Pular para o conteúdo principal

Foi sem aviso

Na verdade, se apertasse bem os olhos e depois os abrisse num segundo, se fizesse isso, espremer depois soltar, entenderia o sumiço, a súbita ida ao cinema (sem volta), a passada no mercadinho (que se transformara num hiato de dez dias, até agora), o pagamento das contas na farmácia (apenas ida).

Entenderia principalmente esse intervalo ao longo do qual não a tinha visto pentear os cabelos, fazer as unhas, hidratar a pele, esfregar as roupas da escola contra a pia e adicionar água ao cozimento da carne, preparada segundo os gostos dele.

Os gostos do pai.

Intrigava-o que não se perguntasse onde estaria após tanto tempo, do que se alimentava, se tinha frio ou sede. Depois de ter ouvido tantas vezes, porém, era natural que começasse a formular hipóteses, elaborar respostas para a charada. Nenhuma cabia nela.

Uma fuga ordinária, “foi sem aviso”, “deixou pra trás marido e filhos”, pedaços de conversas sussurradas que resgatava da sala e dividia com os demais. Um quadro geral de ruídos, painel sonoro, não precisamente uma explicação, disso ninguém era capaz, não sem venenos.

Não podia imaginar a razão, entretanto estava claro que o desaparecimento da mulher de 34 anos não havia provocado no menino o mesmo conjunto angustiante de medo, dor e desesperança.

“Um dia aconteceria”, era o que diria a um dos tios que chorava na sala. “Um dia ela iria embora.”

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...