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A fila no café

Toda cultura e educação e viagens ao exterior e visitas a galerias de SP ou RJ ou mesmo temporadas inteiras em périplo pelos destinos menos convencionais do mapa múndi não impedirão qualquer pessoa de disputar da pior maneira possível uma cadeira no café da livraria. A fim de garantir espaço para si mesma e para a própria família, a pessoa em questão fará tudo que estiver ao seu alcance na busca primitiva pela porção a que tem direito no rarefeito espaço lítero-gastronômico do estabelecimento, um dos mais movimentados da cidade numa noite de sábado e também índice de certa familiaridade com o que há de mais sofisticado em matéria de bem-estar espiritual. Para tanto, a pessoa se verá inclinada a recorrer a expedientes que, em outra situação, em outro momento, em outro país, acompanhada de outras pessoas que não aquelas do café localizado em Fortaleza, ou seja, em circunstâncias absolutamente diferent es, não hesitaria em condenar. São eles: a pressão psicológica que...

O lugar da barriga no mundo

A barriga é o verdadeiro espelho da alma. E se ninguém havia dito isso antes, trata-se de perdoável lacuna no desenvolvimento da ciência axiomática. Afinal, nem todo mundo atribui à região um protagonismo além do que desempenha no processo digestivo, o que é um grave erro. Mais que uma máquina de processar os alimentos, a barriga é uma usina de emoções. Do medo à paixão, a barriga capta, como nenhuma outra parte do corpo, o porvir, antecipando-o e traduzindo-o por meio de contínuas pulsações a que normalmente damos o nome de “friozinho”. Da ínfima perturbação no humor – próprio e alheio - aos eventos que promovem drástica alteração no eixo de nossas vidas, pondo em desalinho a execução das atividades rotineiras: tudo passa, antes, pela barriga, que, além de espelho d’alma, acaba funcionando também como filtro. Genuína estação de tratamento, beneficia-se da geometria do corpo, fixando-se a uma distância segura do peito e do ventre. Menos erógena que as tradicionais porções implicad...

Hipótese de Einstein

Tinha esse problema que não sabia qual era, nem se podia chamá-lo realmente problema, tampouco solução. Afinal, era possível que não passasse de algo orbitando um planeta que apenas muitas centenas de anos depois um grupo de cientistas reunidos em torno de uma ampla mesa branca decidiria rebaixar. Denominou-o simplesmente “dado”, uma maneira educada e algo limpa de abordar o “estado geral das coisas”, outra expressão a que recorria sempre que não se via suficientemente livre para conferir à realidade a nomenclatura adequada, o que acontecia com uma frequência acima do normal. Um tipo de máquina de Goldberg elevado à enésima potência: eis a situação. Um dado, portanto. Material ou imaterial, concreto ou abstrato – grosso modo, eram perguntas às quais não encontrava solução imediata, de modo que, assumindo tratar-se de um caso aparentemente típico de “ação fantasmagórica à distância”, conceito que vinha de empréstimo da teoria da relatividade geral de Einstein, optou por...

Março, quase abril

Amigos discutem na rua vazia. Falam sobre a possibilidade de um dia constituírem família, como seria a vida de cada um, a quem sairiam os filhos, mais ao pai ou à mãe, que tipo de educação teriam, e logo fica claro que a série de perguntas passando em rodízio como bolinhas de peixe servem ao propósito explícito de animar uma conversa de bar. Na prática, porém, resultam desimportantes. Ou eu as julguei desimportantes, dá no mesmo. Estava longe o tempo inteiro, dormindo em algum ponto entre a cama e o corredor, andando de lá pra cá, batucando os nós dos dedos no ferrolho da porta, checando a que intervalos os televisores ligados nos apartamentos vizinhos emitiam rajadas de luz, acendendo cigarros, investigando cada centímetro quadrado do rosto que surge quando de repente a tela do computador nos devolve uma superfície escura. E o que vemos quando a tela escurece? É um rosto alegre ou triste, cansado ou enérgico, atento ou satisfeito? Na rua vazia uma árvore ainda guarda ...