Pular para o conteúdo principal

Cinco coisas sobre as quais é difícil escrever

1. A sensação de estupidez quando sem querer esbarramos numa xícara de café sobre a mesa mesmo quando antecipamos esse gesto em alguns bons segundos. O que nos leva a pensar que, a despeito de estarmos cientes dos riscos de virar uma xícara sobre livros e computador, coisa que acaba de acontecer comigo, acabamos por fazer exatamente isso, seja porque não acreditamos em intuição, seja porque não estamos muito preocupados com o que quer que seja quando o único desejo é fazer o que queremos fazer. Seja porque o destino existe.

2. Calor. Falar sobre calor, como de resto sobre qualquer outra coisa, não apenas acentua a impressão de que estamos com calor, como também é um gasto de energia extra que, diga o que dissermos, jamais resultará na redução ou mesmo na supressão do calor propriamente dito. Sequer metaforicamente funciona. Das atividades humanas, é talvez a mais gratuita.  

3. Amor. Coisa fugidia, esse sentimento nunca é o que é, e, quando finalmente parece ser o que talvez seja, descobrimos que não temos palavras para dizer aquilo que não sabemos ou que achávamos que não sabíamos. Na melhor das hipóteses, estamos falando de amor quando escrevemos sobre xícaras de café e vice-versa, mas, mesmo nesses casos, é impossível ter qualquer certeza. Há, porém, algo que talvez não explique, mas se aproxime do amor: sua inevitabilidade. Como o café que se derrama sobre a mesa. 

4. Paixão. Como o calor, reforça estados naturais e faz lembrar que temos um corpo e no corpo desejos e nos desejos nomes que repousam num canto e nesse canto as sensações para as quais damos ordens que jamais serão cumpridas. 

5. Culpa. Como o pudim, é difícil encontrar o ponto certo da culpa. Se passamos dele, somos autocondescendentes. Se estamos aquém, minimizamos a culpa. O risco de parecer falso escrevendo sobre culpa é enorme e o de parecer esnobe não falando é maior ainda. O que fazer? Sentir-se culpado é ruim, não se sentir também. Logo, o mais adequado é tratar da culpa diretamente. E depois esperar que o pudim esteja bom.   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...