Pular para o conteúdo principal

Obra de insofismável valor estético


Sublinhem-se como derivados naturais da praga chamada “contentamento espiritual” a esterilidade, o conforto, a acomodação, e só quando se sente a aprazia ocupar toda a extensão do continuuum corpo/mente é que se aclara de vez a máxima segundo a qual a dor e a paixão, não precisamente nessa ordem, são peças inextricáveis do processo maior que é a vida.

Entendendo-se por vida “a jornada aventurosa do nascimento à morte”, além dos acontecimentos maiores e menores compactados nesse interregno, acontecimentos esses que podem transbordar significado ou, ao contrário, exibir pobreza franciscana.

Processo maior que é a vida, murmurou, colocando à prova a seriedade de que se julgava locatário. Era óbvio que evitava franzir a testa em excesso. Temia as marcas da expressão. Todavia, começou a rir até provocar o próprio engasgo e urinar a calça jeans.

Que processo?, alguém perguntou de chofre.

Ora, que processo!, quis debochar, mas lembrou um caso parecido que lhe ocorrera ano passado. Interrompido por um aluno, que o havia provocado atirando sentenças indubitavelmente contestatórias, tais como “os maias e tal e tal e tal” e “história para retardado esse papo de apocalipse”.

Não houve jeito. Recorreu a Paulo Freire, sem sucesso. Acabou empurrado em direção a um beco sem saída pedagógico. Não pretendia ver-se encalacrado novamente, então partiu para o ataque.

O processo, repetiu, fingindo deter-se no que parecia um raciocínio esfiapado, apegando-se a derradeiro e questionável recurso dialético. O processo maior que é a vida é um conceito fechado em si mesmo, respondeu finalmente sem disfarçar a opção pelo obscurantismo.

Para gozo íntimo, ninguém replicou.

Golpe de mestre. Isso nem de longe era o mais importante, todos sabiam, no entanto foi desse modo que pôs fim a duas horas e vinte e sete minutos de um entrevero intelectual desgastante.

Pediu cerveja e pastel de carne. Fumou e dançou a noite inteira.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...