Da “verba volant” de Michel Temer (MDB) ao Brasil com z de Flávio Bolsonaro (PL), mais de uma década se passou, mas o golpismo segue o mesmo.
Mudou apenas o estilo, deixando de lado os maneirismos do então vice-presidente, poeta bissexto às voltas naquele 2015 com queixumes e outras mumunhas.
Logo no primeiro parágrafo da sua missiva, o emedebista cravou, sem volteios: “Verba volant, scripta manent” – as palavras voam, mas o escrito fica.
No caso de Flávio, quem voou foi ele mesmo, o candidato, certo de que suas palavras àquela altura valiam muito pouco e que nada do que fizesse ficaria.
Horas depois, e já em terras estrangeiras após périplo contornando o mapa do país natal de jatinho cuja propriedade é duvidosa, o senador dirigiu-se ao “povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
Como um revolucionário de Roblox ou tribuno de hospício, autoproclamou-se então liderança de toda a nação, ungido por si e por Paulo Figueiredo, neto de ditador.
Melífluo e discreto, Temer não chegaria a tanto. Pudera. Nas mal-traçadas endereçadas a Dilma Rousseff, e não genericamente aos brasileiros, o vice, assumindo um eu lírico todo contido, permitiu-se apenas o registro educado, quase a se desculpar pela intromissão.
Disse ele: “Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio”.
Note-se o cuidado vocabular, a cautela lexical e a escolha rococó vazada numa construção que se pretendia não somente burocrática, mas literária.
O que lhe chegara aos ouvidos? Ele não responde, antes deixando em suspenso, criando no leitor a expectativa pelo que virá.
Cioso de seus deveres, porém, Temer faz saber à petista, naquela carta pessoal e com jeito de desabafo, que estivera “os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo”.
Longevo, experimentado, tido e havido como constitucionalista de quatro costados, o dirigente nacional do PMDB, alçado a vice por Lula, não arrogou para si o cargo de chefe de Estado.
Fez o contrário, esperou a eternidade de um mandato para confessar à superior que se sentia como um elemento acessório, igualando-se, no seu afã humílimo, a um abajur ou a uma das emas do Planalto.
“É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo”, segredou novamente o autor, na sua prosa indecisa entre a concisão de um Graciliano e o derramamento de uma Carla Madeira.
Premido pelas circunstâncias políticas, sem saber ao certo se partia para o ataque e depunha a aliada, como acabaria fazendo, ou se chorava às margens do Paranoá a praguejar contra o destino, Temer suplicava que Dilma o notasse.
“Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Éramos secundários, subsidiários”, balbuciou, lamentoso.
E, como a comprovar que sua expertise de nada valera à então mandatária, citou episódio que lhe tinha causado especial tristeza, pondo-o com a moral rente ao chão.
Temer assim o narra: “Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o vice-presidente Joe Biden - com quem construí boa amizade - sem convidar-me, o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que, numa reunião com o vice-presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente?”.
O que teria havido? Jamais saberemos.
Ora, a carta de Flávio é o avesso da de Temer. Para começar, falta-lhe a elegância no trato da língua.
Em segundo lugar, sabe-se que o vice foi de fato autor da sua, mas terá sido o zero-um o autêntico nome por trás do ajuntamento de frases com ares de inteligência artificial?
Finalmente, Temer fê-la divulgar informalmente pelos corredores palacianos em definitivo, sem brasão, sem recuos e edições.
Afinal, as palavras ficam.
Flávio, por seu turno, foi e voltou, desistindo do dito e desdizendo o feito, sem compromisso com a posteridade, tampouco preocupação com a última flor do lácio, como ficou patente no erro de grafia do nome do próprio país.
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