Quero falar do charme das casas com cara de clínica, a sala como recepção e a fachada como se fosse a entrada de uma empresa do ramo de entregas, um galpão como filial de big tech.
A numeração extravagante, caso ninguém consiga vê-la de longe, procurando o endereço. A porta como se de um castelo, o telhado fora do alcance da vista, os tijolos como se de arruamento medieval assentados por mãos de pedreiros cuja escala de trabalho é 24/7.
Tudo nessa residência é feito para combinar habitação com negócio, lar com trabalho, convertendo a convivência num ativo financeiro e a intimidade numa extensão da transação comercial.
Afinal, o que a casa-clínica quer comunicar e a quem? A que anseios a construção arquitetônica atende com seus sistemas de iluminação simulando o ritmo circadiano e seu discurso de biofilia e estética neurocognitiva?
Nessas moradias, o curvo e o reto convivem em harmonia no pé direito alto, o que sem dúvida é agradável, e também nessa luminosidade variável acionada por sensores de movimento, o que é fundamental para uma economia verde cuja garantia de futuro a construção do condomínio de luxo numa área antes de floresta é parte essencial.
Da rua, infelizmente, não se entrevê nada de seu interior, pelo contrário, o fluxo é unidirecional, os portões sempre vedados, as janelas cerradas, a garagem invisível.
Não há contato, diálogo, interface. A casa com cara de clínica não se abre para fora, apenas para dentro, isto é, está alheada a todo espaço que não seja o privado, sua lógica é a do umbigo do autocuidado, essa expressão que justifica o narcisismo de classe.
Mas quando esse desenho começou a se tornar tão onipresente, a ponto de tê-lo visto fora dos perímetros da região metropolitana de uma cidade como a nossa, a minha e a sua? Não sei.
Ia passando pela rua quando espichei a vista e dei de cara com um modelo do tipo num bairro próximo. Uma legítima casa-clínica de periferia, o que sugere que a estética começou a se popularizar e que logo os ricos e novos ricos estarão à procura de um outro referencial de “lifestyle”.
Nada de novo, já vimos esse fenômeno com os nomes próprios dos filhos e filhas. Quando as levas de Enzo e Benício se espalharam para a base da pirâmide social, os de cima passaram a batizar seus herdeiros de João e Antônio, Maria e Tereza, num retorno à simplicidade.
O que é o “quiet luxury”, afinal, senão mascarar a saída pela tangente quando os recém-chegados ao PIB, circulando com suas unhas de acrigel e sobrancelhas de henna, começam a esgotar os códigos de visibilidade do mundo “soft” rico?
Nessas horas, o ensaio de volta ao mundo da natureza e da discrição é o grito de revolta do endinheiro oprimido que, atacado de cima por super-ricos, dos lados pela classe média alta e por baixo pela vanguarda aspiracional, sente no âmago a necessidade urgentíssima de se diferenciar no seu jogo de gostos e contragostos.
Será esse o futuro da casa-clínica, a expressão da fubangagem em estilo de arquitetura? Quando quarteirões de domicílios no Zé Walter, em Messejana e no Conjunto Ceará copiarem a marmota, o que farão os bem-nascidos?
Talvez uma aposta na “casa com cara de casa”: a casa das avós, dos afetos, a casa da memória e da lembrança, com álbuns de fotografias fake empilhados na mesinha de centro da sala de estar com cortinas sem microplástico, sofá ergonômico e porta com desenho neuronal, através da qual se vê o movimento da rua, num ideal de vida wellness.
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