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Exercício II

As plantas no parapeito da janela demandam alguma atenção, os peixes nem tanto, é certo que se preocupa com eles, menos com o dourado, mais com o lápis, mas não a ponto de interromper o que esteja fazendo para verificar se água e comida estão em conformidade com aquilo que o vendedor da loja de aquários recomendara. Não se permite desvelo além da cota estipulada por si mesmo ainda muito cedo. É sua maneira tímida de ser egoísta. É também uma forma indisfarçada de se distrair dentro de limites bastante definidos. Não porá os pés fora do círculo, não fará nada que o intime a dar saltos, não se arriscará a abandonar o Projeto, ensaiará passos que possa executar com facilidade, dominará cada quadrante do brinquedo e saberá com alguma exatidão quando as contas não fecharem. É sua lei marcial. Mas leis, mesmo as pétreas, são facilmente subvertidas, pensou enquanto retirava uma a uma as folhas secas da planta do jarro menor, precisamente aquela que mais carecia de água, cujo...

Exercício I

Era uma fábula sem animais. A história de um amor, por certo. Uma mulher que amasse um homem e um homem que amasse uma mulher, mas, como elemento complicador, um recurso dramático de que invariavelmente lançam mão escritores, artistas, dramaturgos e cineastas, nem esse homem bem menos essa mulher soubessem de antemão que esse amor lhes seria útil, ou único ou finalmente que esse amor seria amor, posto que o sentimento é por definição resultado de uma vontade inexpressa, e as vontades inexpressas respondem por 87% de qualquer intencionalidade segundo apontam pesquisas na área. A intencionalidade não pode ser confundida com a intenção. São como primas queridas que em outra oportunidade passassem em branco uma à outra. A intencionalidade é a intenção em estado de larva. A intenção é intencionalidade envelhecida. Por exemplo: aplique à palavra “casa” a repetição por infinitos segundos. Logo ela deixará de fazer qualquer sentido. É um exercício de desmaterialização que as crianças e os v...

Fatos da semana

ZUMBIS PODEM PERFEITAMENTE AMAR, DIZEM ESPECIALISTAS Como se não bastassem as vendas do Natal e as guirlandas que chegam enviadas por clientes desejando feliz ano novo antes do tempo, ainda há os zumbis que me aparecem sempre, e quase sempre me assustam quando se fingem de mortos, mas todos sabemos que zumbis são 1) criaturas horrorosas que se arrastam pelas ruas à procura de carne, de sangue, de nada mais que carne e sangue em proporções desiguais, e 2) só sossegam quando conseguem alguma porção de ambos que possa satisfazer-lhes parte da fome, conclusão) assim é a vida, mortos de fome correndo desesperadamente atrás do que comer, entretanto ora a fome é algo que se possa driblar? Obviamente não, mas pode-se perfeitamente domesticar a fome e ensinar a fome que não é hora de comer, o que deve comer e, mais importante, por que deve comer. Mas fome que é fome sequer entende palavras, ela come. CASAL ENCONTRA NOSSA SENHORA, A ESCRITORA PERDIDA Não há nada de anormal comigo, disse pela te...

Um sapo previsível

Um erro? Foi o que pensou quando viu o copo de suco de laranja tombar, molhando por completo a página da revista semanal na mesinha de centro. O erro havia sido cometido bem antes, antes mesmo do primeiro encontro, naquele dia fora avisado reiteradamente, pequenos sinais emitidos por fontes a que não costumava atribuir qualquer credibilidade, mas que, agora, consultava sempre que dispunha de tempo, de tempo e paciência, de tempo, paciência e fé. Além do amor cego que funciona muito bem como uma caução. Ainda assim desconfiava de que qualquer coisa ali parecia sempre destinada ao disparate, e resolvia arriscar. O risco certamente valeria a pena quando transcorresse o tempo necessário, entretanto essa fatia vagarosa era caprichosa a ponto de se converter em infinitos potes de sorvete expostos à incandescência, que era a idéia mais próxima que tinha de algo que se esvai facilmente à simples passagem das horas, que era uma sensação bastante comum que o acometia sempre que estavam andand...

Uma carta como todas as cartas

Não sabia: era uma carta de despedida, uma carta de boas vindas, uma carta de cobrança, uma carta de intenções ou uma carta de amor? De todo modo, sentiu que deveria escrevê-la, e foi o que fez. Às 11h11, tomou o papel, soltou o papel, ligou o computador, fez café, sentou-se, pegou uma almofada, assentou as costas, tirou a sujeira dos pés, lavou as mãos, sentou-se novamente, desvestiu a camisa, pôs as sandálias, descalçou as sandálias, ouviu música, falou no telefone com uma amiga da escola. Só então pensou que não tinha razão para dizer o que quer que fosse dizer, que a natureza do tempo dispensara as cartas, que agora nada carecia de notas de rodapé, e mesmo essa constatação não seria suficiente para demovê-lo do intuito de escrever uma carta naquela noite. E mesmo a temperança de uma vida cheia de percalços não parecia ter valido de nada, ele estava convencido de que somente uma carta, seja de que natureza fosse, o salvaria do desespero que era encarar a cama encostada na parede e o...

Ela faria qualquer coisa, eu sei

Obviamente considero surpreendente o interesse que temos, ela por coisas diversas, eu pelas mesmas coisas de sempre, ela de maneira espontânea, límpida, vinda talvez dos olhos ou do desenho rascunhado da boca, eu de uma equação cujo resultado deveria ser previsível, mas que, na prática, acaba se tornando uma nebulosa de bolinhas de árvore de Natal, se é que entendem o que podem significar bolinhas de árvore de Natal espocando umas contra as outras quando esse universo de interesses e desinteresses se encontra numa cozinha povoada por amigos e, sim, não percebemos no que tudo redundará, e, não, não gostaríamos de saber do que se trata o que ainda não aconteceu. Obviamente, temos interesses comuns, mas esses são poucos e sequer justificariam um olá discreto na parada do ônibus, de modo que só posso atribuir o que quer que esteja ocorrendo a duas coisas: primeiro, em algum momento da vida, conforme li ainda ontem no cartão azul da Fernanda, “a gente se encontraria sempre”, e a segunda coi...

Não era a primeira vez

Era como se estivesse ouvindo Roberta Miranda e, de repente, ela, a namorada, repetisse um trecho da música, precisamente aquele que diz vá com Deus, vá com Deus, o amor ainda está aqui, vá com Deus, logo ele, que não cria em Deus havia pelo menos vinte anos, logo ele, que faltara as aulas do catecismo não porque quisesse mas porque o dinheiro da passagem era insuficiente e seria por ainda muitíssimo tempo, de maneira que somente a escola era prioridade, a escola e a natação, a escola, a natação e o ballet da irmã mais nova. Logo ele precisava inevitavelmente de alguma garantia, não de qualquer garantia, mas de uma garantia cuja essência dispunha sobre todas as demais garantias, uma garantia que era sobretudo matriz das outras, que não fosse somente um arremedo de garantia, mas voltava a dizer um salvo-conduto para amar. Era assim, explicava para ela quando brigavam sem xingamentos: é fundamental que me diga claramente que precisa de mim e apenas de mim, então posso ficar tranquilo e l...