Pular para o conteúdo principal

Projeto

Começar um projeto é vida e tempo. Demorar-se no projeto, deixar que ganhe corpo e ideias próprias. Sair pra trabalhar e voltar e encontrar o projeto na sala da casa crescendo, abrindo a porta da geladeira, pescando lá de dentro o pote de sorvete de morango. 

O projeto inteiro é mais que ideia, é uma realidade. É quando pensamos que tudo gira em torno disso. De repente, no supermercado, apanhamos uma cerveja e nos damos conta de que a vida agora é toda esse projeto. No trabalho enquanto escrevemos ou na rua atravessando a faixa. O projeto em tudo inscrito, o projeto em tudo vivido. 

O projeto é dar-se conta de que o amor é sempre um trabalho em curso, uma paixão em andamento. 

Projeto é palavra técnica, reconheço. Até árida. Há quem a condene. Pouco amorosa, cheia de quinas e uma inicial hostil, afasta o verso, ninguém que a afague, ninguém que a pegue na mão e diga: fica, acho bonita sua cor, gosto do seu cheiro. E mesmo sua marca assim tão enviesada é um charme. 

E nem digo que projeto é, em significado, nesse estado de dicionário, tão perto de sonhar, uma palavra por sua vez já tão desgastada, seja porque sonhamos em demasia, seja porque sonhamos pouco, seja porque sonhamos os sonhos errados. 

Então escolhemos projeto, que é uma palavra nova em nosso vocabulário, uma palavra ainda sem carga com uma fundura que vai ganhando contornos e cores e criando essas horas de futuro pelas quais ansiamos desde ontem, desde antes de ontem.

Todo projeto é uma promessa de que algo se realiza numa distância, num tempo, numa certa ideia de amor que nos consome e empurra para bem longe. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...