Pular para o conteúdo principal

Os sonhos da mãe




Passo agora a contar o sonho da mãe, uma geminiana de 54 anos, separada, três filhos, dois homens e uma mulher com idades variando entre 33 e 25, dois dos quais casados duas vezes, um deles convencido de que frequentemente basta espiar um pouco a mãe ou o pai em ação na cozinha para entender como tudo foi terminar assim.

A mãe vem sonhando com jacarés com uma insistência que me faz pensar em muita coisa. Levado ao pé da letra, o sonho, no qual a mãe luta com o animal, pode não querer dizer nada. À luz dos incontáveis fenômenos sobre os quais não temos tanta certeza, porém, significa muito. Por exemplo, que a mãe talvez precise enfrentar uma criatura agressiva, cheia de dentes, que submerge nas águas mais turvas de um rio caudaloso tão logo algum perigo a ameace. A mãe saberá se defender?

Há um agravante. A mãe sonha lutando com jacarés não em seu habitat natural, a água. As lutas são travadas na cama, o centro nervoso de um palácio doméstico. Ali, debaixo dos lençóis, na foz da alcova, rolando de um lado pro outro, a mulher agarra-se ao bicho.  

Finalmente, nesses sonhos, a mãe nunca vence os jacarés, mas é jogada para fora da cama por eles. Surpreende-se no chão, assustada, mas intacta.   

Presumo que ser expulsa da própria cama por outro animal queira dizer mais do que posso imaginar agora. Por isso resolvi escrever. Como tenho sonhado bastante com o que escrevo, gostaria de ter a oportunidade de entrar nos sonhos da mãe e, no último instante, quando ela estiver prestes a cair, impedir a queda. 

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...