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Neymar: nem vivo nem morto

 

A “turma da resenha” gosta de se referir ao jovem Neymar mais ou menos como os marxistas costumavam reverenciar o jovem Marx, isto é, como um oráculo preditivo (redundância justificada) cujo progresso confirma antigas expectativas de sucesso fundadas apenas na fé e no mau-caratismo.

Mesmo carregado com auxílio de muletas para lá e para cá e há quase mil dias sem jogar futebol ou qualquer esporte que se pareça com isso, o camisa dez da Canarinho não perdeu sua condição de ícone do sebastianismo made in Brazil.

É, sem nunca ter sido, esperança de gol e vitória ainda que habitando esse entrelugar esportivo, físico e existencial: nem fora nem dentro, nem escalado nem descartado, nem goleador nem perna de pau.

Nem Cristiano Ronaldo nem Messi.

Neymar é a promessa não cumprida de boa atuação de uma seleção que projeta na sua miraculosa recuperação a profecia autorreliazável de uma meritocracia de baixo custo – se ele quiser, ele pode. Mas Neymar quer, Neymar deseja?

Nos sonhos dourados de Tiago Leifert, esse Peter Pan do trambique é o rei extraviado cujo retorno da batalha figura no horizonte como uma espécie de Gandalf e seu cajado mágico, surgindo para derrotar os exércitos de Saruman nas colinas da vasta Terra Média.

O atleta do Santos é flagrado caminhando pelo gramado num dia qualquer dessa lenta convalescença que o país acompanha como a uma novela, por exemplo. Em ritmo vagaroso ainda, é verdade, mas coordenando com alguma perícia as pernas direita e esquerda, esquerda e direita. Um passo de cada vez – dele não se exija mais que isso.

É um progresso inegável, visto com olhos talvez excessivamente bondosos pela imprensa, que o encara como uma mãe encara o próprio filho se pondo sobre duas pernas e fazendo o que qualquer bípede humano em algum momento da vida vai fazer.

Há um clima de injustificado otimismo no ar, dirão os mais pessimistas.

Neymar calça chuteiras rosa, como todos os destaques da Copa até agora, o que de pronto remete um ou outro desavisado para os maiores do torneio, CR7 e Haaland, Kane e Mbappé (não lembro se realmente usavam essa cor, mas suponho que sim, na minha cabeça essa imagem se fixou, de modo que passei a vê-los desfilando esse modelo).

Ao menos no porte e na escolha da paleta de cores, nas dancinhas e na descontração, o Brasil não deixa nada a dever às demais seleções, incluindo-se Inglaterra e França.

De repente, o atacante para no campo. Seu trote é claudicante e sua expressão, ambígua. Os olhos de ressaca, qual uma Capitu fubanga, miram além do gradeado. No que pensa o menino Ney nesse instante de agonia?

No retorno para casa logo depois da fase de grupos, nas horas de folga, no Santos, no filho mais novo, na vida de boemia no Brasil, no PS5 deixado no canto da sala e já empoeirado pela falta de uso?

Signo dual, ele está confiante e desconfiado, feliz e contrariado, decidido e irresoluto, como uma contradição que foge a qualquer “Aufhebung” hegeliana, o que certamente deve ajudar Vini Jr e cia.

Porque Neymar é isso mesmo, um tipo cordial irredutível a sociologismos de botequim e alérgico a binarismos adestrados nas epistemologias acadêmicas das humanidades.

É nisso que a seleção se fia, credulamente, e quando digo seleção estou falando de todo mundo, da pátria de chuteiras.

O problema é que cada vez mais aquilo que Neymar pode fazer está afastado do potencial do seu corpo, maltratado por anos de putaria e noitadas regadas a uísque.

Com milhões de seguidores nas redes sociais, não há dúvida de que ele é um dínamo publicitário de si e das marcas que apostam em sua imagem. Mais influenciador que atacante, mais Virginia que Romário.

Numa Copa em que o jornalismo profissional parece ter cedido de vez o lugar para o entretenimento, e a análise para essa categoria escorregadia que é a “resenha” (ver CazéTV e toda essa peroração como método), é curioso que o craque do Brasil esteja mais à vontade fora do que dentro das quatro linhas, como seus colegas de ofício mais velhos e hoje muito mais próximos do troféu de campeões.

É, nesse sentido, um atacante autenticamente bartlebyano, quem sabe o primeiro de seu nome, que prefere sempre não fazê-lo.

Essa é uma cisão inesperada.

E não é descabido considerar que Neymar tenha sido convocado exatamente a fim de preencher essa lacuna no grupo de Ancelotti, ou seja, a de alguém que incorpora uma fenomenologia do jogador cuja performance independe de que de fato atue.

Neymar enfeitiça porque distrai e distrai porque prescinde do corpo para jogar. Um astro da prestidigitação.

Não como um atleta de futebol, mas como um apostador, um investidor de risco que mobiliza capital para explorar a possibilidade de que se recupere e esteja ao menos parcialmente apto a enfrentar adversários.

Menino, adulto, profissional e amador, nem lendário nem otário, nem vivo nem morto, personifica o ideal do futebol moleque, com mais ênfase na molecagem do que no futebol.

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