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Mulheres de Marte



O que faria em Marte em 2025 depois de uma viagem de sete meses sem fazer outra coisa senão pensar no quanto ainda falta para chegar em Marte?

Lavrar o solo vulcânico de Marte, que trabalho árduo. Um dia quente em Marte.  A súbita suspensão dos ventos. Um fim de namoro em Marte. O luto em Marte. A fome, a sede, a doença, a morte, o parto a uma gravidade de quase 3m/s². A expulsão do bebê dificultada pela força da gravidade terrena dividida por três. No planeta vermelho a gravidade é uma inimiga ainda mais traiçoeira.

Eu tentaria localizar o jipe-robô Curiosity no horizonte laranja de um fim de tarde. A lataria da sonda refletindo a luz intensa do sol. O chão esturricado do planeta e seus rios congelados quilômetros abaixo dos nossos pés indiferentes à presente de um bípede em fuga.

Mas sinto que, embora próximo, Marte é um planeta distante, inalcançável. Está na zona habitável, mas é como se não estivesse. Marte é e não é.

É hostil, e isso diz muito sobre o que espera os quatro colonos que irão embarcar na primeira leva de turistas espaciais com destino ao planeta, tudo financiado por uma espécie de BBB. 

Engraçado é que uma empreitada cósmica resulte dos esforços do co-criador de um reality show, que espera levantar dinheiro suficiente para enviar as pessoas a Marte, mas não para trazê-las de volta.

Sinto que já vivi tudo aqui na Terra.  Tenho 53 anos e no ano da viagem terei 63, então estou mais preparado para me adaptar ao clima ruim do planeta vermelho, à baixa gravidade e à falta de uma rede de fast food. Quem disse isso foi um brasileiro para quem a vida na Terra já rendeu o que tinha de render. Marte lhe parece interessante, inesgotável e atraente.

A minha suspeita, porém, é que Marte não existe. Assim como Atlântida ou o Eldorado, é uma invenção. Marte é como uma paixão não correspondida.

Li outro dia numa reportagem um matemático afirmar que há boas chances de que o universo seja um simulacro. Disse isso: um simulacro, um invento, uma brincadeira de um estudante do futuro entediado com a vida no futuro tanto quanto o brasileiro que quer ir para Marte se sente entediado em elação à vida no pressente. Que bela teoria. Isso explica quase tudo.

Considerei a hipótese por cinco minutos. Nosso universo criado por um jovem bolsista e apresentado como trabalho de conclusão de curso numa faculdade conceituada dos Estados Unidos ou da Alemanha ou mesmo do Brasil, por que não?

Pensei no universo como algo criado por um brasileiro. Se isso não explica quase tudo, não sei o que explicaria. A teoria do Big Bang? 

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