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Projeto

Começar um projeto é vida e tempo. Demorar-se no projeto, deixar que ganhe corpo e ideias próprias. Sair pra trabalhar e voltar e encontrar o projeto na sala da casa crescendo, abrindo a porta da geladeira, pescando lá de dentro o pote de sorvete de morango.  O projeto inteiro é mais que ideia, é uma realidade. É quando pensamos que tudo gira em torno disso. De repente, no supermercado, apanhamos uma cerveja e nos damos conta de que a vida agora é toda esse projeto. No trabalho enquanto escrevemos ou na rua atravessando a faixa. O projeto em tudo inscrito, o projeto em tudo vivido.  O projeto é dar-se conta de que o amor é sempre um trabalho em curso, uma paixão em andamento.  Projeto é palavra técnica, reconheço. Até árida. Há quem a condene. Pouco amorosa, cheia de quinas e uma inicial hostil, afasta o verso, ninguém que a afague, ninguém que a pegue na mão e diga: fica, acho bonita sua cor, gosto do seu cheiro. E mesmo sua marca assim tão enviesada é um cha...

A passagem de Fontela

Um poema que passa diante dos olhos nunca é uma escolha, é como um bólido, uma estrela ou amor que chega e vai ou vem. É o poema que não escolhemos o que mais gosto de ler. Como este de Orides Fontela, peças móveis, desmonte e sorte, coisas que não quero lembrar porque ele passou e eu não. Um poema que segue e ricocheteia e depois não recordamos é a ideia de um poema de passagem, que não fica, um poema móvel. Uma memória de falta, o próprio texto convertendo-se naquilo que chama de brincadeira: suas palavras e sons percutindo uma superfície vaga de carne e pele e ouvido, fixando estruturas no mais fundo, dando permanecer o que era perecível. Procurar a ossatura do poema que falta é como tatear a forma antiga do amor. Há que se colocar  acima e abaixo, sempre em frente, em todos os lugares. E, por pinceladas, delinear os contornos, sem jamais descobrir finalmente o desenho original. Que é o poema que passou. 

O conselho de Carver

Gosto por gosto mesmo de abrir ao acaso um livro. Mais ou menos como uma cartomante que pede que retiremos uma carta de um leque de outras cartas e nessa escolha tente adivinhar sabe-se lá que futuros traçados não antes nem depois, mas naquele instante. Gosto de, ao abrir, adivinhar no título do poema escolhido ao acaso uma senha ou contrassenha, um presságio, uma sorte lançada, um sussurro de mensagem esquecida em garrafa jamais encontrada. Gosto mais ainda de casualmente ler e encontrar nas entrelinhas do poema que saltou por roleta russa um conselho, mas poemas não aconselham. Poemas desaconselham, poemas ensinam ao revés.  Este, por exemplo, caiu assim feito um passaporte. Carver, “Esta vida”. Uma dança antiga. O minueto.  Reabri e tornei a fechar o livro, mas jamais se repetiu o gesto de mãos que vaga e depois vai ao mesmo ponto, chega ao mesmo canto. O poema de Carver. Esta vida. Apenas hoje, agora. Na capa a foto do poeta, que se inclina levemente pra c...

Uma conversa com Pizarnik

Uma mistura de coisas, roupas, pedaços de livros, cacos de fotografias que foram se juntando e agora formam um mosaico de vidas que antes eram partes móveis de outras igualmente partidas e juntadas ao gosto da sorte, tudo por obra e força de quase nada, tudo em perfeita harmonia com o descaso do acaso.   Uma vida em mistura, rotinas, horários, coisas que se grudam por força de atração gravitacional, horas que engordam de tarefas que precisamos executar porque estamos cheios de uma matéria que não sabemos, mas talvez seja felicidade. Uma felicidade que, ninguém suspeita, é a grande novidade. E uma novidade que, mal sabem os que falam ou os que calam à passagem do amor, também tem sabe a tudo que pede que fique. Uma coisa de imiscuir-se no outro sem ter onde começar, tampouco terminar. Uma vida cada dia mais em compasso de outra coisa não sabida. Uma vida sem medo, um amor que não é medo nem morte, mas amor. Um medo de não amar o amor que não é medo. Uma morte que não ...

Todas as horas do dia

Dificilmente temos planos pra cada dia, a segunda e a terça, a quarta e a quinta. Planejamos o fim: sábado e domingo. E esperamos que os demais dias da semana encontrem sua dinâmica, como se dependessem mais da sorte. Entregamos a quinta ao jogo de azar. As segundas, então, padecem do mal que é o receio de todo começo, de algo que se inicia depois do clímax do fim de semana. Os dias depois do que acabou são sempre muito estéreis, é o que se costuma dizer a propósito desse intervalo de 72 horas que se estende da segunda até a quarta, quando se recobra algum ânimo e a vida parece novamente possível. Na quinta, a felicidade finalmente empina no horizonte. Na sexta somos alegres. No sábado, eufóricos. No domingo lamentamos que tudo tenha sido tão rápido. E assim voltamos a habitar uma circularidade do tempo e dos espaços. Como se marcássemos um assento na roda-gigante e o esperássamos passar sempre. Como se a felicidade dependesse de estarmos naquele lugar, naquele instante.  ...

Experimento sobre ondas

Hoje descobri que ondas passam, às vezes em duplas, quebrando ao mesmo tempo, dificultando o salto. Quando pulamos, outra vem e nos apanha, e por segundos a sensação é de que o chão faltou e temos certeza da morte. A morte é tatear e não encontrar.   Dura pouco tempo, uma fração de segundo. Uma onda que se segue a outra, o corpo suspenso, flutuando, a visão da areia, o sol. E então o susto. Afundamos. O sentido de que uma onda passa não é tão evidente assim. Parece, mas não é. Pra tudo na vida usamos a metáfora desgastada do mar e da onda como algo que vem e vai, num movimento de continuidade. Recorremos a isso pra falar de dificuldades, mas também de oportunidades. Uma grande massa de água salgada diante da qual os problemas se dissovem.  Mas essa noção de que as coisas se repetem é ilusória. Não há repetição, tampouco diluição. Há coisa melhor.  Quando saltamos, esperamos sempre cair no mesmo lugar onde estávamos poucos segundos antes. Mas isso também é ...

A palavra funda

Voltei a escrever numa brochura, caneta e papel. Letra e tempo. Preciso esperar que minha mão alcance o pensamento, que está à frente, penso ligeiro e me demoro a dar comigo mesmo. Quando nos encontramos, estamos em ritmos diferentes, modos diferentes de sentir o sentido. É aí quando paro e penso no tempo de que precisamos para que algo aconteça. A escrita se efetive. O traço se firme na mão e a mão guie com segurança, e não aos atropelos. Mas agora tudo vai em compasso, espero, a mão espera. Vamos andando ora acelerado, ora mais lentamente, como numa dança, uma coreografia. É um exercício de respiração pela palavra. Escrevo e leio e escrevo. Deixo pra trás, levo adiante. Tinha perdido esse costume, como se diz. Era apenas digitação, a mão desacostumada a batucar as palavras sozinha, a mão direita sobrecarregada. Dividia tudo entre duas mãos que escrevem, todos os dedos empenhados na tarefa difícil de dizer. E dizer tem sido cada vez mais custoso, cada vez mais necess...