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Pedra fora de foco



Como podem ver, esse na foto sou eu com a minha mãe, a minha mãe está segurando um livro e nesse livro há a história de uma baleia que se refugia em algum ponto do oceano, a baleia foge ou ataca pescadores, ou é um golfinho.

No começo minha mãe dizia que golfinhos e baleias eram irmãos ou primos. Tudo bem, eu dizia.

Se puderem esticar um pouco o pescoço e mirar bem no fundo da imagem, atrás das árvores tem uma sombra projetada por uma rocha que não aparece na foto. No começo, quando não entendia nada, achava que meu pai estava naquela sombra.

Mas ele tinha ido apenas trabalhar ou dormir noutro canto ou coisa assim.

Minha mãe não gostava de falar das sombras nem de estar nas sombras, além do mais como aparecer nas fotos escondido atrás das árvores? Quem quer aparecer sorrindo numa foto renuncia não apenas à sombra, renuncia também a uma série de coisas que continuam a existir quando a gente esquece que essa fotografia é uma mentira.

As fotos mentem tanto quanto mentem as sombras projetadas pelas pedras, e se puderem continuar observando essa foto em que minha mãe e eu aparecemos, ela uma jovem senhora, eu um bebê, verão que a beleza é como a pedra que o fotógrafo esqueceu de enquadrar. 

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