Foi logo depois de haver lido um artigo científico sobre escrita espontânea e livre associação de ideias, primeiramente sequer relacionou a manifestação ininterrupta e o encadeamento anárquico das frases, mas em segundos tudo fez sentido, e o emaranhado antes indistinto ganhou corpo reconhecível, era algo mágico, repetia a si mesmo, bebendo em seguida um gole de cerveja, essa sensação produziu uma fagulha de prazer imediato, não a da cerveja, então se sentou mais uma vez e quando tudo parecia finalmente “harmonizado cosmicamente” como sempre desejaram que estivesse, o que viu desenhar-se na parede descascada do banheiro foi um conjunto heterogêneo de entulho produzido durante o tempo em que estavam juntos, cada monte de chorume desafiando a necessidade que tinham um do outro, cada santa, cada aparição miraculosa acenando para um desfecho.
O que fariam de agora em diante, não havia dúvida, dependeria do que enxergassem naquela miragem, se milagre ou abismo.
Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...
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