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Gol da Alemanha

 

Comento tardiamente o jogo no qual a Alemanha venceu outra seleção, não vem ao caso qual, por placar de sete a um.

O mesmo de 2014, sim, aquele pelo qual o Brasil se martiriza hoje ainda, um resultado inverossímil no futebol, adiposo, excedente, dispensável e deselegante.

Numa Copa, então, quando uma vitória magra é mais que suficiente, dobrar o concorrente por uma margem tão ampla de tentos é exercício ocioso, uma flagrante insistência no erro.

Porque o gol além da conta deixa de representar o gozo e passa ao seu contrário, seja ele qual for. Digo que, a partir do quinto, o jogo se turva, as regras se esfarelam e o objetivo da partida se arrefece.

Já não há nada que explique por que onze jogadores de cada lado estejam às voltas com uma bola, tampouco que haja no estádio torcedores aos milhares berrando para o gramado.

Atravessado esse limiar, a festa se encerra, sobressaindo tão somente o absurdo do número, o sete pendendo como uma conta que não fecha. E, no entanto, os alemães converteram a excepcionalidade no banal, a extravagância no ordinário, a magia no corriqueiro.

Mais uma vez o sete a um. Contra quem agora? Não interessa.

Porque sete a um elimina qualquer hipótese de esportividade e de duelo mediante o qual duas equipes se enfrentam por um móvel comum, dentro das mesmas balizas.

Nos termos de Bourdieu, o sete a um acaba não apenas com toda ilusão, mas com qualquer “illusio”, ou seja, rompe com a quarta parede, pisca para o ouvinte e o espectador, suspende a suspensão da descrença.

É quando os jogadores se entreolham e, como sobreviventes de um acidente aéreo (ver Lost), perguntam-se sobre o que estão fazendo ali novamente. Afinal, não havia tanto tempo tinham aplicado uma pororoca de gols na pentacampeã do mundo, o que mais havia para ser feito depois disso?

Permitir que disputassem outra Copa já era ato de permissividade. Que excedessem os cinco gols, uma falta imperdoável. Que reeditassem o placar, um crime contra a humanidade.

Como num dia da marmota futebolístico, porém, os gritos do narrador se sucederam no meio da tarde – ou era começo de noite?

Já não lembro, não sei, não quero saber, me recuso a gostar desse tipo de futebol, que abusa das regras, que ignora o prazer do resultado apertado, a dor do empate, o luto da derrota, que esbanja, enfim, uma tediosa vantagem e subverte a máxima de que menos é mais.

Para os alemães, mais é sempre mais.

Atualização: apenas agora soube que a Alemanha pode estar no caminho do Brasil, ou o Brasil no caminho da Alemanha. Como disse Eduardo Cunha, que Deus tenha piedade desta nação.

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