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Perdido na CazéTV


Perdi o momento em que resenha virou a resenha, esse híbrido que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, sinônimo para engraçado e outras coisas cujo significado eu não saberia desfiar agora, sob a pressão do gap geracional que me afasta, nascido nos idos dos 1980, dessa turma pós- 2000, para a qual o normal é a conexão desconectada, a atenção desfocada, de que é exemplar a transmissão da CazéTV.

De férias e com tempo relativamente livre, tentei assistir aos jogos da Copa pelo canal do Casemiro, de quem gosto sem conhecê-lo, gosto por supor que era um sujeito comum que de repente venceu na vida.

Mas, fora isso, ou seja, fora essa simpatia meio sem razão, admito que não comprei totalmente a história. Digo, me sentia naquele meme do Didi vestindo uma roupagem juvenil sem de fato ostentar um predicado etário para tanto.

Tenho 46, e minhas roupas são de alguém que envelheceu sem se preocupar com roupas.

Não sei, mas algo no tom e no modo de tratar a matéria era dissonante, não se encaixava. Ou aquilo era normal e o errado era eu, ou o programa havia acelerado o áudio para 2x, de modo a manter a audiência sempre presente.

Os caras – é como uma turma de amigos – narram os jogos com uma histeria naturalizada, muito acima do conveniente, apenas interrompida por gargalhadas que se estendem durante o intervalo, no qual pouca coisa se acrescenta de fato ao jogo – ou, para usar palavra já surrada, à experiência de ver o espetáculo.

As interações com a audiência, por exemplo, outra cereja da receita do sucesso da CazéTV, se dão nesse ritmo de rede social. Aliás, tudo nele parece feito para consumo nas plataformas, exageradamente leve e fragmentado, sem que a atenção se sustente mesmo no que deveria ser o principal da coisa toda.

O jogo é até secundário diante dos apelos recorrentes das bets e do que alguém disse no chat ou de qualquer outra intervenção que soe como motivo de resenha, funcionando como desvio dentro do desvio.

É narração para quem está interessado na narração como pano de fundo enquanto rola a barra na tela, nesse scroll infinito, casando apostas e checando mensagens, olhando o resultado de outras rodadas e por aí vai. Um ruído de fundo, branco, produzido para fisgar ocasionalmente a atenção.

De vez em quando ergue-se a vista do celular para identificar o time que fez o gol. Daí talvez o volume exagerado da voz, a teatralização forçada, a falta de uma análise que ancore tecnicamente o que vai sendo dito meio que ao acaso, uma sensação de que o fenômeno se mantém na superfície o tempo inteiro, sem necessidade de aprofundamento, seja por falta de interesse ou de tempo.

Apesar disso, nunca vi narradores vibrarem tanto com um lateral ou um tiro de meta quanto os da CazéTV, o que sugere uma relação com uma certa incapacidade, deliberada ou não, de estabelecer um fio com os fatos hierarquizados desse evento cujos acontecimentos são tomados como importantes no todo. 

E se tudo é importante e narrado como gol no jogo de futebol, é sinal de que ou não se leva em conta a diferença entre gol e lateral, ou nada de fato é importante, a despeito da impressão permanentemente alimentada de que algo nessa transmissão é histórico, inédito, fora do comum, surreal e por aí vai.

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