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Corpo vizinho

Tem esse sambinha, quase redundante, um samba triste, lento, que se confunde com música brega, e só acredito mesmo que é samba porque entendo quando dois batuques ritmados acompanham uma voz melosa. Entendo que não poderá ser outra coisa além de samba. Dito isso, cabe reafirmar, é absolutamente incrível e enigmático o exato instante em que toda a aguda compreensão do tempo, da trajetória e do sentido se materializa diante do próprio nariz, e você se limita a observar, não assente nem discorda, apenas assiste e disso retira uma ou outra sabedoria, nada mais, porque a) se trata realmente de um momento super-rápido, mal temos tempo de piscar e já se foi, e b) a natureza dessa compreensão tem a pele tão fina e porosa que não sustenta bem uma resposta, ainda que houvesse resposta. Não é tão difícil de explicar, considerem o susto que nos invade quando imaginamos ter vivido uma situação, os mesmos personagens, o mesmo gesto, a mesma fala, então o que estou falando? É semelhante, com a...

Todas as esquinas

Retirou a lêndea do cabelo da filha, em seguida ligou a TV no programa da Ana Maria Braga. Desligou. Ligou o rádio. Estavam apenas os dois em casa. As horas sem dormir desenhavam na tela de 32 polegadas um rosto abatido, mas não desesperado. Tinha feito o que podia: ligara pra polícia, avisara amigos e parentes, colara cartazes no bairro, refizera o trajeto sozinho à procura de reposta. A foto do álbum de Natal agora sorria para estranhos nos cruzamentos de ruas e avenidas da cidade na esperança de que alguém pudesse tê-la visto. Logo abaixo, um número de telefone e o e-mail para contato. Tinham ligado da construtora bem cedo. Estava livre o restante da semana, cuidasse dos filhos. E, principalmente, não fizesse besteira. Boatos são o que são: boatos. Escutou tudo fora do corpo, vendo-se com o celular junto à orelha enquanto flutuava à altura da lâmpada fluorescente. No final da tarde resolveu sair um pouco. Foi até a padaria, perguntou na oficina se o conserto ainda iria demorar, ...

Foi sem aviso

Na verdade, se apertasse bem os olhos e depois os abrisse num segundo, se fizesse isso, espremer depois soltar, entenderia o sumiço, a súbita ida ao cinema (sem volta), a passada no mercadinho (que se transformara num hiato de dez dias, até agora), o pagamento das contas na farmácia (apenas ida). Entenderia principalmente esse intervalo ao longo do qual não a tinha visto pentear os cabelos, fazer as unhas, hidratar a pele, esfregar as roupas da escola contra a pia e adicionar água ao cozimento da carne, preparada segundo os gostos dele. Os gostos do pai. Intrigava-o que não se perguntasse onde estaria após tanto tempo, do que se alimentava, se tinha frio ou sede. Depois de ter ouvido tantas vezes, porém, era natural que começasse a formular hipóteses, elaborar respostas para a charada. Nenhuma cabia nela. Uma fuga ordinária, “foi sem aviso”, “deixou pra trás marido e filhos”, pedaços de conversas sussurradas que resgatava da sala e dividia com os demais. Um quadro geral de ruíd...

O que fariam de agora em diante

Foi logo depois de haver lido um artigo científico sobre escrita espontânea e livre associação de ideias, primeiramente sequer relacionou a manifestação ininterrupta e o encadeamento anárquico das frases, mas em segundos tudo fez sentido, e o emaranhado antes indistinto ganhou corpo reconhecível, era algo mágico, repetia a si mesmo, bebendo em seguida um gole de cerveja, essa sensação produziu uma fagulha de prazer imediato, não a da cerveja, então se sentou mais uma vez e quando tudo parecia finalmente “harmonizado cosmicamente” como sempre desejaram que estivesse, o que viu desenhar-se na parede descascada do banheiro foi um conjunto heterogêneo de entulho produzido durante o tempo em que estavam juntos, cada monte de chorume desafiando a necessidade que tinham um do outro, cada santa, cada aparição miraculosa acenando para um desfecho. O que fariam de agora em diante, não havia dúvida, dependeria do que enxergassem naquela miragem, se milagre ou abismo.

Gato de Schrödinger

Tinha essa caixa. Quando aberta, revelava outra igualzinha à primeira, exceto por uma listra amarela pintada à mão nervosa. Como se resultasse de gráfico desenhado por uma agulha de sismógrafo. Ou representasse assinatura de carta apaixonada prestes a encontrar destinatário. O que era também um pouco óbvio. O importante é que, à semelhança do engenho imaginado havia uma década, a caixa escondia um segredo. Não três ou dois, tampouco uma porção indistinta de pequenos animais recém-criados, mas um único segredo. Cativo, morno, relutante, que não se confundia com nenhum outro. Compreende-se perfeitamente agora a razão por que o mantinha aprisionado, mal alimentado, em espaço suficiente para nada. O dia a dia cumprido sob rígido procedimento. Pés descalços, maltrapilho, vendado. Não permitia que fosse até a esquina, e se porventura anoitecesse, o que ocorria a cada 72 horas, partia imediatamente à procura do molho de chaves, trancava portas, passava janelas ao ferrolho. Então podia l...

Obra de insofismável valor estético

Sublinhem-se como derivados naturais da praga chamada “contentamento espiritual” a esterilidade, o conforto, a acomodação, e só quando se sente a aprazia ocupar toda a extensão do continuuum corpo/mente é que se aclara de vez a máxima segundo a qual a dor e a paixão, não precisamente nessa ordem, são peças inextricáveis do processo maior que é a vida. Entendendo-se por vida “a jornada aventurosa do nascimento à morte”, além dos acontecimentos maiores e menores compactados nesse interregno, acontecimentos esses que podem transbordar significado ou, ao contrário, exibir pobreza franciscana. Processo maior que é a vida , murmurou, colocando à prova a seriedade de que se julgava locatário. Era óbvio que evitava franzir a testa em excesso. Temia as marcas da expressão. Todavia, começou a rir até provocar o próprio engasgo e urinar a calça jeans. Que processo? , alguém perguntou de chofre. Ora, que processo! , quis debochar, mas lembrou um caso parecido que lhe ocorrera ano passado. ...