Pular para o conteúdo principal

Postagens

O fim do ano

  Para todos os efeitos, o ano termina no próximo domingo, dia 30 de outubro. Termina porque depois dele não se sabe o que será. Quer dizer, a gente até tenta adivinhar, inventa um porvir, mas saber mesmo, não sabemos. Digo que termina, mas não sei se termina. Suspeito que sim, mas a dúvida de que não permanece. E assim vamos até domingo, num compasso de espera, mas espera do quê? Será que dá? O ano termina porque é como se os últimos três antes dele convergissem para esse momento. Termina porque depois será outra coisa, e é essa outra coisa que se mantém no horizonte, suspensa, sem forma, sem rosto ainda, apenas a evocação de algo melhor. Mas termina? Penso em tudo, na pandemia e nos meses seguidos em casa. Depois na volta pro trabalho, nas aulas, nas ruas novamente repletas de gente, nas praças e na praia que não frequento mais há muito tempo. O que será de tudo depois de domingo? Não consigo supor que as coisas simplesmente se organizem como se nada tivesse acontecido. Algo há d...

A vida em cortes

  A vida se verticalizou com o “reels”, essa palavrinha que aprendi numa viagem a trabalho. No caminho, o fotógrafo me ensinou que agora o formato padrão da captura da imagem é esse, e então desenhou no ar um retângulo virado, exatamente do mesmo tamanho de um celular. O que antes tinha amplitude agora se encurta, estreita. A gente perde o campo de visão, mas ganha supostamente em agilidade, uma vez que o salto de um vídeo pra outro é mais rápido. Basta deslizar, esse gesto cuja sonoridade, por si, já traz certo conforto. Me pergunto sobre o tanto de problema que resolveríamos na vida se a função de deslizar e colocar de lado já existisse de fato, e não apenas nesses aparatos tecnológicos, como uma potencialidade que se realiza apenas ali, naquele quadrante, e nunca fora dele, jamais no real. Não se deslizam o tempo morto, as horas numa fila, a espera, o semestre inteiro necessário ao aprendizado, em suma, tudo que não é primordialmente regido pelo gozo ligeiro, imediato. Mas o ree...

Quiet o quê?

Ouvi a expressão com um quê de curiosidade, sem atinar para nada além do significado das palavras soltas: “quiet quitting”, algo como “saída silenciosa”, uma retirada sem dar na vista ou vazando sem alarde, para recorrer a uma construção vernacular com ar de cearensidade. O leitor mais atento há de ter percebido que me interesso pelo jargão corporativo, sobretudo esse que tenta se fazer passar por coisa novidadeira e modernosa, quando no fundo é a quintessência da cafonice, do brega e do provinciano. Todos esses head pra lá e pra cá, esses approach, call, brainstorming e branding, esses business e core business que salpicam na conversa com a sutileza de uma rasga-lata estourando no pé do ouvido. Enfim, essa galáxia cosmopolita conjugada com desenvoltura por qualquer pé-sujo. Pois bem. Corri pra ver se era o caso, mas fiquei na dúvida. Primeiro porque o tal conceito não queria dizer exatamente uma demissão silenciosa, como tentaram vendê-lo inicialmente. Tampouco era uma operação tartar...

Brasil a la Balenciaga

  Fiquei pensando no tênis desgastado da Balenciaga vendido por dez mil reais. Roto, sujo, aparência de ter sido usado nos últimos três carnavais do Icaraí. Mas, a despeito disso, ainda caro, inalcançável ao bolso do vulgo pagador de impostos, principalmente se brasileiro. A ruína comercializada, o passado plasmado em artefato consumido por grife de luxo e posto em circulação restrita. O velho não é apenas velho, é exclusivo. Como se se pagasse também pela memória que o objeto carregaria, ao menos em intenção. O tênis da marca espanhola tem experiência sem ter tido de fato, entra no circuito com estatuto de peça de museu, um desses signos que remetem a civilizações antigas, encontrados em escavações num país qualquer de um continente distante. É como uma mensagem distópica. À falta de futuro, fabricamos o pretérito. Daí o nome da estética: “destroyed”. De tudo, séries e filmes atuais disponíveis nos serviços de streaming, do fim do mundo ao apocalipse zumbi, é o produto de massa...

Às margens de Ratanabá eu sentei e chorei

  Ratanabá é uma cidade fantástica cujos portões só se abrem em ocasiões especiais e em condições específicas, como quando a gasolina aumenta ou um ativista é morto na Amazônia. Ou quando descobrem gastos excessivos no cartão corporativo do presidente. Ou quando cai um novo chefe da Petrobras. Ou quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, numa pororoca de notícias tão ruins para o governo que, num piscar de olhos, evocadas por palavras mágicas, correntes miraculosas começam a se replicar na internet com a força de um impávido exército de grávidas de Taubaté e de ETs Bilus. Eis então que, nesse instante tão amargo para qualquer mandatário às vésperas de uma eleição, materializa-se Ratanabá, com sua tecnologia avançada mesmo para os padrões futurísticos de qualquer filme do Spielberg com dinossauros teleguiados. É algo incrível mesmo, como uma Atlântida do trambique, uma Terra Média da patifaria, uma Oz da malandragem, uma Hawkins da malfeitoria. Lugar terraplanado onde o leite conden...

Numa galáxia muito distante

  Estive horas entretido com as imagens do James Webb, telescópio a quem já aprendemos a tratar na intimidade, como um amigo ou amiga que viaja para outro país e de lá nos manda postais dos lugares incríveis por onde passou. Assim tem sido com o Webb, ou o JW, ou “Jaiminho”, como ouvi de uma especialista mais afeiçoada ao aparelho. Orbitando o Sol a 1,5 milhão de km, espiou as lonjuras do infinito-além e, tempos depois de revelada a foto, endereçou-nos pelo correio, com suas iniciais no verso. Como uma janela para o já havido que nos devolve também, ao mirar no distante, a própria ideia do futuro, o que essa projeção do olhar revela? Mais que pontinhos coloridos aureolados e cordilheiras cujos vértices estão repletos de pequenos berçários de estrelas, as fotografias do telescópio capturam passado e presente ao mesmo tempo. Estão ali o já morto e o nascente. Começo e fim enredados, indistinguíveis, dobras do tempo-espaço, matéria comprimida ou em expansão a velocidades e temperatura...

A eleição e o pastel

  O político em campanha comendo pastel é, como todos sabem, uma instituição brasileira. De Doria a Tasso, de Rosângela Moro a Serra, de Lula a FHC, todos já comeram ou teriam comido ou ainda irão comer pastel em algum momento de suas vidas eleitorais na cata do voto. Mas o que significa em si o gesto de comer o pastel? Que benefícios o candidato espera extrair do ato ao morder ou abocanhar o quitute? E por que o pastel e não outra refeição, como açaí e espetinho? O pastel é iguaria popular, verdadeiramente democrática, que agrada a gregos e troianos. Dificilmente um eleitor petista e um bolsonarista ou mesmo cirista discordariam de que, num domingo de manhã, com o sol a pino, um pastel com caldo de cana cairia muito bem. O pastel é incontroverso e sempre bem-vindo, portanto, e contra ele se colocam apenas aquelas almas na casa do sem jeito, pelas quais não se deve rezar nem um pai-nosso. Comê-lo é, dessa maneira, demonstração de uma presumida familiaridade com o povo. É uma conces...