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Jogo do contente

 

Leio que o livro se tornou artigo de luxo, não apenas pelo preço, que anda mesmo impraticável, mas como objeto que se carrega com a intenção de projetar uma versão de si charmosamente analógica, desconectada da rotinização, livre das pressões dos algoritmos e por aí vai.

Performar (me perdoem pelo uso da palavra, mas me sinto na obrigação de acioná-la) um lifestyle cultivado, otimizando capital cultural (expressão que caiu na moda) em tempo rápido a fim de incrementar a própria autoimagem.

Livro como acessório, artefato e signo de um recuo cronológico, uma volta no parafuso do consumo. Como item de uma alimentação mais balanceada da qual estão excluídos os fast-foods desse cardápio digital cuja receita se limita a vídeos de curta duração e frases de IA, ambos de uma pobreza cognitiva equiparada aos nutrientes do refrigerante.

O livro, não, ele é rico como alimento. Obriga a um mergulho, a uma duração, a uma permanência e retenção da atenção. Dele se ocupa quem não está rolando a barra indefinidamente, emendando um reels no outro, como adictos de casas de apostas, viciados em pornografia e na mecânica da repetição com recompensa imediata.

As grandes marcas fisgaram essa ideia, claro. Dior, Chanel e Gucci, por exemplo, de repente estão interessadas em se deixarem associar à imagem do livro num mundo vulgar e cronicamente online, em que a ideia da agenda cheia e do excesso de trabalho está rapidamente se tornando cafona.

Para tanto, criaram seus próprios clubes de leitura, o que talvez seja bom porque todo estímulo é bem-vindo, sobretudo para abrir uma fresta e respirar no off-line, restabelecendo vínculos com a vida (um exemplo disso é a revalorização de atividades manuais).

Mas o que o livro tem a oferecer a estrelas da moda e da música, da TV e do cinema, do mercado e das finanças? A força evocativa do objeto e do que ele representa.

Digo, do que o homem ou a mulher que estão com um livro sob o braço transmitem nessa imagem. Mais que o prazer da leitura, é a promessa de controle do tempo, de gestão da liberdade, de domínio de uma ordem que se perde quando não se é mais indivíduo, mas usuário refém da lógica das redes.

O livro é o novo cigarro e seu simbolismo libertário. Ora, nada mais erótico do que uma joalheria cuja propaganda exibe um livro e seu apelo ao pessoal ou uma loja de bolsas com sua série inspirada nos clássicos da literatura russa – Anna Kariênina como decalque de um penduricalho a tiracolo.

Esvaziado, reduzido ao objeto já destituído da força de mudança, mas ainda assim livro, com sua aura de avesso, sofisticada e atemporal, além da sua capacidade de convidar ao silêncio nesse recolhimento chique.

Daí que o influenciador de literatura, essa figura cujo vocabulário se organiza no binarismo gosto/não gosto, veja tudo como essencialmente bom, num otimismo que faria Poliana pegar em armas e declarar guerra ao mundo, rasgando página por página de seu manual de boas maneiras.

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