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Ela faria qualquer coisa, eu sei

Obviamente considero surpreendente o interesse que temos, ela por coisas diversas, eu pelas mesmas coisas de sempre, ela de maneira espontânea, límpida, vinda talvez dos olhos ou do desenho rascunhado da boca, eu de uma equação cujo resultado deveria ser previsível, mas que, na prática, acaba se tornando uma nebulosa de bolinhas de árvore de Natal, se é que entendem o que podem significar bolinhas de árvore de Natal espocando umas contra as outras quando esse universo de interesses e desinteresses se encontra numa cozinha povoada por amigos e, sim, não percebemos no que tudo redundará, e, não, não gostaríamos de saber do que se trata o que ainda não aconteceu.

Obviamente, temos interesses comuns, mas esses são poucos e sequer justificariam um olá discreto na parada do ônibus, de modo que só posso atribuir o que quer que esteja ocorrendo a duas coisas: primeiro, em algum momento da vida, conforme li ainda ontem no cartão azul da Fernanda, “a gente se encontraria sempre”, e a segunda coisa é que os encontros são como todo o resto: não obedecem rigorosamente a um conjunto de normas, mas a um conjunto de normas variáveis, tão variáveis quanto podem ser as ranhuras de uma folha verde ou seca, tanto faz, tão variáveis quanto podem ser os percursos do sorvete na casquinha quando começa a derreter.

Tão variáveis quanto podem ser os descaminhos, que é uma palavra de que gosto apenas relativamente porque denota certo romantismo na errância da vida e se aproxima bastante das músicas do novo folk nacional, expresso em letras de jovens compositores, daí preferir as expressões que não são precisamente uma oposição a essa onda sonora, mas são as que eu prefiro, e isso, segundo atestam os manuais de psicologia moderna, é o que de fato interessa.

Dito isso, me virei lentamente e procurei seu rosto no vão da noite iluminada apenas por breves correntes elétricas que se conectavam de boca em boca, sorriso em sorriso, dedos em dedos. Procurei, mas ela havia ido ao banheiro, eu supus que houvesse ido ao banheiro, que é teoricamente diferente. De tal maneira me senti ali sozinho que, sem mais, me pus a cantar uma canção cuja primeira frase ecoaria para sempre.

É uma canção completa: fala de amor, sexo e comida, e termina assim: “ela não faria qualquer coisa para ficar sozinha”.

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