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Mensagem para você

Senhor, Este não é mais um email inútil, como pode ver, embora reconheça que entre a utilidade e a inutilidade haja um oceano de pequenos usos, mas, ao contrário dos outros emails que o senhor vem recebendo ao longo dos últimos anos, desde que abriu uma conta de email e começou a receber mensagens, entre as quais catalogamos "mensagens de conteúdo triste", sempre abundantes, e outras, em menor proporção e sempre acanhadas, de "conteúdo alegre", o email que ora envio não deve ser confundido com a miríade de outras coisas que aportam na sua memória, senhor, e foi pensando em evitar essa confusão que tive a ideia de principiar esse email atentando exatamente para o ponto central da conversa que pretendo ter com o senhor, qual seja: esta não é uma conversa como qualquer outra, assim como este não é um email comum, prosaico, uma mensagem que, vista de longe, seria tomada como qualquer outra.  Não, senhor, convém desde já distinguir aquilo que tem relevância do ...

Filhos são peixes

Cecília, ontem  foi domingo, esse dia que, você logo aprenderá, é o mais chato da semana. Por uma razão simples: dentro de 24 horas ou menos, algo ainda mais assustador que o ronco do seu pai vem bater à nossa porta (em alguns meses, à sua também): a segunda-feira. Pra descontrair, mas também porque eu precisava confortar a sua mãe, pus uma música que ela adora. Como uma proto-Daiane dos Santos, você deu pequenos saltos, esticando ao máximo a pele fininha da barriga. Barrigas de grávidas me assustam, filha, principalmente quando se movem como placas tectônicas animadas pelas forças íntimas do núcleo terrestre. Comparo as barrigas a abismos ou grandes volumes d'água. Inexplicáveis e magnéticas.   É realmente esquisito passar a mão ali e sentir uma onda invisível mover-se como um peixe inquieto. Não sei como você parecerá dentro de dez anos, mas, pelo menos agora, é como se cada noite fosse um baile de debutantes e a música rolasse até de madrugada. Há pouco senti que, m...

Ciclista

Não sei o que há, mas que há, há. Sobre isso não tenho dúvida. Ainda agora fui ao supermercado e na fila todo mundo tinha essa cara estranha de quem escondia qualquer coisa, um segredo, uma cédula falsa ou uma caneta estourada no bolso, e, pior, nem se importava, estavam satisfeitos em portar essa verdade, qualquer que fosse ela, dividindo uns com os outros a maravilha que é parecerem normais quando não são. Depois fui almoçar e no restaurante a mesma coisa, o garçom servindo e o barman picando gelo e o caixa atendendo e por todo lado a sensação esquisita de que haviam combinado as regras de um jogo cujo início e fim só eram conhecidos por eles e ninguém mais, de modo que pedi água e saí imediatamente. Mas antes precisei comprar cigarros e seria gratuito dizer que a moça da loja de conveniências me recebeu com um sorriso suspeito, para dizer o mínimo. Foi aí que resolvi ir mesmo pra casa, ficar um tempo sozinho, calado, desliguei computador e tevê, liguei o ventilad...

Filtro

Imaginem olhar e enxergar não a paisagem exata ou as pessoas vestindo as cores que decidiram usar naquela manhã ou naquela tarde, mas um simulacro, uma aproximação mentirosa, algo como a distorção do que já é distorcido, o que também não é nenhuma novidade, não o verde ou o azul, mas o verde filtrado, o azul filtrado. Imaginem uns óculos com esses filtros fazendo a triagem não somente dos raios nocivos aos olhos, mas também de um espectro de cores. Imaginem esses óculos distribuídos em larga escala, imaginem as crianças agora usando esses óculos, imaginem as mães e os pais, as tias e os avós – o filtro que cada um escolher determinará também o que cada um vai enxergar. Passem agora ao futuro. Dentro de 100 anos o filtro não será mais de cores apenas, mas de camadas inteiras da realidade, pedaços da vida, zonas da cidade. Imaginem formatar uma cidade.  A minha fortaleza. Customizar áreas da realidade, transformá-las conforme gostos e poder aquisitivo. O que não quere...

Pedra fora de foco

Como podem ver, esse na foto sou eu com a minha mãe, a minha mãe está segurando um livro e nesse livro há a história de uma baleia que se refugia em algum ponto do oceano, a baleia foge ou ataca pescadores, ou é um golfinho. No começo minha mãe dizia que golfinhos e baleias eram irmãos ou primos. Tudo bem, eu dizia. Se puderem esticar um pouco o pescoço e mirar bem no fundo da imagem, atrás das árvores tem uma sombra projetada por uma rocha que não aparece na foto. No começo, quando não entendia nada, achava que meu pai estava naquela sombra. Mas ele tinha ido apenas trabalhar ou dormir noutro canto ou coisa assim. Minha mãe não gostava de falar das sombras nem de estar nas sombras, além do mais como aparecer nas fotos escondido atrás das árvores? Quem quer aparecer sorrindo numa foto renuncia não apenas à sombra, renuncia também a uma série de coisas que continuam a existir quando a gente esquece que essa fotografia é uma mentira. As fotos mentem tanto quanto ...

Oficialmente não estamos trabalhando com esse produto

Tudo bem, era mentira a historinha da banalidade, a sensação bovina de que nada se move e nesse nada as coisas baralham umas às outras, é uma grande mentira, há a superfície, esse céuzinho - céuzinho tem acento? Há esse pequeno céu azul tremulando de tão límpido acima das cabeças e das poças de cuspe que vou encontrando e recolhendo da rua como um catador de latas de refrigerante. Não sei vocês, mas tenho uma relação balcânica com as poças de cuspe. Estou com mania de usar balcânico e seus derivados (balcanizou, balcanizado etc.) em tudo, na lida diária, no trabalho, na vida sentimental. Uma hora toda vida sentimental se balcaniza, ou seja, vira uma praça de guerra. Ou ainda: uma geografia acidentada, esculpida em colinas e vales e corredeiras e rios etc., e nela soldados aliados e inimigos se enfrentam numa batalha encarniçada pelo controle de nada.   Não há dias banais nem excepcionais nem os presentes me desgostam tanto quanto as roupas velhas e os tênis ...

Sete filmes sobre mães