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Os vikings da Copa

 

Vi a comemoração dos noruegueses rapidamente num corte de vídeo no X, a tal “remada viking”. Achei que era um exercício de academia de execução moderada.

Gesto da torcida repetido pelos jogadores? Ou seria o contrário, começou dentro de campo e se espalhou para as ruas? Não sei, perdi o fio da meada nessa Copa de muitos gols, menos do Brasil, que continua dependendo de um trabalho minucioso de reconstrução do corpo de Neymar.

Lá pelas tantas, o atleta bate num tambor. Está rindo, não sei se de nervoso ou de orgulho pelo placar contra o Senegal. Talvez de vergonha. Eu teria, mas tenho vergonha de tudo.

Os batuques se aceleram, ganham essa intensidade tribal. Agora em intervalos menores, cada vez menores, em estocadas agudas. Ele convoca a arquibancada a gritar e fazer o mesmo, levanta os braços, parece afogueado como um líder de matilha.

Então os companheiros de time o acompanham, simulando a puxada nos remos, que vai num crescendo até um clímax orgiástico. É isso.

E tem os urros, claro, os gritos ferozes como se eles de fato estivessem prestes a desembarcar em alguma vila para pilhar, destruir, estuprar mulheres e escravizar crianças, mas essa parte da remada não é tão interessante.

Melhor ficar apenas com os remos e os braços dos jogadores nórdicos ou escandinavos do século XXI indo e voltando, sentadinhos nessa brincadeira de meninos no pátio da escola antes de a diretora apanhá-los com um cinto.

O espetáculo, a coreografia, o encanto da torcida, a conexão que se estabelece entre nós e eles. Só o futebol pode proporcionar essa magia.

De repente, um cearense da capital se sente irmanado com esse europeu de quase dois metros de altura e pele alvíssima repetindo uma espécie de rito de guerra fálico que é a reprodução da cantoria que precedia toda sorte de atrocidades depois cometidas quando eles finalmente aportassem.

Enfim, coisas do século IX, aqueles loucos anos de 800.

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