Pular para o conteúdo principal

Desconfinados

 

Passados seis meses de confinamento autoimposto e apenas quebrado ocasionalmente, como quando faltava goma de tapioca ou areia para as necessidades do gato, entendi que era hora de sair e gozar novamente do espaço púbico.

Quem sabe ir até a praia e caminhar pela calçada, recebendo no rosto aquele ar salgado de fim de tarde temperado pelo cheiro de milho cozido e urina.

Mas qual o quê. A praia já estava repleta, as barracas apinhadas de pessoas às voltas com mancheias de batata frita e cascos de cerveja, numa celebração que supus como o rompimento de um dique de barragem após anos de contenção.

Mas qual o quê, me surpreendi novamente quando o garçom, instado a explicar se aquele fenômeno se repetira nos finais de semana anteriores ou se registrava somente naquele em que eu havia escolhido deixar o recolhimento e aceitar o risco de estar lá fora, disse que esse estado de coisas era o mesmo havia pelo menos um mês.

Por aqui a pandemia é uma guerra perdida, arriscou, num falso abatimento.

Em seguida virou-se em direção à cozinha, de onde saiu uns minutos depois equilibrando duas porções de carne de sol numa bandeja de metal oxidado que fez aterrissar numa mesa vermelha onde dois casais brindavam a vitória contra o vírus.

Isso mesmo, um gole à vitória, disseram mais alto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...