Não demora, e o Ceará se internacionaliza de vez, à semelhança do que a pioneira Sobral já vem fazendo (veja-se o prefeito e sua parentela que já nasce com dupla cidadania).

Então não é mais diante das serras que passo horas do meu dia, mas das montanhas, o que pode até soar mais pomposo e substantivo, mas não mais interessante.

Me pergunto sobre o que muda nessa relação, se estou mais ou menos próximo do sertão e da terra porque a serra deixou de ser serra e passou a montanha. Se sou mais ou menos cearense, se o interior é mais ou menos interior se em lugar da serra da Pacatuba escrevemos e dizemos montanha da Pacatuba e de Maranguape.

Não mais: “tenho uma casa na serra” (eu não tenho), mas na montanha, o que também não é o caso, e quem sabe até dificulte. Afinal, se já não tinha esperança de ficar uns meses do ano na serra, na montanha é que o sonho se tornará mais distante.

E o que dizer das expressões já consolidadas, a exemplo de “pé de serra”, que deu até num gênero musical particular, o “forró pé de serra”? Vamos trocá-las também, referindo-se à modalidade do “forró pé da montanha”?

Não sei, tenho minhas dúvidas se isso vai pegar, se o nativo vai deixar de falar serra apenas porque é mais chique dizer montanha, de jeito que o turismo pode se atrair mais por uma do que por outra, o que tem um lado ruim.

Não demora, e começam a construir superprédios na montanha, espigões cujos anúncios vão assegurar que de lá se tem a vista mais impressionante do estado, quiçá da região ou do país. E nisso se perde um bocado de coisa, claro, sem falar nos fluxos de endemoniados que vão começar a subir a montanha-serra ou a serra-montanha só por causa da mudança de status.

Tenho pra mim que tudo isso seja algo que talvez até faça sentido para o IBGE e outros órgãos encarregados de medir essas alturas, as larguras e a constituição das pedras, a consistência das rochas e do solo, seu material e extensão.

Mas, no dia a dia, duvido que o bodegueiro ou o pipoqueiro ou o jornalista sentado no banco da pracinha da matriz deixem de lado a serra, com toda a sua carga de afetividade, para adotar a montanha.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...