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Pajeú II

 

Seria estúpido ouvir o rio, procurá-lo na cidade, um rio não se acha, ele se perde, mas não se acha. Ou está ou não está.

É possível vê-lo atravessar um bosque, sim, o parque onde divide leito com o esgoto, em vários pontos indistinguíveis, não se sabe realmente quem é rio e quem é matéria orgânica e detrito e restos que foram canalizados e daí agora estão em procura do mar, como os dejetos da cidade.

Ali é o Pajeú ou a caixa sanitária do centro da cidade?

Acolá o rio ou encanamento desviado do conjunto de restaurantes da orla?

A cidade se ergueu assim, trocando o rio por esgoto, o rio afundando sob camadas de merda que saem dos apartamentos e das casas com destino ao litoral.

Toda uma rede subterrânea, um upside down por onde circula esse mundo invertido.

Merda canalizada, merda legal e autenticada, cujos caminhos ignoramos porque depois que deixa a privada ou do banheiro é como se fosse um alheio, uma coisa que fazemos questão de querer ver bem longe dali, não é parte da gente, não saiu do corpo saudável do morador da casa ou do apartamento ou do comércio.

Logo, que o rio se entenda com essa coisa estranha ao que é nosso, que trate de diluir a matéria, que cuide em fazê-la chegar o mais longe possível dos lugares que na verdade são a sua origem.

O rio é culpado, mas também salvação, ajuda no esgotamento porque apenas os canais da prefeitura não são suficientes, esse labirinto de débeis canaletas que se bifurcam e erodem com o tempo não suportam a pressão do seu conteúdo.

Um jardim conífero cimentado fluindo logo abaixo para o qual só nos damos conta quando estoura o esgoto e o bueiro sobe, invadindo as ruas, correndo a leste e a oeste.

Nosso esgoto, orgulho da terra, monumento na praia, uma curvatura de ferro em branco e preto cuja forma ninguém sabe o que é, o turista não sabe, eu não sabia quando criança.

Na foto, pendurado no braço da mãe na frente do “chifre do governador”, era como o chamavam jocosamente.

Não tinha ideia de que ali se mandara construir uma homenagem ao interceptor oceânico, que é somente um cano de largura maior e extensão considerável que conduz o material rejeitado da cidade para dentro do mar, a uma distância e profundidade seguras para os banhistas, mas nem sempre.

Porque o mar traz de volta o que jogamos fora, é assim com quase tudo. Com o interceptor não seria diferente.

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