Pular para o conteúdo principal

Mensagem para você


Houve um debate bastante acalorado ao qual adoraria ter comparecido. Nesse debate, discutiram-se algumas possibilidades, como apostar na linguagem, na forma, aliada, obviamente, ao conteúdo, portanto temos aqui a proposição inicial: forma + conteúdo conjugados, uma saída relativamente tradicional, afinal de contas um sem número de escritores / narradores investiu maciçamente nessa composição, cujo mérito é nem abrir mão das inventividades técnicas, nem das conteudísticas.

Isso parece sensato. Embora realmente não interesse. O que interessa está para ser dito. E isso não é axiomático.

***

Hoje só vou falar como ser humano, como um entre os sete bilhões de pessoas do mundo.

Não sei exatamente o que o Dalai Lama (Oceano de Sabedoria ou Saber, tanto faz) quis dizer com isso, mas posso supor que tenha tentado nos fazer entender – ao público da palestra de ontem, principalmente – que estaria ali, à frente do microfone, encarando uma plateia heterogênea, não como líder espiritual. O guru investido de ancestral conhecimento havia ficado no Tibet. Aquele baixotinho ali, o homem de cuja boca escorria uma porção de lições aplicáveis em muitos contextos – do namoro ao conflito entre etnias distintas –, falava enquanto ser humano.

Gente como a gente, que trabalha, recebe salário e, no final do mês, paga as contas. Ou tenta.

O que chama a atenção não é tanto o caráter repetitivo da mensagem apresentada pelo Dalai Lama, mas sua crença em que mostrar-se como uma pessoa qualquer seja antes uma escolha pessoal que um imperativo do qual nem mesmo o Mestre dos Magos conseguiria escapar.

Um parêntese, por favor. Dois, para ser preciso. Penso que, no mundo, haja alguma hierarquia, e que, admitida a existência dessa categorização mínima, seja perfeitamente compreensível que o anão mágico dado a charadas enervantes ocupe o topo da pirâmide, logo seguido por Gandalf e, finalmente, mas sem o mesmo glamour dos dois anteriores, um dos cavaleiros de ouro. Gêmeos, talvez, ou Câncer, popularmente conhecido como Máscara da Morte.

De todo modo, a intenção inicial se desfez em poeira. O que terá motivado tudo isso é agora um sonho dentro de um sonho dentro sonho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...