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O mundo do concurseiro


O mundo do concurseiro lembra uma igreja. Há sempre os testemunhos antes das aulas atestando a validade da fé no próprio esforço e afiançando que, se houver entrega e uma mentalidade vitoriosa, um dia essa vaga prometida chegará num certame qualquer, não se sabe se nesta ou noutra encarnação.

Por razões pessoais, tenho passado a frequentar esses cultos. Gosto de me diluir na massa de alunos entre esperançosos e ressabiados, todos ungidos por uma graça distante e cada um imbuído de um propósito singular e levemente desesperado.

Qual? Ganhar mais ou algum dinheiro e garantir estabilidade num mundo instável e prestes a colapsar, não interessa se hoje ou daqui a duas décadas. Para um grupo tão heterogêneo, o futuro é imediato e as opções, nenhuma.

Ouço a voz grave do professor no evangelho das orações – subordinadas reduzidas de infinitivo –, e prontamente me genuflexo. Mas, como não estou certo de que esse verbo é pronominal (embora o use assim mesmo porque tenho preguiça de consultar o ChatGPT), faço menção de levantar.

De pé, rogo a deus que afaste de mim o cálice da desinteligência emocional e tudo que esteja bloqueando o meu potencial de crescimento pessoal e também os canais de acesso ao sagrado da norma culta da língua portuguesa, ao menos enquanto estiver na sala 107 do bloco D.

Nessas aulas da noite, tento desesperadamente me reconectar com a sintaxe do Sujeito Oculto por trás das sentenças que, na hora de preencher o gabarito com caneta azul de ponta porosa, decidem uma vida, principalmente quando as questões específicas têm peso diferenciado.

No intervalo, e já sentindo uma culpa cristã por não estar em casa vendo um capítulo de série, bate a tentação. Me pergunto o que estou fazendo ali e tenho vontade de ir embora.

Até ensaio guardar o caderno discretamente, sem chamar atenção apanhar celular e lápis e, sob o luar quente da cidade, sair desembestado pra comprar uma batata frita cujo odor oleoso havia empesteado o ambiente.

Mas logo outra aluna, esta consagrada com aprovação recente (gabaritou legislação e raciocínio lógico, além de quase fechar direito administrativo), toma a palavra, nesse sentido foucaultiano de se inserir num fluxo sem origem nem fim.

O que ela diz? Sem olhar para mim, fala que, nessa jornada pelo deserto (são os vocábulos que ela escolhe na pregação), muitas vezes o candidato se vê sozinho e desamparado como talvez alguns de vocês se sintam neste instante. E, agora mirando na direção da minha cadeira, pespega: “Mas desistir não é uma opção para marcar”.

Como se escrita com fogo, essa construção ricocheteia feito um bólido na minha disciplina vacilante de proto-concurseiro de primeira viagem. Sem dar tempo para pensar, o professor examina sintaticamente a frase no quadro branco, introduzindo a segunda seção da exposição, dedicada à análise do período composto.

Ainda devaneio na onda epifânica dessa revelação quando o guru da língua de Camões e Anitta interpela a sua audiência de aspirantes a servidores com uma pergunta tão misteriosa quanto a santíssima trindade: “para marcar” era uma subordinada adjetiva restritiva ou substantiva completiva nominal?

Nessa hora, um silêncio bíblico despenca sobre a turma, interrompido apenas pela sirene da escola.

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