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A eleição e o pastel

 

O político em campanha comendo pastel é, como todos sabem, uma instituição brasileira. De Doria a Tasso, de Rosângela Moro a Serra, de Lula a FHC, todos já comeram ou teriam comido ou ainda irão comer pastel em algum momento de suas vidas eleitorais na cata do voto.

Mas o que significa em si o gesto de comer o pastel? Que benefícios o candidato espera extrair do ato ao morder ou abocanhar o quitute? E por que o pastel e não outra refeição, como açaí e espetinho?

O pastel é iguaria popular, verdadeiramente democrática, que agrada a gregos e troianos. Dificilmente um eleitor petista e um bolsonarista ou mesmo cirista discordariam de que, num domingo de manhã, com o sol a pino, um pastel com caldo de cana cairia muito bem.

O pastel é incontroverso e sempre bem-vindo, portanto, e contra ele se colocam apenas aquelas almas na casa do sem jeito, pelas quais não se deve rezar nem um pai-nosso.

Comê-lo é, dessa maneira, demonstração de uma presumida familiaridade com o povo. É uma concessão que os de posses no exercício do mandato se permitem a cada quatro anos na certeza de que não precisarão repetir o calvário tão cedo.

É uma forma, diga-se logo e com todas as letras, de se mostrar conectado com as classes mais pobres, cuja gastronomia consagra o pastel como item obrigatório e senhor dos cardápios, uma espécie de pop star a quem ninguém faz qualquer reparo. O pastel é, apenas, e isso basta.

Há, no entanto, uma armadilha aí. Como o espelho mágico que a tudo desmascara, o pastel reflete a verdade e a mentira, de modo que, se a mordida é inautêntica, se soa inverossímil, se parece postiça como uma dentadura mal assentada, o eleitor descobrirá de imediato.

Ora, nada mais prejudicial à imagem do candidato ou da candidata do que uma expressão enojada ao provar do pastel. Uma mordidinha meio de banda, apenas com a ponta dos dentes, sem encostar os lábios, seguida de mastigação discreta, é um desastre para qualquer postulante e pode mesmo arruinar campanhas a presidente no Brasil e sepultar pretensões de deputados.

Convém, assim, muito cuidado na hora de escolher o pastel, o sabor, a procedência, o dia da semana e o ângulo da foto. Lembrem-se de Doria, flagrado em desaprovação depois de beliscar um pastel de feira, num fracasso que, embora não se fale em Brasília, foi o grande responsável por seu revés em 2022.

Outra que não se saiu tão bem na performance do pastel foi a “conje” do candidato ao Senado Sergio Moro, não pela inverossimilhança com que se deliciou com a comida, mas porque o fez tendo ao fundo, enquanto era gravada, uma mulher faminta revirando a lata do lixo.

Mesmo para simularem despojamento e fingirem ligações com as gentes comuns, os políticos devem entender que nem tudo é cenográfico nem abusar da teatralidade quando estão na rua. A mordida, por exemplo, pode ser falsa, e falsa também a satisfação do concorrente a cargo eletivo. Mas a pobreza que os cerca é tristemente real.

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