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Os sonhos da mãe

Passo agora a contar o sonho da mãe, uma geminiana de 54 anos, separada, três filhos, dois homens e uma mulher com idades variando entre 33 e 25, dois dos quais casados duas vezes, um deles convencido de que frequentemente basta espiar um pouco a mãe ou o pai em ação na cozinha para entender como tudo foi terminar assim. A mãe vem sonhando com jacarés com uma insistência que me faz pensar em muita coisa. Levado ao pé da letra, o sonho, no qual a mãe luta com o animal, pode não querer dizer nada. À luz dos incontáveis fenômenos sobre os quais não temos tanta certeza, porém, significa muito. Por exemplo, que a mãe talvez precise enfrentar uma criatura agressiva, cheia de dentes, que submerge nas águas mais turvas de um rio caudaloso tão logo algum perigo a ameace. A mãe saberá se defender? Há um agravante. A mãe sonha lutando com jacarés não em seu habitat natural, a água. As lutas são travadas na cama, o centro nervoso de um palácio doméstico. Ali, debaixo dos lençóis, ...

Pôr do sol em Marte

E o que dizer do pôr do sol em Marte, o planeta vermelho, o último da região telúrica, o mais próximo da cordilheira de resíduos estelares? Marte, refúgio sideral, Pasárgada dos desajustados, montículo de nada, anexo sem serventia, grande balcão de negociantes fantasmas. Marte, uma Terra que não deu certo, sem aprumo, sem eira nem beira, sem ministério nem mistério. Marte, a locomotiva solitária de sonhos interrompidos.  O maior cânion, o maior vulcão, a maior varanda desabitada do sistema solar. A grande promessa não cumprida do turismo intereslelar. O único deus da guerra a nunca ter esmagado sequer uma formiga. Vermelho, distante, confuso, ambíguo, atmosfera irrespirável, solo pedregoso, vegetação inexistente. Ainda assim, uma ida a Marte valeria qualquer pôr do sol terráqueo, uma passada por Marte e daria todas as tarefas por encerradas, uma escapada a Marte e quedaria satisfeito ao final do dia, cansado da gravidade, da preocupação com neutrinos, da conta de intern...

A orquestra

Olha, embora pareça o contrário, às vezes é muito difícil dizer alguma coisa diferente da usual empregando as mesmas palavras ou palavras da mesma família, variando apenas o ritmo da frase e a pontuação, recorrendo a meia dúzia de adjetivos e outra meia dúzia de advérbios, sempre vistos com desconfiança. É difícil por muitas razões, mas principalmente porque a capacidade de soar diferente exige um sem número de atributos e habilidades, tais como talento e disposição, além de técnica e sorte, e tudo isso tem que caminhar junto como numa orquestra, e muitas vezes até tentamos fazer com que a música soe harmoniosa como se tocada por uma orquestra afinada, mesmo quando o resultado lembra uma algaravia sonora. Olha, por causa dessas e de outras dificuldades, tantas que sequer posso enumerar, frequentemente abrimos mão da ideia odiosa de orquestra e logo agradecemos a todos os deuses por isso. É quando resolvemos tocar qualquer música, em qualquer tom, de qualquer jeito, com qualqu...

A maior diversão

O filme começou de repente. Tirei a mão do meio das pernas. Ela deu um sorriso, que devolvi um pouco sem graça, um pouco à vontade. Ela pediu: continua enquanto não começa mesmo, enquanto não acontece nada, enquanto é escuro. Eu cochichei: tem um senhor sentado atrás da gente, um senhor gordo, um senhor respeitável. Ela virou discretamente em direção ao homem gordo e depois disse: não tem problema, ninguém vai acreditar, ninguém se preocupa mais com nada. Eu rebati: claro que tem, há sempre alguém que foge à regra, esse senhor gordo parece bastante preocupado com tudo. Ela franziu a testa: estamos perdendo tempo, estamos perdendo energia, estamos perdendo gozo. Agora foi minha vez de dar risada: estamos ganhando o jogo, o homem parece ter dormido, imagino que um senhor respeitável preocupado com tantas coisas sempre durma um pouco antes do filme. Ela guiou minha mão novamente até o meio das pernas e segredou baixinho qualquer segredo abafado pelo rugido do leão da MGM. Pedi...

Qualquer lugar estranho

Da ponte viu que um novo espigão tinha sido erguido bem ali, perto dos navios encalhados e da carcaça ferruginosa do Mara Hope, perto da área onde o governador pretende construir um aquário gigantesco para satisfazer desejos pessoais e oferecer aos de fora o melhor em termos de visitação guiada a uma vida marinha controlada com rigor e medida por instrumentos afinadíssimos trazidos de longe a um custo jamais informado, perto ainda de uma comunidade pobre, perto também de uma dupla de policiais, um deles mais bronzeado que o outro, ambos aparentemente familiarizados com a vizinhança, ambos possivelmente assustados com a vizinhança. Perguntou-se se o espigão era recente. Era? Parecia obra inacabada. Diferente da ponte velha, estragada pelas três supremas variáveis que concorrem para a degradação não apenas de superfícies, mas também de pessoas (tempo, uso e abandono), o espigão tinha essa natureza indisfarçável de novidade envelhecida a fórceps. Forçava a barra na condição po...

Se você quiser ver

1.   Dizem que a gente encontra sempre os livros que procura. Isso é apenas parcialmente verdadeiro. No mais das vezes, a gente sequer sabe o que procura, incluindo livros, até finalmente encontrar.  2.   Entre uma coisa e outra há tanta ciência inexata que é melhor colocar o assunto um pouco de lado e passar ao que está  de fato   ao alcance: o que não encontrar, para onde não olhar, quais distrações evitar. No fim das contas, tudo se equivale de alguma maneira, quer na complexidade, quer nas aparências, e escolher talvez seja tão difícil quanto não escolher. E carregar tão complicado quanto deixar pra trás. Isso também é apenas parcialmente verdadeiro.    3.   Encontrei Se você quiser ver uma baleia numa tarde de sábado de outubro. Não encontrei, fui encontrado. Estava distraído na livraria quando uma moça muito bonita me cutucou e disse: olha que lindo. Olhei, e era mesmo lindo. Depois da leitura, porém, concordamos imediatament...

Guarda-chuva

Uma última coisa: não vá pensando que estou querendo esticar ainda mais a conversa, que volto porque passo dos limites, que a insistência é uma dádiva, que, não faz tanto tempo assim, eu fui embora e acabei não indo além da esquina etc. Engula esse choro, eu diria se fosse uma mãe bem cruel e você uma criança a quem todos os amiguinhos tivessem deixado pra trás. É que preciso dizer, expressar, entende? Não basta formular, tenho que materializar a pergunta, recriá-la no tempo e no espaço, abri-la como um guarda-chuvas ainda que não esteja chovendo, me proteger dos golpes ainda que não caiam canivetes. Eu faço perguntas para me abrigar da chuva. Não é preocupação com as roupas, é comigo.   Vamos, não tenho tanto tempo. Passou do meu horário e a aula já começa, não quero perder. A prova oral é na semana que vem. Esse sorriso... quer dizer o quê? Não, é uma pergunta de verdade, não embute nada, não é capciosa. Não esconde outra intenção, não quero saber de nada além d...