Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente e da presença.
Capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato, estão ali, homens e mulheres, autênticos ou inventados com auxílio de IA, nisso não há mais diferença no mundo indiferenciado.
Um momento postiço, é verdade. Efeito de cálculos, moldado para se confundir com o real, mesmo não sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil, ao menos por ora, já que o cansaço tecnológico vem a cavalo de galope, a ressaca do emprego contínuo de uma ferramenta, a cafonice de tentar fazer parecer o que não é.
Poses, sorrisos, aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é constitutivo de um cotidiano que resiste a qualquer encenação.
Rostos congelados em expressões de absoluta concentração e beatitude, as linhas da testa mais serenas e as maçãs docemente erguidas, rosadas, os olhares de uma compenetração quase fora de moda, devotados a um objeto cuja presença não se adivinha, uma mecha de cabelo estudadamente caída sobre a face.
Ninguém é fotografado com a vista fixada no aparelho celular, todas e todos estão mirando uma linha qualquer no seu horizonte de expectativas, as sobrancelhas como duas lebres decalcadas em pleno salto, os lábios suaves em curvas de sedução.
Como é bonito o mundo alucinado da máquina, talvez cantasse Belchior num disco produzido por IA combinando versos que ele escreveria se estivesse vivo e errante, um simulador de canções do poeta, que alimentaria o algoritmo e do algoritmo se alimentaria.
A vida em estado puro, num domingo ou sábado, besta e alegre, num espaço de convivência como essa arena de futebol onde as câmeras de transmissão das partidas já se habituaram a caçar beldades desprevenidas, revelando ao mundo o poder de uma beleza suposta, hipotética, fantasiada, projetada – a beleza perdida.
Mas então é aí que a natureza passa a se confundir com a técnica, a cultura com a matéria bruta, o espontâneo com a performance. É o tempo, dirão, e contra o tempo nada há que se fazer, apenas aceitar, o tempo que antes era métrica de maturidade se converteu num contratempo, embaraçoso como é, ruído e aresta que se deve remover.
Fora com a fricção, o gasto, o “chiaroscuro”. Viva ao transparente, ao fluxo, ao imediato.
A mágica está ao alcance de todos como a aura benjamininia, que cada um, inclusive eu mesmo, pode manufaturar com sua distração pessoal e intransferível, criando para si um avatar mais sociável e público. Isso é realmente uma novidade.
Mas, por enquanto, trata-se apenas de fotografia. Enganosa, mas fotografia. O resultado de uma inteligência maquínica movida a dados privados, que gentilmente admitimos transferir para as megaempresas de tecnologia em troca dessas traquitanas alimentadas com água drenada da aridez de estados como o Ceará, onde esses empreendimentos desembarcam como as quinquilharias que os europeus ofereciam aos indígenas e que saudamos como salvação da lavoura econômica e política.
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