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A VAIA (quase) SEMPRE VENCE

O texto abaixo foi publicado no dia 13/1/2012 na Revista Cambeba, o maior compiladão de ideias do Norte/Nordeste.

À guisa de introdução e a despeito do que recomendam os manuais do bom redigir, quase sempre concentrados em dicas de escrita obtusas, segue-se um longo trecho de reportagem. Aconselho a leitura:

Um fato curioso presenciou o repórter, quando, esgueirando-se pelas calçadas molhadas, procurava atingir o setor da redação d'O Povo. Um grupo numeroso de pessoas, logo depois de passada a chuva, se aglomerava em certo trecho de rua, usualmente bem movimentado.

O melhor vem agora:

Quando o sol, tão bravo nestes últimos dias, ia conseguindo varar as grossas nuvens, lá no alto, num esforço desesperado para aparecer (grifo nosso), os alegres circunstantes, olhando para o alto e apontando, começaram uma demonstração estrondosa, vaiando o astro vencido e apagado, naquele momento, num grito uníssono de várias bocas. Mas afinal o velho Rei das alturas venceu, botando todo o corpo para fora das nuvens e dispersando os vaiadores.

PARTE I

Narrada com habilidade por jornalista a respeito de quem se sabe quase nada, exceto que era dono da carteirinha nº 3 de sócio da Cofeco, a famosa vaia ao sol impetrada por cearenses está prestes a completar 70 anos.

Muitos desconhecem, mas, após sofrer revisão histórica criteriosa, o evento, noticiado pelo jornal O Povo de 31 de janeiro de 1942, goza na contemporaneidade de relevância parecida ou mesmo superior à atribuída a diferentes acontecimentos que consolidaram nosso arcabouço cultural. A vaia passou de molecagem a brado retumbante, de gesto desprovido de simbolismo a lócus interpretativo, de mero artifício galhofeiro a “estratégia de convivência com o outro” (COELHO, Dantas, 1989).

Um historiador alinhado à esquerda anexaria com relativa empáfia: sendo assim, estamos diante de “uma vaia outra”.

De fato, é isso mesmo. Justifica-se toda a teorética segundo a qual a vaia ao astro-rei confunde-se em importância com o ato libertário do jangadeiro Dragão do Mar, cuja recusa em transportar escravos no Ceará demarcou simbolicamente o fim de uma época e o começo de outra. A saber: o fim do regime escravocrata, o alvorecer de uma sociedade devotada às luzes.

PARTE II

Foi um agito sem precedentes, asseguram os mais velhos. Imaginem vocês que, bem na esquina da América do Sul com a Europa, a dois palmos da Linha do Equador, refém de hábitos afrancesados e carente de saneamento básico, vacinas e redes sociais, munido tão somente de boca, língua e goela, o cearense expressava seu descontentamento com “tudo o que está aí” vaiando o (ir) responsável pela vida no planeta.

Resultado: uma pândega generalizada que repercute até agora.

Reparem que, dispensada a um ente distante 150 milhões de quilômetros da Terra, o apupo é claro demonstrativo da natureza espelicute e traquinas do nativo desta província agreste. E mais: trata-se de um dos raros consensos no âmbito acadêmico local: “Como libelo pacifista genuinamente da terra, a vaia consubstancia-se em irrefutável grita a favor da chuva que fertiliza a lavoura, provendo-nos de toda sorte de víveres” (CASTANHOLA, Maxwell. O alimento no contexto da guerra urbana na Fortaleza pós-Belle Époque. Fortaleza: Edições UFC, 1965).

Para o psicólogo Davidson Moura, nada seria mais descabido. “O manifesto (apupo) foi dissimuladamente orientado ao sol. À socapa, a vaia driblou a censura e a vigilância de costumes, impondo-se como a única maneira encontrada por aquele segmento reprimido da sociedade para liberar a tensão social oriunda da 2ª Guerra e das políticas autoritárias de estado”.

Aceito um ou outro viés historiográfico, a verdade é que a vaia cearense inaugurou nova modalidade de protesto, tão conhecida no mundo quanto os potinhos de areia colorida.

Seja na Praça Tahrir ou nas ruas turbulentas de Santiago, passando por bulevares franceses e pubs londrinos dotados de ótima conexão 3G, ou ainda nos caquéticos banheiros de Pindoretama, vaiar na atualidade corresponde a ato político, “expressão inequívoca de contrariedade devedora do mitológico uivo tribal dos Jenipapo-Kanindé” (PACHECO, Soraia, 1999).

PARTE III

Em A natureza polissêmica da vaia, o professor de estética Mauro Dutra Dubiena defende: uma linhagem de eventos similares se propagou ato contínuo ao ocorrido no Ceará, em 1942. “É possível identificar o rastilho”, avisa. “Há um antes e um depois desse nítido divisor de águas. Nem a famosíssima vaia ao espetáculo A sagração da primavera, na Paris de 1913, representou tanto para a cultura ocidental quanto a presepada cearense.”

Dubiena classifica como “emblemático” o apupo despejado no cantor e compositor Sérgio Ricardo, durante apresentação no Festival de Música da Record de 1967. Ao final, Sérgio brada “Vocês ganharam, vocês ganharam!”, quebra o violão em dois contra uma caixa de som, atira-o no público e deixa o palco acompanhado dos músicos cabisbaixos.

Mas o gesto extrapola o campo das artes. Quem não se lembra do monumental escárnio com que a torcida do Grêmio recebeu Ronaldinho Gaúcho em jogo disputado contra o Flamengo, na reta final do Brasileirão de 2011?

E a vaia endereçada a Lula na abertura dos Jogos Pan-americanos do Brasil?

E a vaia para a carta da ministra Ana de Hollanda, lida por Sérgio Mamberti em evento de cultura digital?

E a vaia para a miss Rio Grande do Sul ao ser declarada Miss Brasil 2011?

E a vaia para a Cláudia Leitte no Rock in Rio do ano passado?

E o estrepitoso “Concurso de vaia cearense”, promovido por João Inácio Jr. na surreal TV Diário, a TV do nordeste?

E a vaia arremessada contra a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, em pleno réveillon da quinta maior cidade do Brasil?

Ficam aqui a reflexão e o ensinamento: a vaia sempre vence.

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