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Postagens

A palavra funda

Voltei a escrever numa brochura, caneta e papel. Letra e tempo. Preciso esperar que minha mão alcance o pensamento, que está à frente, penso ligeiro e me demoro a dar comigo mesmo. Quando nos encontramos, estamos em ritmos diferentes, modos diferentes de sentir o sentido. É aí quando paro e penso no tempo de que precisamos para que algo aconteça. A escrita se efetive. O traço se firme na mão e a mão guie com segurança, e não aos atropelos. Mas agora tudo vai em compasso, espero, a mão espera. Vamos andando ora acelerado, ora mais lentamente, como numa dança, uma coreografia. É um exercício de respiração pela palavra. Escrevo e leio e escrevo. Deixo pra trás, levo adiante. Tinha perdido esse costume, como se diz. Era apenas digitação, a mão desacostumada a batucar as palavras sozinha, a mão direita sobrecarregada. Dividia tudo entre duas mãos que escrevem, todos os dedos empenhados na tarefa difícil de dizer. E dizer tem sido cada vez mais custoso, cada vez mais necess...

Sobre Dante

Ontem finalmente descemos ao purgatório, Dante ainda maravilhado, Virgílio menos falante, as almas de sempre empenhadas em diálogos que se referem ao mundo dos vivos, mil e uma ninharias familiares, questiúnculas de uma Itália dividida em caquinhos de aristocracias em ruína, aleivosias, pequenas epifanias. E eu achando que Dante descia até o mundo fundo para encontrar a si mesmo. Eu crendo que a viagem de Dante seria como a do Coronel Kurtz, que entra no mais longe da "selva selvagem", para usar uma expressão dantesca que considero linda, ou uma espécie de caça à baleia branca promovida por um Capitão Ahab.  Noutras palavras: um empreendimento essencialmente humano porque não leva à redenção. E não esse vaivém por lagos ou montes ou outras partes de uma geografia falsamente sinuosa para chegar até o cume de qualquer lugar e lá encontrar Beatriz emanando beatífica toda a sua bondade e fé. Atravessar o inferno para encontrar a fé.   Nunca imaginei que almas al...

Agora

Descubro que a palavra que me deu era outra. Não uma vaga, não qualquer uma, mas agora. Disse “agora”, tratou de explicar enfatizando sempre o caráter de urgência, pondo mais acento numa sílaba e arregalando os olhos. É agora. Agora entendia, falou como se dissesse: cuide disto, cuide deste tempo, pense neste momento.  Perdi tantas coisas na vida, falou, a voz de repente mais baixa, mas sem perder serenidade. Perdemos todos, repeti. Era um cortejo de derrotas, perdas, poucas conquistas, mas havia sempre esse agora. Esteja preocupado, não tenso, mas de olho neste instante que passa. O agora que escapulia. Tinha dificuldade de pensar no momento, de plantar sementes e esperar que brotassem de imediato. Ou talvez o agora fosse o contrário de plantar, apenas semear sem a necessidade da espera, só atirar às lavouras e depois ir sem olhar pra trás. Quem sabe não fosse como andar de bicicleta numa ladeira, a facilidade de mover-se adiante, o impulso de cortar o excesso de rea...

Comer é uma oração*

Comida é ritual, tanto no preparo quanto na alimentação em si, passando por modos de servir e estar à mesa, sozinho ou acompanhado, homem ou mulher. Experimentem, olhem pros lados discretamente. Imaginem um casal à espera, se se sentam um de frente pro outro ou lado a lado. Se conversam ou cada um batuca na tela de celular, se comem alegremente ou se são personagens de um desses quadros de Edward Hopper no qual o humano é irrevogavelmente sozinho. Comer  é o contrário de solidão, sobretudo no Brasil, especialmente se falamos de um  comer  familiar, de mesa grande e farta, típico do nordeste de tradição senhorial, quando evocamos o gesto doméstico da mãe ou da avó ou do pai e do avô ocupando-se numa cozinha repleta de suas gentes, reunidas em festa. Mas  comer  também é estar só, festejar a si anonimamente, como numa oração que sopramos em rumorejos vagarosos, num movimento de coisas que só dizemos a nós mesmos quando em conversa particular. E tudo se e...

O vestido*

O vestido é uma peça vulnerável, disse uma amiga, melhor colocar um short, uma calça, hoje quero beber, quero encontrá-lo no fim da linha, da noite, naquela mesa marcada e pedir uma cerveja, melhor duas, depois uma caipirinha, antes uns pastéis, que não bebo de barriga vazia. O vestido, de fato, pensando bem, considerados os prós e também os contras, subtraídos os riscos, levando-se em conta as possibilidades, medidas as circunstâncias, tendo em vista o propósito, conforme a designação espiritual de cada um, sob pena de parecer ridiculamente insistente, o vestido, reparem, é uma peça essencialmente vulnerável, o vento, a mão, a farpa solta na cadeira, o homem tarado, a criança, a amiga. É bem possível que uma infinidade muito grande – redundante - de pessoas conseguisse erguê-lo facilmente, mas nem todos dançariam ao arrepio. * Postagem original em novembro de 2012. 

Ainda uma carta*

A gente se põe a escrever achando que chegará ao final do mesmo jeito, conhecendo o caminho e parando o tempo que achar que pode. Mas nunca é assim. O domínio se esfarinha. Queria escrever hoje o que não tivesse fim. Como em 1996, quando terminei um namoro e precisei andar de ônibus pela cidade. Ou em 2009, quando o casamento acabou e dei voltas pela rua do bairro que eu já conhecia tão bem. Aprendi a fumar andando em círculos. Ajudou, mas não funcionou. Isso foi em abril. De lá pra cá, choveu tanto que nem sei mais se é o tempo lá fora ou aqui dentro que deu uma piorada. Sei que escurece. Uma carta de despedida é também uma carta de chegada. É uma dessas ironias que a gente cria a pretexto de entabular conversa com gente estranha. É como um papo no elevador. Escrever para dizer que vai embora. Ou escrever pra falar que fica ainda. Ficar ou ir. Tudo em arte é uma separação, do corpo, da família, da vida. Li que García Márquez passou um ano e seis meses fora de casa para c...

Fio que se liga ao mar

Eu tinha escrito uma dessas coisas tristes que a gente escreve quando o mundo gira em falso e deixamos cair objetos que escolhemos carregar, pratos, louças, garfos, livros e caixas contendo fotografias, que se espalham pela rua e depois precisamos juntar com a ajuda de estranhos.  E montar em seguida o quebra-cabeças que somos nós mesmos, estendendo um fio de Ariadne para sair do labirinto e driblar o minotauro, chegando ao final sem entender direito como foi parar ali.   Mas aí reli e pensei: quero escrever uma coisa alegre. Dei meia-volta e refiz todo o caminho no mesmo passo, uma trilha de retorno desenhada por alguém diferente do que foi, não apenas nesse sentido de Heráclito, de que uma mesma pessoa não toma banho duas vezes no mesmo rio – porque o rio já é outro e ela também. A pessoa que regressa, como num dos livros do Alejandro Zambra, é sempre uma terceira, tenha passado o tempo que for, seja porque ela é uma, seja porque a casa é outra. São como uma ca...