Pular para o conteúdo principal

Lições de um BBB (3)

 

Há quem veja em tudo isso, porém, nada além de divertimento para massas, e tudo que se passa na casa está apartado de uma esfera da vida real, a performance dos confinados não espelhando necessariamente o que acontece aqui fora, onde pessoas lidam com problemas do dia a dia.

Nessa hipótese, não cabe extrapolar condutas de participantes de um jogo televisionado pela maior emissora do país, bancado por patrocinadores e cujo objetivo principal é a conquista de um prêmio milionário, além de outros ganhos materiais de importância aproximada ou igual, como fama, contratos, papéis em produções audiovisuais.

Nesses termos, e considerando-se ainda a pressão do confinamento, o comportamento dos jogadores tem de ser relativizado, jamais tomado como indício ou parte de uma corrente mais ampla, sobre a qual jogariam luz.

O risco, alertam essas pessoas, é o de amplificar e distorcer esse campo, atribuindo à coletividade o que é do âmbito do indivíduo, e de um indivíduo situado num certo espaço e num certo tempo.

Faz sentido, mas continuo a acreditar que grande parte do que ocorre ali dentro reflete, sim, o que vemos do lado de cá, principalmente do lado de cá das redes sociais, um território por si só segregado do restante do mundo, do qual muitos jogadores estão igualmente desconectados.

E nisso o BBB 21 pode significar uma preciosa lição: ao explicitar a crueldade de certos discursos, ao evidenciar autoritarismos e dificuldades de encontrar pontos em comum entre pautas diferentes, talvez o programa esteja ajudando a enxergar seus defeitos, seus limites, suas incongruências mais que qualquer roda de conversa ou debate interno em partido político.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...